Primeiro foi Marina Silva a insistir, mais tarde um grupo de senadores simpático ao governo fez coro, depois veio a divulgação de uma sondagem em que a maioria dos eleitores apoiava a ideia, seguiu-se um editorial da britânica The Economist no mesmo tom, nesta semana a cúpula do PT, incluindo Lula da Silva, abraçou a sugestão e, agora, até a presidente Dilma Rousseff (PT) se mostra seduzida pela hipótese: a realização de eleições antecipadas entra, apesar de todos os contras, na agenda política do Brasil, como alternativa à, por agora, mais do que provável troca de comando no país com o impeachment da presidente e a subida do vice Michel Temer (PMDB)..Ontem de manhã o tal grupo de senadores entregou uma carta a Dilma, a conselho de Lula, com quem se havia reunido na véspera, a favor do sufrágio que o povo reclama e a grande imprensa internacional defende. Se for Dilma a verbalizá-la, acreditam os parlamentares, a proposta ganharia a força política e o amparo jurídico neces- sários para prosperar. "Com Dilma e Temer sem o apoio das ruas, fica claro que um problema excecional exige também uma solução excecional: novas eleições", escreveu em artigo no jornal Folha de S. Paulo o senador Randolfe Rodrigues, da Rede, o partido de Marina Silva, e membro da força suprapartidária do Senado autodenominada Voto Já..A Marina, que se reuniu na quarta-feira com artistas "globais", como são referidos no país as vedetas da TV Globo, a pedir apoio público às eleições, e a Lula a solução interessa porque os dois encabeçam as sondagens de opinião..O cenário de eleições antecipadas, porém, é considerado utópico por constitucionalistas. Seria necessário redigir até dia 12 de maio, data prevista para a votação do impeachment no Senado, uma proposta de emenda constitucional que depois precisaria do apoio de dois terços dos deputados e a seguir de dois terços dos senadores para ser aprovada. E estes, ao votar favoravelmente a medida, estariam a abdicar dos seus cargos porque as eleições seriam gerais - presidenciais e legislativas..Além das dificuldades de ordem constitucional, seria necessário superar o grupo de Temer, que, embora não colha a simpatia popular (apenas 8% confia num governo sob a sua direção), tem apoio da maioria dos congressistas, como se viu na votação do impeachment na Câmara. O próprio vice-presidente teve uma reação irónica à sugestão: "Eleições antecipadas? Isso é golpe.".Já Dilma veria o expediente como uma forma de, pelo menos, não entregar o poder nas mãos dos inimigos Temer e Eduardo Cunha (PMDB), o presidente da Câmara dos Deputados, porque, como ela admitiu a colaboradores citados pela imprensa, a derrota no Senado e consequente afastamento por 180 dias para dar lugar ao vice "é inevitável". Por agora, a presidente pensa no day after à votação: estuda, por um lado, incendiar a militância dos movimentos sociais que apoiam o PT - sindicatos e outros - nos primeiros dias da era Temer e realizar um périplo por países da América Latina e da Europa a denunciar "o golpe" de que se diz vítima..Entretanto, Adolfo Pérez Esquível, pacifista argentino vencedor do Prémio Nobel de 1980, discursou no Senado brasileiro a convite do senador Paulo Paim (PT), que presidia interinamente ao plenário, e definiu a situação no Brasil como "golpe". "Venho ao Brasil trazer solidariedade e apoio de muita gente na América Latina para que se respeite o direito do povo de viver em democracia e a continuidade da Constituição, um golpe de Estado traz grandes dificuldades aos países, como aconteceu nas Honduras e no Paraguai", disse..O deputado do PSDB Ataídes Oliveira reagiu "com indignação" e pediu para a palavra "golpe" ser retirada da ata, pedido a que Paim acedeu, após troca de acusações..Na sessão da Comissão do Impeachment, entretanto, ontem foi o dia de os subscritores do pedido, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior, serem ouvidos. Hoje fala José Eduardo Cardozo, advogado do governo..São Paulo