Há um momento decisivo na vida de Lúcia Soares, filha de imigrantes da ilha de São Jorge e já nascida na América no ano em que Portugal vivia a revolução. Um perfeito acaso definiu boa parte do seu percurso de vida, desde a estudante universitária que ajudava a mãe a limpar casas, servia às mesas num restaurante para pagar as propinas e sonhava ser professora até à mulher que é agora vice-presidente da divisão de estratégia digital para cuidados de saúde da gigante Johnson & Johnson..Estamos na primavera de 1995 e falta cerca de um ano para terminar o bacharelato em Línguas Estrangeiras. Projeto de vida? Continuar os estudos, completar o mestrado em Literatura e dar aulas. Lúcia já se dividia há mais de dois anos entre a universidade, as mesas do restaurante e a limpeza das casas dos outros ao lado da mãe, quando conheceu Patrick Casey. Ela e a mãe limpavam regularmente a casa do Sr. Casey, executivo na Fujitsu, uma empresa de computadores numa altura em que a internet dava os primeiros passos. O cenário desta história é Silicon Valley em meados dos anos 1990, o que ajuda a explicar o resto do enredo. Lúcia conta que "o senhor Casey era um executivo bem conhecido na Fujitsu e um dia, quando estávamos conversando sobre os meus planos pós-universidade - ser professora de Línguas e Literatura -, ele olhou para mim e disse: "OK, está bem, mas sabes que vivendo aqui terias muitas outras possibilidades no mundo da tecnologia. Sabes o que é a WWW, a internet?" Eu nem sabia o que WWW significava... Mas ele conseguiu convencer-me de que havia uma oportunidade que eu precisava de conhecer, de experimentar e que seria capaz de aprender algo diferente." Aceitou o desafio e foi aprender outras linguagens - programação e HTML..Lúcia descreve essa mudança de rumo como algo natural. "Entrei para a Universidade da Califórnia em Santa Cruz e concluí lá o curso de Línguas e Literaturas Estrangeiras, mas depois aconteceu estar na Fujitsu numa altura decisiva, quando eles criaram um departamento para ajudar outras empresas a criar páginas na internet e a digitalizar a sua informação. No fundo, eu estava a estudar Línguas e Literaturas Estrangeiras porque queria ser professora, mas depois estava na Fujitsu a aprender tecnologia e acabei por me virar para esse negócio. Tirei um MBA na Universidade de San Jose e continuei no campo da tecnologia." É um passo relativamente normal em Silicon Valley, diz. "Das Línguas e Literaturas, das Humanidades para a Tecnologia, é uma história recorrente aqui. Acontece que, afinal, nas empresas tecnológicas precisamos tanto de criatividade como de ciência e engenharia." Na altura, mudou de vida ainda pouco confiante nessa novidade chamada internet. "Naquele momento pensei que a internet estava a avançar demasiado depressa. Pensei que não iria durar muito tempo e que poderia sempre voltar atrás e concluir o doutoramento, mas a verdade é que comecei a divertir-me imenso a aprender como funcionavam os negócios na área da tecnologia, e acabei por dar esse salto.".Sentada à mesa de jantar da sua casa num tranquilo bairro de vivendas em San Jose, com a filha mais nova a brincar num quarto ao fundo do corredor, Lúcia Soares transmite uma imagem de absoluta serenidade. Talvez seja da luz quente de fim de tarde que ilumina a sala, mas o discurso é pausado, confiante e marcado por gestos largos e calmos com as mãos. Lúcia regressa ao tal momento decisivo para contar que "anos depois, agradeci ao senhor Casey pela oportunidade, pois abriu um caminho muito diferente para a minha carreira, e ele disse-me algo bem americano: "Não fui eu. Foi o seu trabalho árduo e tudo o que fez depois de eu lhe abrir uma porta." Nos últimos anos, tenho contado muito esta história porque acho que, sendo filha de imigrantes, as possibilidades nem sempre aparecem e temos de conseguir o sucesso através de muito trabalho. Nada se consegue sozinho, e se virmos bem as coisas, há sempre alguém que nos abre a porta. E por isso temos de pay it forward, ajudando todos quantos podermos ajudar".."Filha de imigrantes".A expressão atravessa a conversa por diversas vezes, uma conversa que Lúcia insistiu que fosse em inglês, porque tinha medo de deixar fugir palavras em português. Depois de mais de meia hora de perguntas e respostas em inglês, desligado o gravador, falámos em português durante imenso tempo, sem erros, hesitações ou sotaque carregado. A história da sua família na América tem um passado distante e uma experiência falhada. "O meu bisavô veio para aqui, para a Califórnia, no final do século XIX. Mas depois de ter vivido aqui por alguns anos, e de ter trabalhado muito duro nas explorações de vacas leiteiras, decidiu regressar aos Açores porque achava que esta terra matava as pessoas com trabalho." É só no final dos anos 1960, princípio dos anos 1970 que começa a verdadeira aventura. "Em 1968 e 1970, os meus pais decidiram emigrar e tiveram uma história típica de imigrantes. Só tinham a 4.ª classe, vinham dos Açores de famílias pobres, vieram para aqui e trabalharam arduamente para conquistar o que têm. Compraram casas e tiveram filhos que hoje têm todos cursos superiores. Eu sou a mais velha de cinco. É muito bom poder dizer que os meus pais, com educação básica, criaram cinco filhos, todos concluíram a universidade e todos temos uma vida muito diferente daquela que teríamos tido se eles não tivessem saído de Portugal.".Lúcia Soares lembra-se de ajudar a família desde bem cedo. "O meu pai tinha um pequeno negócio, uma estufa no quintal onde cultivava plantas ornamentais, que depois vendíamos aos fins de semana no mercado local, uma espécie de Feira da Ladra. Mas também tinha um emprego a tempo inteiro, como contínuo no liceu de Cupertino. De manhã trabalhava nas plantas e depois, das três da tarde às onze da noite, limpava e tomava conta da escola. E foi assim que ganhou a vida, a trabalhar sete dias por semana, e connosco, eu e a minha mãe, a ajudar no negócio das plantas para ver se o dinheiro chegava até ao fim do mês." É sempre com orgulho que fala dos pais e das conquistas familiares na América. "Esse percurso é muito importante. É um orgulho pessoal sentir, como muitas pessoas neste país e muitos da nossa comunidade, que atingimos the american dream - start from nothing and get to something.".É a estas histórias que Lúcia regressa em busca de uma ética familiar e de trabalho que diz ser "muito açoriana" e que acredita ter tido uma influência decisiva na sua vida, no seu sucesso. "O meu pai nunca teve férias. Cresci a vê-lo trabalhar duro para sustentar a família. Todos os dias e sem se queixar de nada. Agora, como adulta, dou mais valor a essa capacidade de sacrifício do que quando era criança. Acho que isso é uma coisa muito açoriana, aceitar o sacrifício para conseguir dar o melhor à próxima geração." Lúcia Soares recorda o primeiro dia de escola e uma mensagem do pai. "Eu tinha 5 anos e ele disse-me: "Lúcia, quero que sejas a melhor! Vais trabalhar muito e vais ser a melhor. OK?" Mesmo quando estava na universidade e não tínhamos dinheiro, ele nunca me disse para desistir. Isso marcou-me. Mesmo convivendo com líderes fantásticos, que nasceram em famílias ricas, eu vejo em mim uma força, uma perseverança, aquela vontade de nunca desistir. Isso é algo que só os pais nos podem dar, não pode ser adquirido em Harvard ou em Yale.".Lúcia casou-se dentro da comunidade portuguesa, apesar de confessar que "nunca pensou" casar-se com um português. "Quando fui para a escola sempre estive em sítios onde não havia muitos portugueses, e não tinha ligações com pessoas da minha idade que falassem português. Tinha ligação à comunidade, claro. Íamos sempre à Igreja das Cinco Chagas em San Jose, por exemplo. E quando tinha 9 anos tive um programa na rádio em português. Mas nunca pensei em casar-me com um português. E depois conheci o Miguel... Estamos muito envolvidos nas atividades da comunidade portuguesa, através da igreja, de instituições como a POSSO [Portuguese Organization for Social Services and Opportunities], que ajuda os idosos. E já temos as nossas filhas a participar em atividades da comunidade, porque considero que temos de estar ligados às nossas raízes, perceber de onde viemos, conhecer a nossa língua, aprender os nossos valores." Em casa, enquanto crescia, sempre falou português. Os pais foram tão intransigentes que, quando entrou para a escola, não falava uma palavra de inglês. Agora tenta impor as mesmas regras às filhas. "Elas falam português, sim. É difícil conforme vão crescendo, mas sempre falámos português com elas aqui em casa, sabem ler português e levamo-las a Portugal sempre que podemos, aos Açores e ao continente. Tentamos ensinar-lhes os reis, a história de Portugal. "Estão a ver aquele pedacito de terra ali ao lado de Espanha? Porquê que é independente? Qual a identidade daquele país?" Elas têm muito orgulho nas suas raízes.".Mulher e mãe numa multinacional.Lúcia Soares esteve cinco anos na USWeb, "uma empresa que construía sites estáticos, dinâmicos e plataformas de e-commerce". O trabalho numa tecnológica em Silicon Valley provoca paixões, foi o caso, mas tudo acabou em divórcio. Lúcia precisava de algo diferente. "Eu adorava aquilo! O ritmo era uma loucura, mas acordei um dia e pensei que não queria só aquilo todos os dias - passar a vida a construir as melhores plataformas tecnológicas... queria trabalhar numa empresa que me inspirasse e onde pudesse dizer que estava a contribuir para um mundo melhor. Isto pode parecer um bocado piroso para algumas pessoas, mas foi assim que fui parar à Johnson & Johnson." A atual vice-presidente de uma das unidades de negócio da multinacional - que faturou 72 mil milhões de dólares no ano passado - conta que teve de fazer algo muito pouco usual para agarrar o novo projeto. "Ocupava um cargo de direção na USWeb, estava a chefiar uma das unidades de negócio, e a Johnson & Johnson só estava a aceitar pessoas com conhecimentos de regulação e experiência no negócio da saúde. Portanto, tive de aceitar uma despromoção e uma redução de salário para lá entrar. Nessa altura ninguém fazia isso em Silicon Valley." Apesar do passo atrás, a mudança fez todo o sentido. "Senti que estava a ser chamada para uma empresa maior, com um impacto mais significativo. Isso foi há 14 anos. A Johnson & Johnson tem um lema: o nosso primeiro dever é para com os médicos e pacientes que usam os nossos produtos. E também trabalhamos para a comunidade, devolvemos muito à comunidade. Foi a melhor decisão da minha carreira. Só o facto de estar num sítio que tem como objetivo melhorar a vida das pessoas... tem sido bastante bom.".Confessa que já houve momentos em que se sentiu a contrariar as probabilidades. "Como mulher, na área da tecnologia, houve situações em que estive numa sala e senti-me invisível. Felizmente foram casos isolados. Uma sala só com homens em que dizemos qualquer coisa, ninguém nos ouve e depois alguém diz exatamente a mesma coisa e, de repente, toda a sala está a elogiar uma bela ideia." Lúcia afirma que é "estranho e frustrante" que a desigualdade salarial entre homens e mulheres ainda seja um tema em 2017 nos Estados Unidos - foi um dos assuntos em destaque do lado democrata da campanha eleitoral do ano passado. Silicon Valley, a área das tecnológicas, não é uma exceção nem um terreno livre de desigualdade de género. Lúcia cita um estudo para sublinhar uma diferença essencial de comportamento entre homens e mulheres. "Em 1994, em Stanford, começou um curso de Computer Science em que, pela primeira vez, houve o mesmo número de alunos homens e mulheres. Ao fim de 20 anos, os homens tinham criado empresas e ganho milhões de dólares, e das mulheres dessa turma só uma conseguiu atingir esse nível. Porquê? Porque os homens conseguiram criar uma rede de contactos, contratavam-se uns aos outros. Esse networking funciona.".Apesar de tudo, Lúcia Soares afirma que está numa empresa "muito compreensível e flexível" para quem quer ser mãe. "Quando a minha primeira filha nasceu estávamos em Miami, eu tinha acabado de ser promovida a diretora. Fui ter com a minha chefe e pedi-lhe oito meses de licença. Em qualquer outra empresa teriam dito "mas, acabaste de ser promovida, tens imenso trabalho para fazer, tira dois meses e volta rápido". A minha diretora nem pestanejou. Disse-me: "Claro que sim! O teu posto estará aqui daqui a oito meses." E fiz isso outra vez quando tive a segunda filha. A Johnson & Johnson é um sítio fabuloso para trabalhar e ser mãe."