"Quando me interessei pela diplomacia, o meu sonho passou a ser acabar a carreira em Portugal"

Caroline Fleetwood

Caroline Fleetwood, embaixadora da Suécia em Portugal, estudou CIência Política e Línguas. Casou-se em Portugal em 1975, quando aqui veio para conhecer de perto a Revolução.

Um palacete na Lapa é a casa da Embaixada da Suécia, onde Caroline Fleet-wood nos recebe com chocolates e biscoitos. Uma decoração que mistura insígnias e paisagens suecas com objetos e pinturas de Portugal, antiguidades com móveis práticos. A embaixadora fala português - já era visita frequente do país, casou-se em Portugal no Verão Quente e foi responsável de informação do pavilhão sueco na Expo 98 -, com uma ou outra palavra em castelhano (esteve em Havana como diplomata). Emociona-se quando fala na "longa e feliz" relação que tem com Portugal.

Quando estudou Ciência Política e Línguas, pensava numa carreira diplomata?

Em primeiro lugar queria aprender línguas, era o que os meus pais queriam e acabou por me ajudar muito na vida. Também tinha interesse pelas questões internacionais e a diplomacia era uma possibilidade entre outras.

Alguém na família a influenciou?

Não tinha ninguém nessa área, mas o meu pai era jornalista de economia, vivia no meio de jornais e eu tinha um interesse particular por este mundo, por conhecer outras realidades. Não tanto na parte política mas para contribuir para que as pessoas se entendessem. Acho que a personalidade do meu pai me influenciou. Era um homem muito curioso, gostava muito de viajar, fez a volta ao mundo antes de eu nascer, isto nos anos 1940 quando não era habitual viajar. E, depois, trazia recordações de todo o mundo, mapas, discos.

A mãe não trabalhava. Nessa altura, ser doméstica era comum na Suécia?

Em geral, as mulheres da idade da minha mãe não trabalhavam, mas ela sempre me aconselhou a estudar para ter boas notas e um bom emprego. Dizia que ter uma profissão era muito importante para a libertação da mulher.

Chamam-na de embaixadora feminista. Lida bem com esse rótulo?

Sim. A Suécia é o primeiro país no mundo que tem uma política externa feminista, o que me dá muito prazer. Estou muito orgulhosa da minha ministra Margot Wallström [Negócios Estrangeiros] tomar esta iniciativa, o que fez em colaboração com as ministras Isabella Lövin (Cooperação Internacional, Desenvolvimento e Clima) e Ann Linde (Negócios e do Comércio da UE).

É um plano de política externa feminista para vigorar entre 2015 e 2018. Do que é que se trata?

É um plano para dar poder às mulheres. Os direitos humanos incluem o respeito pelos direitos das mulheres, que representam metade da população. Temos de ter a possibilidade de fazer as nossas vidas, sem violência: física, psicológica e sexual. A política externa procura assegurar os direitos e a participação das mulheres na tomada de decisões, nomeadamente em processos de negociações de paz.

Prefere dizer direitos humanos ao falar nos direitos das mulheres?

Sim, porque os direitos humanos devem ser respeitados independentemente de ser mulher, homem, criança, idoso. Parece natural e evidente, mas não acontece em todo o lado. Acredito que o vamos conseguir.

Como é viver num país em que há paridade entre homens e mulheres, pelo menos a nível do governo?

Não há igualdade perfeita, a Suécia também tem muito que fazer, mas é muito importante ter a iniciativa e o desejo de alcançar a igualdade plena. No governo temos 50% de mulheres e 50% de homens, mas essa paridade não existe em todas as empresas, por exemplo. No setor privado falta muita coisa. Os administradores não perceberam que a igualdade de género pode ser um bom negócio. Há estudos que provam que uma empresa que tenha uma elevada proporção de mulheres na sua composição é mais rentável.

Comprovado cientificamente?

Sim, sim, os estudos concluem que é bom ter sinergias constituídas por diferentes perfis de pessoas: homens e mulheres, jovens e mais velhos, com mais experiência e menos experiência. Se todos se juntarem, com todas estas sinergias, obtêm-se melhores resultados.

Qual é o tipo de discriminação mais usual na Suécia?

Os maiores casos de discriminação, e dos quais não me orgulho, são devido à idade. As pessoas de 60/65 são obrigadas a aposentar-se e é um desperdício da experiência que acumularam em toda a sua vida. Existe mais este tipo de discriminação do que entre homem e mulher. Todo o mundo é muito jovem na Suécia, mas eu acho que isso está a mudar.

Sempre houve uma política de promoção da igualdade?

Não, nem sempre foi assim, mas também tínhamos mulheres com muita consciência dos seus direitos e muita energia para se baterem pela igualdade de género. Na altura da minha mãe, a realidade era outra.

Então, foi uma conquista rápida. Como o conseguiram?

É uma boa questão, nunca pensei nisso. Talvez pela mentalidade dos suecos. Somos muito abertos, muito inovadores. Dizia Montesquieu que temos de inventar e planificar para desenvolver, para termos pão, temos primeiro de plantar o milho e depois fazer a safra. E os suecos têm muito essa forma de pensar. Além de sermos muito inovadores, temos muitas invenções, estamos sempre disponíveis para participar em tudo o que é inovação. Talvez seja devido a essa mentalidade que percebemos mais rapidamente como é fundamental o envolvimento das mulheres, o que é muito interessante.

Em casa, filhos e filhas são educados para a igualdade? Tem irmãos, filhos?

Sou filha única e tenho duas filhas. Atualmente é totalmente natural educar as crianças para a igualdade. Com os meus netos, que são ainda pequenos - tenho um de 3 e outro de 4 anos, o primeiro nasceu no Dia de Portugal -, essa questão já não se colocará. Homens e mulheres têm as mesmas tarefas em casa, é o que é natural.

Esteve em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril. Quis ver de perto a Revolução?

Tinha estado em Portugal na minha juventude, com os meus pais. A minha relação com o país é longa. Recebi as notícias da Revolução e resolvi vir de férias com o meu namorado logo em 1975. Também trabalhei na Expo 98 como chefe de informação do pavilhão da Suécia: os ovos da Suécia que foram muito bem recebidos. Portanto, esta é uma relação longa e feliz.

Foi mais do que uma simples viagem de férias?

Vim porque me interessava por esta Revolução, também do ponto de vista político. Os políticos de ambos os países dessa altura eram o Mário Soares e Olof Palme [primeiro-ministro sueco quando se deu o 25 de Abril e que se cruzou várias vezes com o socialista já este era PM], que eram amigos. Aliás, essa amizade tem-se verificado com outros governantes portugueses, nomeadamente com Passos Coelho e, agora, com António Costa. Sempre houve uma relação de amizade entre os políticos de ambos os países. A Suécia e Portugal são países geograficamente distantes mas muito próximos nos valores e na cooperação. Iniciámos relações bilaterais e diplomáticas em 1641.

Se a nível populacional até são semelhantes, já não se pode dizer o mesmo a nível de desenvolvimento e riqueza.

Sim, somos também dez milhões. Não nos podemos comparar a nível económico porque tivemos evoluções diferentes. Mas, por exemplo no século XVII éramos duas grandes potências, nós no mar Báltico e vocês em África e na América do Sul.

Sendo duas potências, chegaram a situações tão diferentes, com a Suécia a subir e Portugal a descer.

Vocês não foram por aí abaixo [ri-se], tiveram crises, sim, mas fazem parte da União Europeia. Nós não aderimos ao euro, vocês sim, e isso tem algumas consequências. Trata-se da política monetária. Mas Portugal tem muita coisa que a Suécia não tem e vice-versa.

Os suecos são mais trabalhadores?

Não lhe sei dizer, possivelmente somos um pouco mais rígidos nos horários [ri], mas também é necessário por causa do inverno. Temos muito pouco tempo de luz e há que aproveitar bem o dia. Nesta altura até temos o midnight sun [sol da meia-noite], é quando celebramos a luz, temos luz toda a noite, depois temos noite todo o dia.

Voltando ao pós-25 de Abril, o que é que recorda dessa visita?

Estive em Lisboa, no Porto, conheci o Bom Jesus de Braga. Reparei que havia muitos retornados, notava-se por todo o lado, especialmente no centro de Lisboa, muita gente, mas também vi que era um ambiente amigável, acolhedor, o que é fantástico e se mantém. Os portugueses têm o poder de integrar as pessoas. Claro que os retornados tinham a facilidade de falarem a mesma língua, mas esse tipo de acolhimento verifica-se com os imigrantes, com os refugiados. Na altura, chegaram meio milhão de imigrantes e todos se integraram. É uma história impressionante.

Viajou com o namorado e acabou por casar na embaixada sueca. O que é que a levou a casar no estrangeiro?

E porque não? Sou um pouco revolucionária, nem sempre faço o que toda a gente espera. E tinha 24 anos.

Foi um impulso ou já estava previsto?

Já estava previsto [ri], fizemos a festa depois. Foi assim o meu primeiro casamento: em duas partes.

Não imaginava que a sua vida profissional iria passar por aqui.

Não imaginava ser embaixadora, mas quando comecei a interessar-me pelas questões políticas, pelo meio diplomata, ainda na universidade, o sonho da minha vida passou a ser terminar a minha carreira aqui.

Significa que gostou do que viu.

A Revolução, o momento que se seguiu ao 25 de abril, era uma aventura e eu queria participar. Gostei do ambiente e, sobretudo, do clima de não violência, o que é excecional. Portugal é um país a que, por um motivo ou outro, sempre tenho voltado. Vivi no Brasil como conselheira da Embaixada da Suécia e, de uma forma indireta, continuei a relação. Introduzi um voo direto de Brasília para Lisboa, antes tínhamos de ir por São Paulo, e sempre que aterrei aqui dava uma volta pela cidade, o que aconteceu nesses três anos.

E vai terminar aqui a carreira?

Falta-me mais um ano para a reforma e não sei o que vou fazer a seguir. Ficarei aqui mais um mês para ajudar na minha substituição, para preparar as coisas para a próxima embaixadora ou embaixador da Suécia.

Pensa ficar em Portugal?

Estou a pensar em comprar um pequeno apartamento mas ainda não sei, tenho de analisar bem a questão. Voltarei sempre a Portugal, isso é certo. Estive aqui em tantas fases da minha vida que esta é uma ligação que fica para sempre. Estive aqui em épocas muito importantes: o 25 de abril, a Expo 98, a crise e a saída da crise; é uma espécie de magnetismo.

Que diferenças encontra agora em relação ao Portugal de há 40 anos?

Quando vim em jovem encontrei a pobreza, uma pobreza significativa, também vi os efeitos da Revolução, toda aquela gente, a política que mudou. Com a Expo, foi a inovação, a abertura ao mundo, em que podíamos organizar e fazer muitas coisa. O que ali se construiu numa zona muito degradada... agora penso nisso e dou ainda mais valor. Vi há pouco fotos dessa altura e lembrei-me de que António Costa também esteve muito presente nesse evento [era ministro dos Assuntos Parlamentares e coordenou o dossiê Expo]. Agora estamos numa outra fase, o país está no bom caminho e fico feliz por o deixar já numa situação melhor.

Se tivesse de explicar a um sueco como é este país, o que lhe diria?

Diria que é um país a descobrir, falava-lhe da cultura, algo a que os suecos dão muita importância, do tempo agradável, da comida, do vinho, do espírito aberto dos portugueses, tudo o que tem trazido turistas a Portugal. O turismo foi uma das coisas que mudou muito, há cada vez mais.

O que é que lhe agrada mais?

É tudo isso. As pessoas, a cultura, a gastronomia. Mas para mim é mais do que isso: é um sentimento [emociona-se].

E de que é que gosta menos?

É difícil dizer e acho que não se deve generalizar. Mas o que menos gosto é da burocracia, para tudo são precisos muitos papéis, acho que se pode fazer de uma forma muito mais simples. Isto faz com que se retire tempo de trabalho para as coisas que são realmente essenciais. Uma das coisas boas da Suécia é quase não termos hierarquia, é muito fácil entrar em contacto com quem está no topo de uma empresa. Em Portugal, temos de passar por vários setores, vários chefes, para se resolver um problema. Podia ser uma estrutura mais horizontal, ganhávamos tempo e eficácia. Penso que é o facto de estar tudo muito hierarquizado que atrasa os processos. Também não gosto da quantidade de carros que existe na cidade de Lisboa. Deveríamos optar por transportes mais sustentáveis.

Leia a segunda parte da entrevista:

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