"As mulheres têm de ser perfeitas se querem ter sucesso"

A finlandesa Anna Kontula é deputada pela Aliança de Esquerda desde 2011

Em Lisboa para um evento sobre igualdade de género na Assembleia da República, Anna Kontula explica que o sistema "não tem complacência para com as mulheres".

A deputada finlandesa garante ainda que hoje as mulheres "não se sentem menos culpadas por não estarem com a família, os homens é que se sentem mais".

Estamos no século XXI, mas o direito de voto das mulheres ainda é limitado em países como a Arábia Saudita. O que pode ser feito para mudar isso?

O problema não é só as mulheres não poderem votar na Arábia Saudita, é também as migrantes não poderem votar em Portugal ou na Finlândia. Que haja tantos obstáculos aos seus direitos políticos mesmo depois de os adquirirem. Mesmo em países como a Finlândia há cada vez mais discurso de ódio, mais ataques. O problema de usar os direitos políticos - e as vítimas são na maioria mulheres - é uma questão que vai muito além da legislação. O que fazer? Estou aqui para falar destas questões, escrevo sobre elas. Mas não basta fazer campanha pelos direitos políticos das mulheres, começa nas escolas, ao nível da segurança social, garantir que há alguém para tomar conta dos filhos. As coisas simples do dia-a-dia. Mesmo na Finlândia nas eleições só 40% dos candidatos são mulheres, quando na população são 50%. Isso significa que ainda há obstáculos a que as mulheres cheguem aos lugares de topo na política.

Há problemas na Finlândia, claro. Mas o país foi pioneiro ao dar o direito de voto às mulheres, em 1906, e tiveram várias líderes fortes. Chegaram mesmo a ter uma presidente e uma primeira-ministra ao mesmo tempo...

Mas tivemos duas mulheres primeiras-ministras que falharam. Anneli Jäättenmäki foi primeira-ministra apenas alguns meses devido a um escândalo. Em parte foi porque ela fez asneira, mas o sistema não tem complacência para com as mulheres. É preciso serem perfeitas se querem ter sucesso. Numa situação semelhante, se fosse um homem, tenho a certeza que não teria sido um escândalo. Foi um problema real, mas tornou-se maior por ser uma mulher.

É a favor ou contra as quotas para mulheres na política?

É uma pergunta difícil. Nós temos quotas em algumas comissões municipais. Isso tem mudado as coisas na boa direção. Se não houvesse quotas, as mulheres só seriam escolhidas para as comissões ligadas a questões sociais e os homens para as comissões ligadas à segurança e defesa. As quotas tornam essa segregação menos óbvia. Mas claro que vai contra o ideal feminista de que as mulheres devem chegar ao topo por causa da sua perícia e não por causa do género. Mas em certas fases transformadoras as quotas podem ser úteis como instrumento para chegar a um fim.

Hoje vemos líderes a apostar na paridade nos governos, como Macron em França. Temos líderes que se dizem feministas, como o canadiano Justin Trudeau. Ter os homens envolvidos é importante?

Sim. Na Finlândia temos no Parlamento uma rede só de deputadas. Os homens não podiam participar. Mas os deputados protestaram. Isso é bom sinal. Quando cheguei ao Parlamento, se havia discussões sobre questões de igualdade os homens iam todos à cafetaria. Achavam que é um problema das mulheres. Isto foi há seis anos. As coisas começaram a mudar. Lentamente.

As mulheres são a maioria nas universidades, em muitos locais de trabalho. Mas ainda é difícil chegarem aos cargos de topo... Há forma de trabalhar com as empresas para mudar isso?

Neste momento temos mais mulheres no topo das grandes empresas na Finlândia do que no governo. No governo temos 17 ministros, só cinco são mulheres. Mas nas grandes empresas, um terço dos conselhos de administração são compostos por mulheres. E não têm quotas. Chegaram lá por mérito próprio. O problema não são as grandes empresas é o sistema político, o sistema oficial, as universidades. Onde não vejo progressos.

Se olharmos para o G20 só vemos duas mulheres líderes. É a mentalidade mais do que a lei que temos de mudar para haver mais mulheres nas posições de liderança na política?

Na Finlândia, por exemplo, já não há obstáculos formais para as mulheres. Mas temos problemas com a forma como as pessoas pensam. Como valorizam os assuntos. No mercado de trabalho há uma grande segregação. Há ocupações quase exclusivamente das mulheres. Por exemplo nos cafés. Por causa dessa segregação, homens e mulheres têm perícias diferentes. Quando um homem fala de economia soa-nos mais convincente do que se for uma mulher jovem. O meu partido [a Aliança de Esquerda] tem uma líder, Li Andersson, que tem 30 anos. Ela está sob ataque, com os jornalistas a dizerem que é histérica, que interrompe a toda a hora, que tenta parecer perita em assuntos em que não é. Mas a verdade é que, sim ela interrompe, mas os homens interrompem mais. Mas isso não incomoda as pessoas. Sim, ela é jovem, mas faz os trabalhos de casa. Ao mesmo tempo, é difícil para os homens falarem sobre cuidados infantis porque as pessoas acham que não percebem nada disso. Por isso há uma segregação de perícias e uma hierarquização dos assuntos. Os assuntos masculinos são mais valorizados do que os assuntos femininos.

As mulheres sentem mais que têm de escolher entre família e trabalho?

Hoje está a acontecer o contrário. Nós temos uma rede pública de escolas ótima na Finlândia. Sou mãe de três filhos e doutorada e política. E é possível porque temos este sistema. As mulheres não se sentem menos culpadas por não estar com a família, mas os homens começam a sentir-se mais culpados.

As mentalidades mudam, mas as diferenças salariais existem. Seja em Hollywood ou no nosso dia-a-dia. Como é possível mudar isso?

[Silêncio] É uma pergunta difícil. Na Finlândia não há grandes diferenças salariais dentro da mesma função. Mas como o mercado laboral é tão segregado, o trabalho das mulheres é menos valorizado do que o dos homens. E honestamente não sei o que podemos fazer para resolver isto. Mas a estrutura do nosso mercado de trabalho está a mudar rapidamente. Na Finlândia houve sempre uma grande classe média. Mas a classe média está a diminuir. E as pessoas ou sobem ou descem. É possível que dentro de uma década as diferenças de salário entre classes sejam bem maiores do que as diferenças entre géneros.

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