O português que fez 150 navios de guerra para Roosevelt

Manuel Pedroso nasceu na América, foi criado em Portugal e voltou durante a Segunda Guerra Mundial respondendo ao apelo patriótico do presidente

Por fora, com a fachada verde e o piso superior de madeira pintada de bege, o Friends Market parece mais uma típica loja de pequena cidade americana, até pelo nome, apesar da bandeirinha portuguesa na montra. Mas mal se atravessa a porta é como se déssemos um salto ao outro lado do Atlântico, tantos são os produtos portugueses arrumados nas prateleiras, desde o atum Bom Petisco ao Sumol de laranja. "Há 50 anos se vendíamos aqui produtos portugueses eram só duas coisas: azeitonas em lata e azeite saloio. Com o andar dos tempos, e com o progresso dos transportes, não falta agora aqui nada. Hoje até vem peixe fresco de Portugal. Sardinhas de Peniche, que são as melhores que pode haver", explica Manuel Pedroso num português em que não se nota nem um poucochinho os muitos e muitos anos de vida que leva nos Estados Unidos, a maior parte deles aqui em Fox Point, velho bairro de Providence mesmo colado a Brown, uma das universidades da seleta Ivy League.

Dizer quantos anos exatos de América tem "o Sr. Pedroso do Friends Market", como me foi apresentado por Onésimo Teotónio Almeida, professor na Brown, é um desafio. Depende de como se começa a contar, do nascimento ou da instalação definitiva. "Tenho 97 anos e nasci em New Bedford. Já nasci na América. Os meus pais eram de Portugal, de Alvados, a terra das grutas, ao pé de Mira de Aire, concelho de Porto de Mós. Eles emigraram em 1914 ou 1915 mas depois da Primeira Guerra Mundial houve aqui uma crise formidável, uma coisa muito grande, e voltaram para trás milhares de pessoas, para Portugal, para Espanha, para Itália. Eu também fui para trás, com os meus pais. E lá fui criado. Sou português como outro qualquer", conta Pedroso, atrás de um balcão em que se empilham lâmpadas, pão embalado, pacotes de bolachas e até exemplares do Portuguese Times, pois aqui vende-se mesmo um pouco de tudo.

"Boa-tarde", diz em português Maria Pedroso, que acaba de entrar. Mary, como lhe chama o marido, também é do concelho de Porto de Mós, de Zambujal de Alcaria, aldeia a uns quatro quilómetros de Alvados. Conheceram-se jovens em Portugal e são casados há mais de 60 anos. "Quando vim já tinha lá em Portugal a pulga", conta Pedroso a rir, acompanhado com gosto pela mulher, sorridente e que parece ter bem menos do que os 91 anos que constam nos documentos.

A conversa prossegue. Como foi então o regresso aos Estados Unidos e com que idade? "Voltei para a América durante a Segunda Guerra Mundial. O Roosevelt fez um apelo a todos os americanos para regressarem. E eu pensei naquilo e escrevi a um irmão que cá estava e ele disse-me "vem-te já embora". Fui à embaixada em Lisboa, arranjei os documentos e pronto." Era cidadão americano de nascimento e também cidadão português, e assim continua, com duas pátrias diferentes mas das quais, qualquer que seja, não admite que falem mal. "Um bom português é um bom americano e vice--versa. Dantes perguntavam "gostas da tua terra? Gostas mais de lá ou de aqui?", e as pessoas, com medo, diziam que gostavam mais daqui. Mas quem não gosta da sua terra nunca vai gostar daqui. Nós podemos gostar dos dois lugares igualmente. Eu gosto de Portugal e dos Estados Unidos igualmente."

Manuel Pedroso pisou então de novo com 22 anos essa América que tinha deixado em criança. O Japão tinha atacado há pouco Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941) e o presidente Franklin Roosevelt declarara guerra também à Alemanha. "Cheguei e não falava nada de inglês. E como não podia ir para a guerra, disseram que tinham trabalho para mim a descascar batatas ou nos correios. Mas fui antes construir barcos. Fui para uma escola aprender a ser soldador. Fui um grande soldador. Ajudei a fazer 150 navios de guerra. Oh, yes! Aqui nos estaleiros em Providence. E soldei esses barcos todos, por dentro e por fora. E depois fiquei por aqui", conta, com Maria, ao lado, a acenar com a cabeça a cada frase do homem de quem tem um filho e uma filha, ambos nascidos nos Estados Unidos.

O casal mora por cima da loja, que Pedroso comprou "há mais de 50 anos, a um velhote de Aveiro". Convenço a mulher a ir buscar uma fotografia do casamento, para a publicar no DN. Mary aceita, simpática. E regressa com uma moldura em que uma foto a preto e branco a mostra com um Manuel bem jovem. Traz também uma outra fotografia, enorme, a cores, com a família. Eles, os filhos, genro e nora, netos e por aí fora. Já são mais de uma dezena.

Pergunto se os filhos falam português. A resposta é sim. Em casa sempre se falou português. Já os netos "falam mais ou menos", nota Pedroso. "Os meus filhos falam português. A minha filha até esteve a estudar em Portugal. Eu tenho uma neta que não sabia falar nada. Um dia disse-me "avó eu não quero estar a ouvir-vos falar e não perceber nada. Eu vou aprender português". Todos os dias ia para New Bedford para a escola portuguesa. Aprendeu a ler e escrever", conta Mary Pedroso.

A conversa é interrompida por uma jovem que pergunta se vendem sandes. A resposta é não, mas acompanhada por indicações sobre um sítio, perto, onde um outro português vende sandes. "Deve ser chinesa ou japonesa. Aqui entra toda a gente. É uma loja para portugueses, americanos, para gente de todo o mundo. Entram aqui muitos estudantes. Gosto sempre de saber de onde são, de que país, de que cidade, do Norte ou do Sul. Aprendo muito a conversar com eles", explica o dono do Friends Market, que faz questão de tratar como amigos a clientela toda.

Quase centenário, e apesar de uma perna que o apoquenta, Manuel Pedroso diz que tenciona continuar a trabalhar. Já não vai há algum tempo a Portugal, mas conhece bem o país, incluindo a Madeira e esses Açores de onde são originários muitos luso-americanos da zona, como Onésimo Teotónio Almeida, a quem antes de começar a nossa conversa entregou um Expresso em que vinha uma longa entrevista com o académico que desde a década de 1970 é professor na Brown. No final da tarde, mais uma figura da comunidade passa também pela loja. É Daniel da Ponte, senador estadual de Rhode Island, outro de origem açoriana.

A filha de Manuel e de Mary, Eileen, foi professora, e o filho, chamado também Manuel, foi gerente de uma grande empresa. Ambos estudaram na universidade, e agora estão reformados. "Esta terra é cheia de oportunidades", diz o marido. "Devemos muito à América", acrescenta a mulher. "Sabe uma coisa que os americanos dizem?", pergunta-me Pedroso. "Deixai cada um viver conforme a habilidade que tem."

Ora, foi a habilidade como soldador que fez do luso-americano Manuel Pedroso um grande, ainda que anónimo, contribuinte para a vitória dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Em Providence. Esta reportagem foi feita no âmbito de uma parceria DN-FLAD

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