Ao DN, numa entrevista telefónica, defende, porém, tal como Trump, que os europeus têm que investir mais em Defesa e que a NATO não pode depender tanto dos EUA..Como acha que serão no futuro as relações União Europeia - EUA com Donald Trump?.Serão muito más. Donald Trump é um homem de negócios e, muitas vezes, quando queria fazer negócios, via sempre a União Europeia como problema. Agora está a trazer a sua perspetiva de homem de negócios para a presidência, estando já a tentar fazer acordos bilaterais, com membros da UE, como por exemplo o Reino Unido. Acho que há uma abordagem de confronto em relação à União Europeia..Numa carta enviada aos líderes europeus, antes da cimeira de Malta, o presidente permanente do Conselho Europeu, Donald Tusk, considerou Donald Trump como uma das ameaças à UE. Mas a maior ameaça à UE vem do exterior ou encontra-se, por outro lado, no interior dela?.Eu li a carta de Donald Tusk e não é bem isso que ele diz. Os media destacaram isso, mas o que a carta diz é que há desafios externos à UE, que vêm de sítios diferentes, como a Turquia, a Rússia ou os EUA. Ele também fala de ameaças internas. A sua carta diz "estamos a enfrentar tudo isto". Acho que não foi dirigida a Trump em si, mas aos EUA. Ele diz que a UE devia fortalecer-se. Concordo com ele..[artigo:5650167].Como vê, dentro da UE, a subida de partidos como o PVV de Geert Wilders na Holanda, a FN de Marine Le Pen em França ou a AfD de Frauke Petry? Quão perigosos poderão vir a ser?.Eu acho que é importante perceber que Trump não é um fenómeno isolado, nem significa que está alguma coisa errada apenas com a América, pois os europeus estão a lidar exatamente com o mesmo fenómeno. Vemos por todo o lado, alguns até estão no governo. Na Hungria, vemos o senhor Viktor Orbán a festejar a eleição de Trump. Na Polónia, o governo também está muito interessado no que ele diz. Isto não é isolado. Com as eleições que vão acontecer em breve na Europa, a pressão política aumenta. Há o brexit, no Reino Unido. Então, este é um fenómeno mais vasto..Alguns analistas consideram que Trump tem mais poder para dividir a NATO do que a UE. Concorda? Se os EUA deixarem de apoiar a NATO e o Reino Unido sair mesmo da UE, quem irá garantir a segurança da Europa?.Vocês. O que acho que Trump pode querer dizer é que os europeus têm que gastar mais em Defesa. Esse é um pedido razoável que a maioria dos americanos apoiará. Ele diz que é preciso fazer mais contra o terrorismo. Aí, americanos e europeus estarão de acordo. O problema começa quando ele diz que é preciso lidar com os russos. Isso é um problema por causa da invasão russa da Ucrânia e da anexação da Crimeia. Não sei como isto se vai desenvolver. Mas não é a NATO que está em apuros, mas sim a UE. O que podemos ver é os EUA a tentar pôr os países da UE uns contra os outros..Durante muito tempo as pessoas tomaram a paz como dado adquirido na UE e os governos desinvestiram em Defesa. Como irão agora convencer as opiniões públicas de que é preciso gastar mais em despesas militares e contribuir mais para a NATO?.Bem, é esse o trabalho dos líderes europeus. Vemos todo o tipo de ameaças, vindas de várias partes. Mas vejo a questão de uma forma muito simples: os EUA gastam 6,6 euros por dia em segurança, cada cidadão europeu gasta 1,1 euros por dia em segurança. Não é um equilíbrio justo. Se cada cidadão europeu pagasse 0,25 cêntimos mais por dia pela sua segurança, isso seria 2% do PIB europeu. É disso que estou a falar. Parece-me que não é pedir muito que paguem mais 0,25 cêntimos por dia pela vossa segurança europeia..Mikhail Gorbachev, último presidente da URSS, escreveu na Time que "parece que o mundo se prepara para a guerra". Quando, como e onde poderia surgir uma nova guerra fria?. A Guerra Fria era pautada por uma ideologia. Não há qualquer ideologia nisto. O que há é uma pressão dos nacionalismos, aqui, na Europa, noutras partes do mundo..E se Donald Trump encorajar demasiado Benjamin Netanyahu, poderia haver, por exemplo, um ataque de Israel contra o Irão?.A tensão na região é muito elevada. Penso que os EUA não deverão intervir..E em relação à estratégia da Rússia? Acha que o presidente Vladimir Putin pode tentar manipular Trump para servir os seus próprios interesses?.Eles vão ter que decidir que tipo de relação querem ter. Acho que o instinto de Trump é o de não continuarem a lutar um contra o outro e o de trabalharem em conjunto. Não estou certo de que isso vá resultar. A Ucrânia continua a ser um problema, a menos que os russos mudem a sua abordagem, algo que não estou certo que aconteça. No Médio Oriente, os EUA querem que a Rússia ajude a combater os terroristas, mas nem sequer se consegue chegar a acordo sobre quem é terrorista e quem não é. Há vários pontos de vista. Há problemas que persistem..No comércio internacional, dadas as críticas de Trump na campanha, dificilmente o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio de Investimento (TTIP) será realidade?.Bem, Donald Trump não disse muito sobre o TTIP. Ele até agora só cancelou a participação no Acordo de Parceria Transpacífico (TPP), também mostrou que está a privilegiar uma abordagem bilateral com o Reino Unido. É preciso garantir que as relações Reino Unido-EUA, Reino Unido-UE e UE-EUA sejam relações e que não se ponham em causa umas às outras.. O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, disse que o proteccionismo de Trump pode obrigar a UE a procurar novos parceiros comerciais. Uma maior viragem para a China, por exemplo, poderia ser entendida por Trump como uma ameaça?.Trump veria isso como um ato hostil, uma vez que ele se está a preparar para entrar em conflito com a China. Ele conta com os europeus para entrarem nesse conflito com ele. Acho que eles não o farão, mas também trabalharem ativamente com a China contra os americanos faria com que fossem eles a pôr em perigo a aliança, não Trump.