Temos que nos habituar a que, de tempos a tempos, aconteçam ataques deste género? Estamos perante um novo normal?.É provável que sim. O Daesh tem vindo a adotar este modus operandi. A sua capacidade operacional está reduzida porque as suas bases principais, no Iraque e na Síria, estão a ser atacadas. Isto também debilita a capacidade de fazerem ataques em grande escala. Por outro lado, o ciberespaço permite a propaganda - que inspira os chamados lobos solitários - e a comunicação interna sem a necessidade de uma cadeia de comando. No fundo, é uma forma de sobrevivência: já que não podemos fazer grandes atentados vamos apostar neste registo, porque é mais simples e não implica uma grande logística nem uma cadeia de comando. Na edição de novembro da Rumiyah, que é a revista do Daesh, havia três páginas a apelar a este tipo de ataques, explicando como devem ser feitos e dando como bom exemplo o atentado de Nice. De há uns anos para cá tem vindo a ser feito um apelo para que se faça um maior número de ataques de baixa intensidade. São ataques perigosos exatamente porque são pouco sofisticados e, por isso, fáceis de fazer..É muito difícil fazer prevenção..Sim, é extremamente complicado porque não têm a tal dimensão temporal que implica um processo organizacional, que os torna permeáveis ao controlo. E não têm a tal dimensão logística que pode ser facilmente identificada. São muito difíceis de monitorizar. E tendem a ser fruto de lobos solitários ou da ação de pequenas células espontâneas..Mais uma vez voltou a falar-se da necessidade do reforço da cooperação entre as várias agências de informação a nível europeu. Mas esse reforço de cooperação também pouco adianta em casos destes, ou não?.Adianta sempre. A questão é que não está no ethos dos serviços de informações a partilha de informações. Não está e temos que meter isto na cabeça. Por outro lado, também temos que meter na cabeça que isso tem que ser feito. Os serviços de informações ainda pensam que deter informação é poder, mas no caso do contraterrorismo o verdadeiro poder está na partilha dessas informações. Os serviços têm que se adaptar progressivamente a esta lógica, que já não é a mesma da guerra fria..Alemanha, França e Bélgica têm sido os principais alvos nos últimos tempos. É de esperar que os ataques se estendam a outros países europeus?.É provável que sim. Claro que há alvos mais apetecíveis e mais fáceis do que outros, mas é provável que aconteçam noutros lugares. O grande objetivo estratégico do Daesh para a Europa passa por quatro níveis: punir, desestabilizar, polarizar e alterar as dinâmicas de poder político. No primeiro, o punir, todos os países que fazem parte de coligações que combatem o Daesh são puníveis. Mas o próprio Ocidente em si também representa um inimigo absoluto. Desestabilizar passa por disseminar o medo através da ações terroristas. A partir daí, estando incutida a sensação de que ninguém está a salvo, entramos na polarização das sociedades. Isso está a acontecer. Basta ver o crescimento das extremas-direitas. Essa polarização vem criar bolsas de ressentimento e isso aumenta a radicalização e o espaço de recrutamento. A longo prazo, estamos a falar da alteração das dinâmicas de poder político, que é quando esta polarização se torna institucionalizada, com a chegada ao poder dos extremismos políticos. Nesse cenário, ainda é maior o espaço para recrutamento. É um processo puro de subversão global..Qual é o risco de Portugal ser um alvo um destes dias?.Portugal está no quadro mental e geoestratégico de inimizades do Daesh. Poderá sempre vir a ser um alvo. Não estamos livres disso.