O dinheiro de três refeições já só compra uma... e má

Reportagem fotográfica da Reuters mostra o pouco que existe atualmente nos frigoríficos dos venezuelanos
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Os aumentos dos preços na Venezuela e o desabastecimento crónico deixaram a dona de casa Alida González, de 65 anos, com dificuldades para pôr as refeições na mesa. Ela e os quatro membros da família que vivem no bairro de lata de Petare, em Caracas, saltam uma refeição por dia e dependem cada vez mais dos amidos para substituir as proteínas que são muito caras ou estão simplesmente indisponíveis no mercado.

"Com o dinheiro que costumávamos gastar no pequeno-almoço, almoço e jantar, agora só podemos comprar o pequeno-almoço, e um não muito bom", disse González na sua casa, que continha apenas meio quilo de frango, quatro bananas, algum óleo para cozinhar, um pequeno pacote de arroz e uma manga. A família nem sabia quando seria capaz de comprar mais coisas.

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A recessão e uma economia disfuncional gerida pelo Estado estão a obrigar muitos neste país de 30 milhões, que pertence ao grupo dos exportadores de petróleo, a reduzir o consumo e a comer refeições menos equilibradas.

Num estudo recente feito por investigadores de três grandes universidades muitas vezes críticas do governo, 87% dos inquiridos disseram que os seus rendimentos eram insuficientes para comprar comida.

O estudo que envolveu quase 1500 famílias encontrou um aumento da percentagem de hidratos de carbono nas dietas e descobriu que 12% dos inquiridos não consomem três refeições por dia.

Os apoiantes do governo muitas vezes assinalaram as melhorias na alimentação durante os mandatos do falecido líder bolivariano, Hugo Chávez, que usou os lucros do petróleo para subsidiar os alimentos para os pobres durante os seus 14 anos no poder e recebeu os aplausos das Nações Unidas por isso. Mas o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, tem enfrentado a queda dos preços do petróleo, que garantem quase toda a fonte de rendimentos externos. Além disso, culpa a "guerra económica" empreendida pela oposição, apesar de os críticos dizerem que isso é apenas uma desculpa.

Seja como for, os venezuelanos estão cansados e chateados. Um salário mínimo é agora apenas cerca de 20% do que custa alimentar uma família de cinco, segundo um grupo de monitorização [Maduro já anunciou um aumento do salário mínimo]. As filas serpenteiam às portas dos supermercados estatais ainda durante a madrugada. "Temos que entrar nestas filas que nunca têm fim todo o dia, das cinco da manhã até às três da tarde, para ver se consegues alguns sacos de farinha ou manteiga", disse o taxista Ricardo Mendez, de 58 anos. "Faz com que uma pessoa queira chorar."

Natalia Guerra, de 45 anos, vive numa pequena casa em Petare com oito familiares, sendo que apenas um tem um salário significativo. Ela lembra-se de comprar leite para os próprios filhos, mas agora não consegue encontrar para os netos. "Somos uma grande família e está a ser cada vez mais difícil comermos", afirmou.

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