"A mulher com mais poder de toda a história italiana." Ela é Maria Elena Boschi, ex-ministra das Reformas do governo de Matteo Renzi e agora responsável pela pasta da Presidência no executivo de Paolo Gentiloni. O autor da frase é Bruno Vespa, jornalista, ex-diretor da estação televisiva RAI e autor do livro Mulheres de Itália. De Cleópatra a Maria Elena Boschi, História do Poder Feminino..Desde que em 2014 chegou ao governo, um ano depois de ter sido eleita deputada pelo Partido Democrático (PD), Boschi colecionou vários epítetos, como "a amazona de Renzi" ou "a tigresa de Itália". Serão raros os artigos a traçar-lhe o perfil sem fazer referência à beleza e aos olhos azuis da ministra. Paola Jacobbi, jornalista que a entrevistou para a Vanity Fair, descreveu-a como "uma figura saída de um quadro renascentista"..Criticada pela inexperiência, Boschi foi conquistando o respeito da imprensa e da classe política italiana. Foi ela que delineou a emblemática lei de reforma constitucional que acabou por ser chumbada em referendo. "É afável e simpática, mas sabe impor-se com determinação, às vezes de maneira impetuosa", refere um adversário político, Fabrizio Augimeri, porta--voz dos deputados da Forza Italia. "Prefiro ser julgada pelas minhas reformas do que pelas minhas formas. Empenho-me ao máximo. Levanto-me às cinco da manhã e deito-me à uma", assegura Boschi..Nascida em janeiro de 1981, a adolescente Maria Elena tinha 13 anos quando Silvio Berlusconi tomou pela primeira vez posse como chefe do governo italiano, em 1994. Quando os dois se conheceram, já Boschi era ministra, ele não resistiu a oferecer-lhe um piropo irónico: "Você é demasiado bela para ser comunista." Ela respondeu com jogo de cintura: "Já não há comunistas, Berlusconi.".Muito comentada, pelo carácter intimista, foi a entrevista que deu à Vanity Fair em abril de 2014, quando levava apenas dois meses como responsável política das reformas do governo de Renzi. "Quero ter três filhos. Às vezes penso que já estou irremediavelmente atrasada. Há um ano que estou solteira e tenho saudades da vida de casal. Volto tarde do trabalho e a casa está vazia. Fico sozinha a beber um copo de leite. Gostava de ter alguém com quem pudesse sonhar com um futuro", confessava a ministra..Maria Elena Boschi vem de uma família católica e praticante e não esconde a religiosidade. Foi catequista durante cinco anos e em 1998 fez de Maria num presépio vivo, em Laterina, na Toscânia, a pequena cidade de cerca de 3500 habitantes onde cresceu. Quem a conheceu e cortejou durante a adolescência - escreve o La Vanguardia - diz que "era quase uma monja" e muito dedicada aos estudos. Viria a licenciar-se em Direito pela Universidade de Florença..Chegou à política em 2008, como porta-voz dos apoiantes à candidatura de Michele Ventura durante as primárias do PD para a Câmara Municipal de Florença. O candidato adversário, que viria a vencer as eleições, chamava-se Matteo Renzi. Não tardou até se tornarem inseparáveis politicamente. Em 2009 Renzi convidou-a para o conselho de administração da empresa de águas de Florença..Em 2015, a ministra foi alvo de uma moção de censura por um alegado conflito de interesses. O seu pai, Pierluigi Boschi, agricultor e vinicultor, foi um dos vice-presidentes do Banca Etruria, uma das instituições financeiras que o governo italiano teve de resgatar. A ação, intentada pelo Movimento 5 Estrelas, foi chumbada no Parlamento, onde o PD tem maioria. Maria Elena não é a primeira mulher da família a entrar no jogo político. Stefania Agresti, sua mãe, ocupou o cargo de vice-presidente da Câmara de Laterina..Apesar das raízes católicas e tradicionais, Mari, como é tratada pelos amigos, é uma defensora dos direitos gay e diz que "não julga" as mulheres que abortam. Não falta quem lhe vaticine um futuro político auspicioso. Para David Allegranti, biógrafo de Renzi, Maria Elena Boschi pode chegar um dia a primeira-ministra. "E se ela fosse a nova Thatcher ou a nova Merkel, com a vantagem de ser muito mais jovem e mais bela?", questiona Bruno Vespa.