367 deputados votaram pela destituição de Dilma. Processo segue para o Senado

Votação no parlamento brasileiro terminou com 367 votos a favor do impeachment e 137 contra. Michel Temer fica a um passo de ser presidente
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Michel Temer (PMDB) ficou a um passo de substituir Dilma Rousseff (PT) na presidência da República do Brasil. Após a aprovação da continuação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados por uma larga maioria dos votos, basta ao vice-presidente que 41 dos 81 senadores, provavelmente no dia 11 de maio, também votem pela destituição da presidente para a substituir no cargo.

A votação final ficou com 367 votos a favor do processo de destituição, 137 contra e sete abstenções (houve dois deputados ausentes).

A votação terminou às 3:50 (horas de Lisboa), numa longa sessão - começara às 18:00 de domingo -, mas foi às 3:06 que foram conseguidos os 342 votos sim - 2/3 dos representantes - para que o impeachment prosseguisse, como manda a lei.

O processo vai agora para o Senado, onde as projeções apontam para 47 senadores do lado de Temer. Se nada de anormal acontecer, a substituição da presidente é agora apenas uma questão de tempo.

Tumultos iniciais

A sessão começou com tumultos. Deputados governistas pediram ao presidente da câmara para retirar parlamentares da oposição em pé atrás da mesa. Eduardo Cunha (PMDB) negou. Paulo Teixeira (PT) e Orlando Silva (PCdoB) subiram então ao palanque e sentaram-se de frente para Cunha, que chamou os seguranças da casa. Enquanto estes retiravam os dois deputados, outros governistas colocaram uma faixa a dizer "Fora Cunha", para irritação do líder da câmara. Já falava, como manda o protocolo, Jovair Arantes (PTB), autor do relatório do impeachment, quando Cunha mandou então os oposicionistas sentarem-se nos seus lugares. Pelo meio, houve empurrões e insultos.

Apesar de Cunha proibir faixas e cânticos, a oposição levou cartazes com as suas duas palavras de ordem preferidas: "Impeachment Já" e "Tchau Querida", alusão à forma como Lula da Silva se despediu de Dilma num dos telefonemas gravados e divulgados pelo juiz da Lava-Jato, Sergio Moro. Do lado do governo, as faixas mais comuns foram "Não Vai Ter Golpe" e "Fora Cunha".

Enxuto ou inchado

A sessão decisiva decorria e os dois lados ainda lutavam voto a voto. O argumento final de Dilma e Lula era a inconsistência do discurso de Temer: aos jornais e aos empresários, o vice-presidente tem vendido um executivo enxuto, com cerca de metade dos ministérios atuais (são 39), e parte deles ocupados por notáveis como José Serra, senador do PSDB, Armínio Fraga, presidente do Banco Central na era Fernando Henrique Cardoso (FHC) ou Nelson Jobim, ministro da justiça de FHC e da Defesa de Lula; porém, perguntam os governistas, "como pode prometer aos partidos cargos ministeriais para todos num governo inchado?"

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No campo da oposição, sublinhava-se o declínio da esquerda latino-americana - na Argentina, assumiu Mauricio Macri, na Bolívia, Evo Morales perdeu o referendo para nova reeleição, Nicolás Maduro está mais isolado na Venezuela e, no Peru, os dois concorrentes na segunda volta das presidenciais são de direita - para convencer deputados a estarem "do lado certo da história".

Nas ruas

Até à hora da votação, não havia registo de incidentes relevantes nas dezenas de manifestações pró e contra o impeachment pelo país - nem em cidades, como a capital Brasília e as duas mais populosas, Rio de Janeiro e São Paulo, onde se esperavam protestos próximos uns dos outros. Os movimentos que organizaram as manifestações contra Dilma ao longo de 2015 - Movimento Brasil Livre, Vem pra Rua e outros, escolheram juntar-se em Brasília, do lado direito da Esplanada dos Ministérios, a partir das 14 horas. Na mesma Esplanada dos Ministérios, mas do lado esquerdo, a Central Única dos Trabalhadores, força sindical que está na origem da criação do PT, e o Movimento dos sem Terra encontrou-se duas horas antes.

No Rio de Janeiro, os dois grupos escolheram a praia de Copacabana, na zona sul, para as manifestações. Os contrários ao impeachment ficaram entre os postos 1 e 3, com concertos de bandas funk e os pró-impeachment ao lado, do 3 ao 6, com quatro telões [ecrãs gigantes].

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Em São Paulo, a Avenida Paulista, onde fica a FIESP, federação das indústrias paulistas, associação comprometida pelo impeachment, voltou a ser sede dos protestos contra Dilma, com direito a telão para acompanhar a par e passo a votação. No vale do Anhangabaú, a poucos quilómetros de distância, além de telões, a Frente Povo sem Medo, movimento pró-governista, convidou artistas e políticos para intervir. O local foi simbólico: também num 17 de abril, reuniram-se em 1984 mais de um milhão de brasileiros a exigir eleições no movimento Diretas Já - Lula, FHC e Tancredo Neves, avô de Aécio, estiveram lá.

Pela TV

Ainda em São Paulo, bares do bairro mais boémio, Vila Madalena, decidiram transmitir a votação. "Foi uma decisão arriscada porque pode haver conflitos", reconhecia Jefferson Santos, gerente do Boteco São Bento, que costuma juntar clientes em torno de jogos de futebol, "mas não dava para ficar de fora dessa, temos de faturar porque todo o mundo está de olho em Brasília."

Além dos canais noticiosos, também três dos quatro principais canais abertos, Globo, Band e Record (sobrou o SBT) estiveram em direto durante a votação. Os jogos de futebol, religiosamente exibidos por Globo e Band à mesma hora do plenário da câmara de ontem, foram antecipados para a véspera. Com RSF

São Paulo

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