Belga é rei dos autarcas pelo êxito na integração de imigrantes

Bart Somers defende que o que conta não é a origem de uma pessoa mas o seu futuro, e que as pessoas não podem ser reduzidas a uma única dimensão

Bart Somers lidera há 16 anos Mechelen, cidade com 86 mil habitantes, 20% dos quais muçulmanos, de 128 nacionalidades. Agora foi distinguido com o World Mayor Prize de 2016.

A Bélgica, e as comunidades muçulmanas das suas cidades, tornou-se notícia quando se soube que muitos dos terroristas envolvidos nos atentados de 2015 em Paris tinham ligações a Molenbeek, um bairro operário dos arredores de Bruxelas. Na Bélgica, per capita, mais jovens muçulmanos juntaram-se às fileiras do Estado Islâmico do que qualquer outro país europeu, e muitos deles eram oriundos de cidades flamengas entre a capital e Antuérpia. Há uma exceção: Mechelen, uma cidade de 86 mil habitantes, onde 20% dos residentes são muçulmanos.

Esta história de sucesso deve-se em grande parte ao seu presidente da câmara, Bart Somers, que nesta semana foi anunciado como o vencedor de 2016 do World Mayor Prize, uma distinção entregue pela primeira vez em 2004 pela Fundação City Mayors, e que lhe dá o título de melhor autarca do mundo. "O que conta não é a nossa origem, mas o nosso futuro", disse Somers em entrevista ao site World Mayor.

Para a fundação, Mechelen "mostrou à Europa que pessoas de muitos países e culturas podem unir-se e serem cidadãos orgulhosos. Bart Somers acredita que todas as pessoas em Mechelen são únicas e diferentes. Têm diferentes sonhos, diferentes empregos, levam vidas distintas. Mas Mechelen é a sua casa, a sua cidade". Para muitos portugueses, Mechelen é conhecida como a casa do FC Malines (o nome da cidade em francês), clube onde o guarda-redes belga Michel Preud"Homme jogou antes de, em 1994, vir para o Benfica.

Com 128 nacionalidades, Mechelen é uma das cidades mais diversas da Europa, mas acima de tudo um local onde todos são moradores. "Se nós, consistentemente, não seletivamente, colocarmos em prática os nossos princípios fundamentais - estou a falar de igualdade de oportunidades, não discriminação, a somar à igualdade entre homens e mulheres e liberdade de expressão, etc. -, então faremos um modelo de Estado de direito e democracia mais apelativo, mais atraente do que alternativas extremistas", referiu na mesma entrevista.

Para Somers, o truque é tratar as pessoas como indivíduos com muitas identidades. "Se eu vejo um jovem muçulmano fazer alguma coisa de mal, não vou falar com o seu imã. Falo com ele, a polícia fala com ele não como muçulmano mas como cidadão... Não podemos reduzir as pessoas a uma única dimensão", declarou em dezembro, quando liderou um grupo de mais de 20 autarcas liberais europeus que se juntaram numa plataforma de combate ao populismo que está a alastrar Europa fora.

A visão positiva transmitida por Bart Somers é partilhada pelos moradores de Mechelen, recentes ou mais antigos. "Sou um orgulhoso cidadão de Mechelen. Nascido e criado no centro da cidade, experimentei a transformação da nossa pequena cidade da linha da frente. Era uma zona cinzenta no centro da Bélgica, onde as pessoas preferiam atravessar de carro a visitar. Tínhamos uma alta taxa de criminalidade e uma reputação de sermos um "pequeno Marrocos"", contou Daan, de 32 anos. "Hoje a nossa cidade está viva e toda a gente tem orgulho dela", acrescentou num depoimento dado ao site World Mayor.

Youssef, um muçulmano de 45 anos, contou ao mesmo site que "é muito ativo na comunidade. Eu vejo as mudanças". "Ele [Somers] tornou Mechelen grande e positiva. Nesta altura, onde em qualquer país a coabitação é muito difícil, ele valoriza todos os moradores da cidade."

Eleito em 2001 presidente da Câmara de Mechelen pelo liberal Open Vld, Bart Somers, de 52 anos, tem uma grande e diversificada carreira política: foi líder do partido (2004 a 2009), ministro-presidente da Flandres (2003 a 2004) e foi um dos três negociadores do Open Vld durante a formação do governo belga no impasse de 2007--2008, que se prolongou por 196 dias. É também o presidente da Aliança dos Liberais e Democratas para a Europa no Comité das Regiões da União Europeia.

A mensagem de igualdade e liberdade de Somers é acompanhada de uma inesperada linha dura em relação ao crime, de tal forma que já lhe deram a alcunha de Senhor Tolerância Zero. O autarca defende-se alegando que a segurança é essencial para que as pessoas lutem pela sua felicidade e sucesso. Para isso, deu à polícia mais recursos e instalou mais câmaras de videovigilância do que qualquer outra cidade da Bélgica.

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