"Trump é um ator, aquilo em que ele realmente acredita eu não sei"

David Altheide

David Altheide, professor jubilado da Universidade Estadual do Arizona, especialista há 40 anos na análise da relação entre os media e a política, esteve em Portugal no âmbito do Programa Fullbright. O DN entrevistou-o na Universidade Católica de Lisboa, instituição que o acolheu. A conversa foi centrada em Donald Trump, magnata que graças à ajuda da televisão e dos novos media conquistou a Casa Branca.

Para alguém como o senhor, que estuda a relação entre os media e a política há décadas, Donald Trump representa algo de verdadeiramente novo ou é o culminar de uma tendência?

Donald Trump é um político único na história recente americana. Provavelmente, no passado, o político que, como populista, apelou às emoções mais negativas das pessoas terá sido George Wallace, quando fazia campanha para a presidência, há meio século. Mas Trump é único, certamente único, por ter sido eleito presidente dos Estados Unidos. Nunca houve ninguém como ele, algumas pessoas diriam, em cem anos. E o meu interesse em Trump não é em Trump per se, mas na atração que exerce sobre os eleitores. Recebeu 63 milhões de votos, e não há uma explicação simples para isso. Mas o que acho interessante acerca de muitos desses votos é que ele foi capaz de apelar ao que eu vejo como a ira. E a ira, em geral, é baseada no medo. Pergunte se a maior parte das pessoas estão zangadas com algo, e se se falar um pouco mais encontrará uma preocupação com perder algo ou faltar algo. Trump apelou a um passado que nunca foi. Com o seu slogan "Fazer a América grande de novo" a ideia foi novamente voltar-se ao que uma vez se foi. E, sabe, isso é muito nostálgico, e as pessoas têm este ideal do que foi a América grande. Mas quando foi isso mesmo?

Talvez logo após a Segunda Guerra Mundial, os anos do baby boom, até nesse 1946 em que Trump nasceu...

Mesmo isso é algo questionável para o que ele tem em mente, e para explicar o atrativo. De certa forma, Trump apresentou uma espécie de quadro em branco e as pessoas podiam preencher as suas próprias ideias acerca do que o ser grande era. Quem eram as pessoas, qual a sua aparência, que religião praticavam, qual era o carácter do país nessa altura, comparado com aquele que temos agora. Isso é muito, muito interessante. Portanto, Trump foi capaz de apelar a muita raiva e medo e chegou a presidente. E isso, para muitas pessoas, é interessante. E em muitos casos muito desconcertante. Porque, da minha perspetiva, que não sou um especialista em voto, a verdadeira explicação não foi que ele prometeu mais empregos ou melhores empregos. Essa não foi a razão principal por que ganhou a eleição. Mas, mesmo assim, é preciso ter em mente, se ele não tivesse ganho os estados da Pensilvânia, do Michigan e do Wisconsin por um total de 78 mil votos hoje não seria presidente. De facto, Hillary Clinton até teve mais três milhões de votos, votos populares.

Imagine Trump como candidato há 25 anos como Ross Perot, por exemplo, sem os novos media, apenas os media tradicionais. Aqueles fazem a grande diferença para alguém como Trump?

Os media em geral fizeram toda a diferença para Trump. Pelo trabalho que fiz ao longo dos anos noto nele uma espécie de puro presidente, não apenas da televisão, mas um puro presidente das redes sociais também. Presidente da televisão no sentido de puro entretenimento. Os meus estudos sobre media, especialmente a televisão, focam-se nos formatos que são usados, nos atrativos. E ultimamente é o entretenimento nos Estados Unidos. Lembre-se de que Trump teve um programa de televisão durante vários anos. E nesse programa representou um chefe determinado e autoritário, que falava duramente e tomava decisões difíceis sobre pessoas. Foi um programa de televisão popular. Tem havido outros atores na política nos Estados Unidos, até um que chegou a presidente. Mas Ronald Reagan tinha sido antes eleito governador, pelo menos. Tivemos também um lutador de wrestling profissional eleito governador do Minnesota, e assim por diante. Então, a persona dos atores faz uma grande diferença. O apelo de Trump, acho, vem daquele programa. Muitas pessoas tinham-se habituado a vê-lo no tal papel forte. E penso que quando se considera que muita da informação que obtemos da cultura popular nos Estados Unidos acerca do governo é que é mau, fraco, que desperdiça, que não consegue tomar decisões, um lixo, então esse atrativo, de alguém que finalmente vai entrar e fazer alguma coisa, é fortíssimo.

Trump já era famoso por causa do programa The Apprentice. Mas ao mesmo tempo ele foi capaz de se relacionar diretamente com as pessoas através dos novos media. Isto é algo natural nele? É algo que ele descobriu? É algo que acontece sem nenhuma estratégia?

Penso que houve uma estratégia muito clara. A sua abordagem foi falar diretamente com as pessoas, através do uso do Twitter. Franklin Roosevelt usava a rádio, mas épocas diferentes, medias diferentes. O atrativo de Trump foi falar diretamente pelo Twitter. Mas foi principalmente algum do estilo e conteúdo que o agarraram. Uma coisa que aconteceu com as redes sociais é que os media tornaram-se instantâneos, pessoais e visuais. E isto desenvolveu-se nos últimos dez anos, ou menos. Outro desenvolvimento importante foi a Fox News, que se tornou uma espécie de porta-voz para opiniões muito conservadoras, muito críticas, e não tem nenhuma vergonha disso. Bem, são jornalistas, mas mostram uma clara tendência ideológica, não são nada subtis.

Isso também é algo novo. Porque as pessoas algumas vezes olham paraos Estados Unidos e para a tradição de jornais como o New York Times de apoiar o candidato democrata e mesmo assim acreditam na imparcialidade da cobertura que fazem. Mas com a Fox News a ideia não é essa, a ideia é tomar uma posição, certo?

A Fox News tomou de certa forma a posição de muitos dos seus financiadores, que achavam que a maioria da imprensa dos Estados Unidos era liberal. Não penso que isso tenha sido realmente confirmado, empiricamente, de todo, mas não interessa, é o que as pessoas acreditam. E então eles pensaram que precisavam de um antídoto, de apresentar novas vozes, dar outras informações. Logo, o desenvolvimento da Fox News é muito importante, particularmente nos anos que levaram a Trump. Muito importantes foram os ataques a Barack Obama. A Fox News tendia a defender George W. Bush. Mas os ataques ao presidente Obama foram muito claros: que não era um presidente como deve ser. Que o programa que ele representava não era legítimo. E assim podiam continuar a divulgar histórias falsas, que Trump ajudou a difundir, incluindo a história de Obama não ter nascido nos Estados Unidos, de que era um muçulmano. Participaram no que algumas pessoas chamariam de notícias falsas, mas que eu chamaria desinformação, onde alguns factos são corretos mas distorcidos.

Acha que a Fox News criou o ambiente que deu a oportunidade a Trump?

Sim, deu a oportunidade porque começou a ser OK, especialmente durante a administração Obama, falar duramente em público acerca do presidente. E por duramente eu quero dizer crítica pessoal, não apenas política. Com o aparecimento das redes sociais, isto continuou bastante, porque agora, para apelar ao eleitorado, que está nas redes sociais, pode-se dizer coisas muito feias acerca das pessoas. E elas serão postas a circular dentro das redes pessoais nas redes sociais. E depois as pessoas podem mesmo tornar-se as suas próprias fontes de notícias. Qualquer um pode repetir informação, enviá-la para as suas redes, adicionar-lhe coisas. De repente, tinha-se estas novas fontes de informação por aí que eram muito diferentes dos media com audiências de massa.

Qual é o papel do The New York Times e do The Washington Post? São jornais de grande qualidade mas apenas para pessoas mais educadas, já não são capazes de criar opinião pública?

Ainda são muito importantes porque os chamados media alternativos os leem muito, porque ainda são vistos como tendo autoridade. Depois podem discutir com eles, atacá-los, ridicularizá-los. Os políticos leem-nos ainda, seja o The New York Times, o The Washington Post ou o The Wall Street Journal.

Mas não são tão influentes como no passado?

Não diretamente, mas de uma certa maneira indireta. De facto, a maneira de os deslegitimar atacando-os, como Donald Trump e algum do seu eleitorado têm feito, é uma forma de dizer basicamente que todos os media do establishment são liberais, cheios de mentiras, com factos incorretos. E logo isso, junto com as redes sociais, contribuiu para a ideia, agora muito popular nos Estados Unidos, de que todos os factos estão sujeitos a disputa. O que quer dizer, para muitas pessoas, que já não há mais factos reais sólidos. De repente, o aquecimento global ou as alterações climáticas já não são factos.

Mesmo com factos científicos?

Com factos científicos é a mesma coisa. Porque com isso vem a deslegitimação da autoridade. Então há uma visão anti-autoridade, antiespecialistas, a prevalecer. A fundação disto existe há muito tempo. Um livro famoso de um famoso historiador, Richard Hofstader, escrito nos anos 1960, Anti-intelectualismo na Vida Americana, antecipava isto que surge de uma forma extrema agora: a ideia de que todos os peritos têm uma agenda, de que os cientistas têm uma agenda e que qualquer opinião é tão boa como a deles. "Eu posso ir lá fora e estar frio, como é que eles podem dizer que o planeta está a aquecer?", dizem. Torna-se legítimo, em público, deslegitimar a ciência, tal como outras opiniões de especialistas que não são tão sólidas como ciência, como diplomatas, que têm visões do mundo.

Quão perigosa pensa que é para a democracia americana esta nova atitude, este relativismo de tudo?

Penso que é muito perigosa, perigosa para todo o mundo em que vivemos de várias maneiras. Em primeiro, os Estados Unidos da América têm sido vistos como uma espécie de líder mundial em algum sentido de racionalidade, e em alguma investigação de conhecimento, não apenas de informação, com algum tipo de humanitarismo, na consideração pelos direitos humanos, igualdade e justiça. Mesmo que nós nem sempre lhes correspondêssemos, esses ideais estavam aí. E todos os nossos líderes têm promovido esses ideais, mesmo que possam por vezes não os seguir. Eles nunca disseram, de facto, "nós não estamos muito interessados nisso, nós vamos pôr a América primeiro agora". Que é o slogan que vem de alguns anos, quando "a América primeiro" não queria dizer coisas tão simpáticas, de maneira alguma. Logo, isto é uma mudança muito importante, para a democracia é importante, porque é cada vez mais difícil apresentar um argumento comum. É difícil ter as pessoas a discutir um problema. Se disser "cinco milhões de pessoas votaram ilegalmente no meu adversário". E depois disser "Qual é a prova? Bem, eu simplesmente sei-o." E de seguida convence-se outras pessoas a acreditarem nisso. Recordo que milhões de pessoas, de acordo com algumas sondagens, pensam que o ex-presidente Obama não nasceu nos Estados Unidos. E então fica-se com esse tipo de informação a espalhar-se e torna-se muito difícil ter algum tipo de discussão pública, acerca de problemas. Põe-se as pessoas a falar de coisas muito diferentes. Outro aspeto igualmente problemático desta última campanha presidencial, por causa do apelo através das redes sociais, do apelo à raiva, é que o discurso que foi usado foi muito grosseiro e pessoal. E nós passámos a linha nesta campanha, Trump permitiu-o. Mas não foi o único. Figuras públicas antes não declarariam abertamente coisas sobre grupos minoritários, religiões minoritárias, não se refeririam a milhões de imigrantes como violadores e traficantes de drogas e por aí em diante. E essa linguagem, mais a linguagem que foi usada no Twitter e em conferências de imprensa, prender o adversário, ser muito áspero acerca dos manifestantes e mesmo, em muitas situações, incentivar à violência contra pessoas que discordam de si. Essa linguagem áspera, vinda de um candidato presidencial, tornou-se mais aceitável. E, adicionada ao que tem acontecido nas redes sociais, tornaram mais legítimo falar dessa maneira em público, falar dessa maneira sobre outras pessoas.

Vê alguma diferença entre Trump candidato e Trump agora presidente?

Sim, penso que haverá. Eu não conheço Trump. Trump é um ator, aquilo em que ele realmente acredita eu não sei.

Não sabe se é realmente um conservador ou se é um liberal disfarçado?

Eu tenho uns palpites, mas o que ele sabe é como se apresentar como um chefe áspero, autoritário, que faz de uma maneira ou doutra. Pode-se fazer isso quando se é dono da sua própria empresa, e não se responde a um conselho de administração. Não se consegue fazer isso quando se está a gerir um país, porque existem freios e contrapesos. Eu penso que é por isso que será diferente. Muitas coisas têm de se ajustar.

Não porque Trump é diferente, mas porque as condições o são?

Como eu digo, ele é um ator.

Ele criou uma persona diferente.

Sim, até um certo ponto sim. Eu suspeito que ele é de algumas maneiras uma pessoa muito pragmática.

Como americano que viaja muito, como reagem as pessoas a esta nova América de Trump? Os Estados Unidos estão a perder em termos de imagem?

Creio que sim e pode lê-lo em várias análises dos media. Ouve-se mesmo de visitantes nos Estados Unidos. Até em sondagens de opinião em todo o mundo, e por aí em diante. Sim, a minha impressão é que há alguma confusão. E eu penso que isto também é muito importante. O que é que a América representa agora? Novamente, o ponto principal é que a maior parte das pessoas não o apoiaram. A maioria dos americanos são ainda gente muito decente. E eu não penso que a maioria dos americanos, de qualquer maneira, apoie tudo o que ele disse e algumas das coisas que fez. Mas é problemático para aqueles de nós que tentam perceber por que 63 milhões de pessoas votaram num homem que se gabou de assediar mulheres, um homem que se gabou de não pagar impostos sobre o rendimento, que abertamente degradou grupos minoritários, minorias religiosas, insultou uma família medalhada, que basicamente perdeu um filho, numa guerra, a defender os Estados Unidos. É alguém que tem renegado a mais básica informação científica, e tem tido algum prazer, pelo menos em conferências de imprensa públicas, em declarações, acerca de nomear pessoas para posições de responsabilidade que também negam certa informação científica. Eu acho que isso é desconcertante.

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