Como Trump está a tornar a sátira grande outra vez

Ainda na campanha, um Jimmy Fallon vestido de Trump entrevistou o verdadeiro Trump

Imitação de Alec Baldwin do novo presidente americano ajudou Saturday Night Live, da NBC, a obter as melhores audiências em 20 anos.

Na véspera de Donald Trump tomar posse, Michael Moore deixava um apelo para se formar "um exército de comediantes" para derrotar o novo presidente dos EUA. Passado um mês, o desafio do realizador americano não ficou sem resposta. E do Saturday Night Live (SNL) aos late shows de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon não faltam farpas lançadas contra a Casa Branca. De tal forma que o próprio presidente não resistiu a criticar a imitação que faz dele Alec Baldwin no SNL. As audiências, essas, vão subindo: com o programa da NBC a conseguir as melhores dos últimos 20 anos.

Com um ex-apresentador de reality shows na presidência, "há com certeza uma maior mistura de comédia e política, além de ênfase na sátira política", explica ao DN Amy Bree Becker. Para a professora assistente na Universidade de Loyola no Maryland, especializada em Entretenimento e Comédia Política, o pedido de Michael Moore "dirigia-se a comediantes como John Oliver, Samantha Bee, Seth Meyers, Stephen Colbert, etc., para que responsabilizassem Trump".

Alguns analistas desvalorizam os efeitos que este tipo de programa humorístico tem no eleitorado americano. Até porque se o SNL, muito graças ao Trump de Baldwin, conseguiu audiências recorde, a verdade é que estamos a falar de dez milhões de pessoas. Trump só no Twitter tem 25 milhões de seguidores, dando-lhe uma enorme plateia de cada vez que tuíta qualquer coisa. Além disso, tanto o SNL como os programas de Colbert ou Jimmy Fallon têm uma audiência "constituída por millennials de esquerda", lembrava há dias a revista Economist, sublinhando que estes "preferiam a morte a votar em Trump".

Para Amy Bree Becker "Trump usa o Twitter para criticar desde o Saturday Night Live até aos media tradicionais como CNN ou MSNBC, que continua a dizer serem "notícias falsas"". Mas no caso do SNL "não se trata apenas de quem vê o programa, mas do efeito viral dos sketches [nas redes sociais] e como são depois comentados pelos media tradicionais".

A relação entre humor e política é antiga, das comédias gregas aos dias de hoje. Com os poderosos a serem alvo da sátira. Mas na era da internet, tudo se tornou imediato e o alcance, global. Exibidos na América ao sábado à noite (madrugada na Europa), os sketches do SNL enchem as contas dos internautas europeus mal estes acordam.

Portugal não escapou ao efeito Trump e foi um dos primeiros países a fazer um vídeo a brincar com o presidente americano e a perguntar se depois da América primeiro, Portugal podia ser segundo. "O convite partiu dos holandeses. Foram eles que nos desafiaram a entrar nesta corrida", explica ao DN Filomena Cautela que apresentou o vídeo no programa 5 para a Meia-Noite na RTP. A apresentadora confessa que "não estávamos nada à espera da dimensão que aquilo teve", sobretudo porque "passamos ainda no horário das novelas, que são muito fortes". E atribui às redes sociais grande parte do sucesso do vídeo - entretanto imitado por dezenas de países, de Marrocos à Austrália, passando pela China e até Marte (!), mas destacado pela sua qualidade por publicações americanas como o The New York Times ou a revista Vanity Fair.

Quanto a Trump ser melhor inspiração para os humoristas do que o antecessor, Filomena Cautela lembra que Barack Obama era "mais consensual na política e na forma de estar. Este não. Tudo o que Trump faz gera polémica. É a forma de governar dele". Numa entrevista ao Politico em novembro, pouco depois da eleição de Trump e um mês após ter vestido a pele do milionário pela primeira vez no SNL, Alec Baldwin admitia que Trump "escreve a sua própria comédia. Fornece todo o material de que os humoristas precisam".

Para a apresentadora, estar a falar sobre isto com uma jornalista, "é exatamente o que ele quer. Falem mal mas falem de mim". Mas admite que sendo o novo presidente "uma figura caricata, inédita", que "tudo o que diz é tão absurdo que é impossível não fazer humor". E já a Economist escrevia que o novo presidente dos EUA está a "tornar a sátira grande outra vez", usando o lema de campanha de Trump: Tornar a América Grande Outra Vez. Para Filomena Cautela, a explicação é simples: o humor " é um ponto de fuga das pessoas perante esta situação catastrófica". Sátira para quem já está convencido? "Sim. Este tipo de humor não está a convencer ninguém", reconhece a apresentadora, até porque "quem defende Trump tem de viver dentro de uma bolha".

Nos EUA, não são só os comediantes e programas de humor que ganharam nova vida com Trump. Se o Late Show de Stephen Colbert na CBS bateu o Tonight Show de Jimmy Fallon na NBC como programa mais visto da noite, trazendo dinheiro às cadeias de televisão, também os jornais, longe de sofrerem com as acusações do presidente de veicularem "falsas notícias", parecem estar a ganhar leitores. O The New York Times, por exemplo ganhou 276 mil subscrições online no último trimestre, tendo aumentado entre 10% e 15% as receitas com publicidade online desde o início do ano.

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