Sánchez mantém o não a Rajoy e país vive semana decisiva

Hoje há debate e amanhã e sexta votações. Líder dos populares ainda não conseguiu reunir apoios suficientes para ser aprovado como primeiro-ministro. Aumenta a probabilidade de terceiras eleições no espaço de um ano
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Se não houver surpresas de última hora, a investidura de Mariano Rajoy deverá fracassar. Pedro Sánchez, secretário-geral do PSOE, esteve ontem reunido com o líder do Partido Popular (PP) e voltou a reafirmar o não dos socialistas.

O encontro entre os chefes das duas principais forças políticas espanholas durou apenas meia hora. Para Sánchez, "foi uma reunião perfeitamente prescindível". Rajoy não gostou das palavras do adversário e deixou isso bem claro: "O diálogo por Espanha nunca é prescindível, muito menos na situação atual".

Pedro Sánchez não se mostrou pressionado pelo acordo de investidura assinado entre Rajoy e Albert Rivera, do Ciudadanos. O líder do PSOE entende que se trata de um pacto "conservador e de continuidade", que irá "perpetuar as políticas de desigualdade e pobreza".

Numa entrevista à Telecinco, Rivera - que passou do não ao sim a Rajoy - afirmou que está "disposto a perder a credibilidade em nome de Espanha". O líder do Ciudadanos referiu que é "surpreendente" que PP e PSOE não sejam capazes de reconhecer o espaço que partilham em termos ideológicos e programáticos. Rivera explica que 100 das 150 medidas do pacto que assinou com Rajoy estavam também contempladas no acordo que Ciudadanos e PSOE assinaram em fevereiro.

Hoje haverá debate de investidura e amanhã será a primeira votação. Rajoy deverá chumbar. Os seus 170 votos a favor (137 do PP, com 32 do Ciudadanos e um da Coligação Canária) não chegam para a maioria absoluta (176). Não havendo fumo branco, na sexta-feira os deputados voltam a votar, bastando nessa altura que haja mais sins do que nãos, mas, ainda assim, Rajoy precisaria de 11 abstenções.

Fernando Manzano, líder do PP da Extremadura, pediu a Guillermo Fernández Vara, chefe dos socialistas estremenhos, que ordene aos quatro deputados do PSOE eleitos pela região que se abstenham. Golpe de teatro à vista? Vara, afinal, é o autor de uma frase que já fez correr muita tinta: "Se Rajoy se apresentar com 170 deputados, quem é o jeitoso que lhe diz que não?".

Caso falhe a investidura, começará uma contagem decrescente de dois meses. Se nesse período ninguém conseguir apoios suficientes para formar governo, o rei Felipe VI está obrigado a dissolver o Parlamento e a convocar novas eleições - as terceiras em apenas um ano - que, pelos prazos constitucionais, serão a 25 de dezembro.

Há esperança para Sánchez?

Antes que se esgote por completo o prazo, há duas possibilidades que podem evitar nova ida às urnas. A primeira passa por Rajoy voltar a tentar a investidura, cenário que o próprio não descarta. Nesse caso, o resultado só seria distinto se o PSOE saísse da sua trincheira e se abstivesse. Mas isso só será posição se for o Comité Federal (CF), órgão máximo do partido, a indicar esse caminho a Sánchez. Comas eleições regionais na Galiza e no País Basco marcadas para 25 de setembro, uma eventual reunião do CF será sempre depois dessa data.

Outra possibilidade é Felipe VI chamar Sánchez para tentar formar governo. O secretário-geral do PSOE não rejeita essa hipótese. Todavia, parece ser pouco provável que consiga reunir apoios suficientes. Juntos, PSOE e Unidos Podemos somam apenas 156 deputados. Ficaria a 20 de distância da maioria.

"Pode parecer difícil que Sánchez consiga a investidura, mas é tão difícil ou ainda mais que Rajoy a consiga. O PSOE é o único partido com capacidade de fazer pactos com a totalidade do arco parlamentar. Não descartaria a hipótese de algum tipo de aliança reformista com o Podemos e o Ciudadanos", explica ao DN o politólogo espanhol Nacho Corredor.

Na história da democracia pós-Franco, só por uma vez um candidato conseguiu ser investido com menos apoios dos que os 170 de que Mariano Rajoy dispõe atualmente. Aconteceu em 2008, com José Luis Zapatero. O então líder do PSOE partiu para a investidura sozinho e com apenas 169 deputados, mas beneficiou de 23 abstenções de representantes eleitos por partidos regionais. O PP, já então liderado por Mariano Rajoy, votou contra.

Em caso de novas eleições, qual poderá ser o veredicto dos eleitores? "Não é garantido que o PP melhorasse substancialmente o resultado. É um facto dado quase como certo por muitos analistas, mas nenhuma sondagem o confirma. E também poderia haver uma migração importante de votos do Podemos para o PSOE", sublinha Corredor.

Indiscutível parece ser que os candidatos voltariam a ser os mesmos. Para o analista consultado pelo DN, só poderá haver algumas dúvidas em relação a Sánchez: "Os outros não têm oposição interna, o que não acontece no caso do PSOE. É verdade que tem as bases do seu lado, mas há vários meses que perdeu o apoio dos líderes regionais".

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