Rajoy recusa convite de investidura do rei. Sánchez sob pressão

Mariano Rajoy foi o último líder partidário a ser recebido por Felipe VI

Iglesias propõe ser vice em governo com o PSOE. Líder do PP mantém oferta de aliança com socialistas e Ciudadanos

O rei Felipe VI propôs ontem o nome de Mariano Rajoy como candidato a primeiro-ministro, mas o líder do Partido Popular (PP) recusou submeter-se ao debate de investidura numa altura em que não tem os votos suficientes para ser aprovado no Congresso. A negativa de Rajoy, que na véspera dizia sentir-se "com todas as forças" para o debate, foi a segunda surpresa do dia. Horas antes, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, sugeriu apoiar um governo liderado pelo socialista Pedro Sánchez em troca (entre outras coisas) do cargo de vice-primeiro-ministro.

"Hoje não tenho os votos. Não faz sentido ir ao debate de investidura com o único objetivo de começar a correr o prazo de dois meses, que estabelece a Constituição", afirmou Rajoy. Depois dessa data e caso não haja acordo para eleger um primeiro-ministro, têm que ser convocadas novas eleições. "Mantenho a minha candidatura, mas agora não tenho os votos suficientes", acrescentou o líder do PP, dizendo que quer dar tempo ao diálogo mas acusando o PSOE de falar com toda a gente exceto com ele.

"Pedro Sánchez quer outra coisa diferente ao que eu proponho. Quer um pacto com Podemos, os catalães e a Esquerda Unida. Isso não convém a Espanha. Eu proponho um acordo entre PP, PSOE e Ciudadanos", disse Rajoy, lembrando que assim teria uma maioria absoluta de 253 deputados. O eventual executivo do PSOE, Podemos e Esquerda Unida teria só 161. "O governo de Sánchez não é moderado ou centrado", disse ainda Rajoy, lembrando que o PP tem o poder no Senado para travar qualquer iniciativa que venha desse executivo a três.

Depois de uma ronda de consultas aos partidos por parte do rei, o processo volta assim ao início. No comunicado em que confirmava a recusa de Rajoy, a Casa Real espanhola anunciava uma nova reunião com o presidente do Parlamento, o socialista Pátxi López, na segunda-feira à tarde, tendo em vista o início de uma nova ronda de consultas partidárias, a partir de quarta-feira. No final dessa segunda ronda, o monarca poderá voltar a convidar Rajoy ou outro qualquer líder político. Não existe qualquer prazo legal para este processo.

Reações

"É uma decisão muito irresponsável. É mais própria de um filme policial do que de um primeiro-ministro em funções. É um Rajoy esgotado e isolado. Está assim por sua vontade e pela ação do seu governo", reagiu o secretário-geral de Organização do PSOE, César Luena, em conferência de imprensa. "O PP e Rajoy estão a ser irresponsáveis. Pedro Sánchez, pelo contrário, será responsável", acrescentou.

"O PP e Rajoy estão a ser irresponsáveis. Pedro Sánchez, pelo contrário, será responsável"

O Podemos reagiu no Twitter: "Fizemos uma proposta de governo séria e Rajoy deu um passo atrás. A mudança é possível. Espero que o PSOE esteja à altura", escreveu Iglesias. A mesma rede social foi usada pelo líder do Ciudadanos, Albert River: "Rajoy renuncia à investidura. Sánchez deve decidir se procura acordos na centralidade e no constitucionalismo ou em partidos separatistas." A pressão está por isso no socialista, que parece ter perdido a iniciativa e estar dependente das propostas em cima da mesa.

A proposta de Iglesias

Antes da decisão de Rajoy, a primeira surpresa do dia foi a proposta que o líder do Podemos apresentou a Felipe VI - um governo presidido por Pedro Sánchez, com Iglesias como vice-primeiro-ministro e pelo menos uma pasta para a Esquerda Unida. Sánchez "não está em condições de propor um governo exclusivo do PSOE", defendeu, lembrando que ambos tiveram cinco milhões de votos - a diferença foi de cerca de 400 mil votos.

"Decidimos tomar a iniciativa e dar um passo em frente. Este momento não é para meias medidas. Ou se está pela mudança ou pelo imobilismo e o bloqueio", indicou Iglesias. Em relação à Catalunha, o referendo já não é incontornável - "claro que defendemos que a Catalunha tem que ter um referendo mas essa proposta tem que ser debatida com outras". A ideia é que o líder do En Comú Podem, Xavier Domènech, seu aliado catalão, seja responsável por encontrar uma solução, à frente do novo Ministério da Plurinacionalidade.

A proposta de Iglesias foi comunicada primeiro ao rei, tendo apanhado o próprio Sánchez de surpresa. "Entrei na Zarzuela sem um governo e pelos vistos todos os ministros já estavam nomeados", brincou, após o encontro com Felipe VI. O socialista insistiu que em qualquer negociação, primeiro falaria de políticas e só depois da formação do governo, admitindo contudo que ambos os partidos estão de acordo "no diagnóstico" do problema, mas não "nas políticas para o resolver".

Sánchez defendeu contudo que esta era a hora de Rajoy e que o primeiro-ministro, como líder do partido mais votado, tinha que se submeter ao debate de investidura. Depois, caso este falhasse, seria hora de ele próprio fazer um "governo de mudança e progressista". Nesse ponto admitiu que "os eleitores não entenderiam se eu e o líder do Podemos não nos entendêssemos". Qualquer acordo terá contudo que ser aprovado pelo comité federal do PSOE, que já se tinha mostrado reticente a pactos com o Podemos.

"Pactuar como o diabo é perigoso e nunca é grátis", escreveu o ex-primeiro-ministro socialista Felipe González no Twitter, lembrando que "o mais evidente não tem que ser o mais conveniente". Sobre as possíveis resistências dentro do partido, Sánchez lembrou: "O PSOE, de forma unânime, o que quer é que Rajoy se vá embora e se abra uma possibilidade de mudança."

O líder do Ciudadanos criticou Iglesias. "Uns preferem falar e negociar reformas e outros, a primeira coisa que pedem, são cadeiras de governo", escreveu Albert Rivera no Twitter e, mais tarde, numa entrevista à estação de televisão La Sexta, acrescentou: "A mim não me interessa o nome do ministro da Educação, interessa-me um pacto pela Educação."

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