"Não vivemos um choque de civilizações, há é uma crise no islão"

Mario Giro numa ida ao Chade, onde visitou populações que fugiram do Boko Haram, grupo nigeriano que presta obediência ao ISIS.

O vice-ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Mario Giro, será o orador amanhã na conferência "Conviver: Religiões, Conflitos e Paz" que se realizará na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Também membro da Comunidade de Santo Egídio e seu ex-responsável pelas Relações Internacionais, Giro falou ao DN por telefone a partir de Roma.

O tema da sua conferência em Lisboa é o diálogo de religiões. Presumo que não lhe faça sentido a tese de que vivemos um choque de civilizações?

Não estamos a viver um choque de civilizações. Estamos a assistir a um choque dentro de uma civilização. Existe uma crise no mundo islâmico. É uma crise que começou há mais de 20 anos e que, com certeza, afeta também a nossa civilização. Até porque somos a civilização mais próxima da civilização islâmica. Isto pode ser visto agora com o que se passa na Síria e noutros conflitos no Médio Oriente. A narrativa adotada pelos extremistas para atrair as gerações jovens contraria a narrativa tradicional do islão. Trata-se de uma batalha pelo poder. Porque quem controlar o mundo muçulmano controlará 1500 milhões de pessoas. É um problema político.

Não se trata de sunitas contra xiitas, mas de moderados contra extremistas?

Sim, e é extremamente complicado. Por isso precisamos tanto do diálogo religioso. Temos de ajudar os moderados, aquelas pessoas que não pensam que as religiões nos impedem de viver juntos, contra essa pequena minoria que acredita que a religião é uma arma política.

Ao mesmo tempo, porque pensa que a Europa sente hoje tanto medo do islão? É por causa da memória histórica de embates contra potências islâmicas ou trata-se de algo mais profundo?

Acho que existe medo porque uma grande civilização, que nos é vizinha, vive uma profunda crise e nós não possuímos as ferramentas culturais para responder. E temos a tentação de pôr tudo no mesmo cesto, de dizer que todos os muçulmanos são iguais. Mas as primeiras vítimas de tudo o que está a acontecer são os próprios muçulmanos.

A Itália está na primeira linha da crise dos refugiados, muitos dos quais são muçulmanos. Qual é a reação popular? Existe vontade dos italianos em receber toda esta gente ou há quem seja contra?

Primeiro que tudo, em Itália, como em muitos países da Europa, há movimentos populistas ou de extrema-direita que tentam assustar as pessoas e virá-las contra os refugiados. Mas até agora a grande maioria das pessoas tem tido uma boa reação para os receber. Já salvámos meio milhão de pessoas de morrer no mar. E isto é reconhecido pela comunidade internacional. Atualmente estamos a acolher 200 mil pessoas que chegaram por mar, algumas delas refugiadas e outras migrantes. O que tentamos explicar a toda a gente é que não estamos perante uma crise nacional, mas sim perante uma crise global que precisa de uma resposta global e antes de tudo de uma resposta europeia. A esse respeito, devo dizer que a Europa está surda, não nos ouve, e tem deixado a Itália e a Grécia sozinhas, entregues a si próprias.

Pensa que a União Europeia tem condições para integrar os refugiados, só precisa é de vontade política para o fazer?

Sim, penso que tem meios para o fazer. Se olharmos para os números notaremos que estamos a falar de uma minoria. Somos 500 milhões de habitantes na União Europeia e os refugiados cerca de um milhão. Não me parece muito difícil de os aceitar, até considerando que os sírios querem um dia regressar ao seu país, por enquanto em guerra e destruído. Penso que está a haver uma grande manipulação da realidade pelos populistas e os partidos de extrema-direita europeus, sobretudo em alguns países. Temos de contrariar essas informações falsas de que estamos a ser invadidos. Creio não ser uma boa ideia usar termos militares para descrever crises humanitárias: invasão é um deles.

O Papa visitou em abril o Egito em sinal de solidariedade com a minoria cristã, que tem sofrido atentados dos jihadistas. Teme que a sobrevivência das antiquíssimas comunidades cristãs do Médio Oriente esteja ameaçada?

Sim. Estamos muito preocupados. A Itália, em particular, está muito envolvida nessa questão. O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem trabalhado no assunto porque o risco é que a crise no Médio Oriente leve ao desaparecimento de todas as minorias, não só as cristãs, basta pensar nos yazidis. E, de facto, mesmo os sunitas chegam por vezes a considerar-se uma grande minoria, como acontece no Iraque, perante os xiitas. Temos de reconstruir a convivência entre as pessoas.

Está confiante na derrota do ISIS na Síria e no Iraque ou acha que este tipo de grupo é capaz de se transformar e manter-se uma ameaça terrorista?

Infelizmente, acho que iremos derrotar o ISIS mas que a narrativa dos salafitas vai continuar. E vai continuar porque impuseram a sua presença no mundo islâmico e as autoridades religiosas tradicionais não foram nada inteligentes na forma de contrariá-las. Temos de as ajudar mais ao nível religioso e ao mesmo tempo estarmos preparados para sofrer ainda algum tempo com esta doença cultural até a conseguirmos travar.

Pensa que a derrota do fenómeno jihadista passa por uma aliança no Médio Oriente entre o Ocidente e a Rússia?

A posição da Itália desde o início da guerra na Síria é que a Rússia tinha de ser envolvida na solução. Não estavam de acordo outros países europeus mas no final da história a Rússia acabou por envolver-se por ela própria. Teria sido melhor que tivéssemos desde o início envolvido a Rússia politicamente. Agora, é preciso sentar à mesa todos, ou seja, o Ocidente, a Rússia, também o Irão.

Gostava de terminar com uma pergunta que vai buscar muito à sua experiência na Comunidade de Santo Egídio no Sudão do Sul, que se tornou independente em 2011. Durante décadas falou-se de uma luta de libertação do Sul cristão oprimido pelo Norte muçulmano, mas agora há guerra civil entre nuers e dinkas. É uma luta étnica ou reflexo de ambições de líderes políticos?

Ambos. Esta é a história de um fracasso. O Ocidente impôs o nascimento do Sudão do Sul mas não ajudou a que se transformasse num país em condições. E temos de responder a este falhanço começando por admiti-lo, chamando as coisas pelo nome. Estou muito preocupado com o que se está a passar. É evidente que há problemas muito antigos entre nuers e dinkas, por um lado, mas também há uma luta pelo controlo dos recursos, nomeadamente o petróleo.

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