"Ainda podemos derrotar a extrema-direita"

Entrevista a HarLem Désir, secretário de Estado francês dos Assuntos Europeus
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"O Choque", foi como ontem o Le Figaro, de direita, e o Le Monde, de esquerda, referiram nas primeiras páginas a votação da Frente Nacional na volta das regionais. Está também chocado?

A extrema-direita progrediu muito nestas eleições, mas pode ainda ser derrotada na segunda volta. É preciso que os cidadãos e as forças políticas se mobilizem de modo a que isso suceda, que nenhuma região seja presidida pela extrema-direita. Seria um recuo terrível para essas regiões, que no âmbito da reforma que fizemos vão ter muito mais competências, em matéria económica, universitária...

E o PS é já a terceira força.

Mas somando os votos, a esquerda ainda está à frente da direita. E o que posso fazer é apelar aos cidadãos a mobilizar-se. Têm de decidir se querem que a extrema-direita assuma a direção de regiões e as forças políticas devem criar as condições para que os cidadãos se juntem nesse propósito. Daí termos retirado as listas nas regiões onde estamos em terceiro e existe o risco de a FN ganhar, para que os votos se concentrem num candidato republicano.

Porém Sarkozy, ao contrário do PS, já disse que não vai desistir em nenhuma das candidaturas.

Não vou comentar.

Como interpreta estes resultados, não exatamente uma surpresa?

Sim, por todo o lado na Europa vemos crescer, há algum tempo, as forças populistas antieuropeias. É o produto por um lado da crise social e económica, do desemprego, mas também de ideias que prosperam mesmo onde não há uma crise económica forte, como na Suíça, ou em certas regiões da Áustria.

Não é o falhanço da ideia de Europa?

Acho que é preciso refletir sobre todas as causas que podem levar a esta combinação de crise económica, social e política que faz que estas ideias populistas antieuropeias cresçam. Já tínhamos visto isto nas europeias de 2014; há cerca de 150 eleitos que são antieuropeus. É uma batalha de ideias numa altura em que a Europa está confrontada com desafios muito difíceis. A crise dos refugiados, a guerra na Síria, o terrorismo... Tudo problemas que se juntaram ao problema económico. E ou tentamos responder juntos, porque precisamos de mais cooperação europeia para fazer face ao terrorismo, à instabilidade no Mediterrâneo, à crise no Médio Oriente, tentar encontrar uma solução para a situação líbia, fazer face ao que se passa na Ucrânia... Ou aceitamos a ideia de cada país se fechar sobre si próprio. Quem propõe regressar a soluções estritamente nacionais vende ilusões. É um logro.

Precisamente, em França, depois do 13 de novembro, fala-se cada vez mais de fechar fronteiras, velha reivindicação da FN. Não vê uma ligação entre o resultado de ontem, os atentados, e a linha securitária defendida pela FN?

É possível que a FN, evidentemente, tenha tirado vantagem de um ambiente de medo. Muitas coisas alimentam o voto FN.

Que agora diz: tínhamos razão no que defendíamos, porque agora todos dizem o mesmo.

Não, eles não dizem isso. Dizem que tinham razão ao dizer que era preciso isolarmo-nos, que a Europa não é eficaz e que o perigo vem de fora. É uma visão do mundo, a dos populistas, dos nacionalistas, dos extremistas. É preciso combatê-la pela democracia e mobilização.

Fala-se também de criminalizar quem consulta sites jihadistas, como de retirar a nacionalidade francesa a quem tem dupla nacionalidade e é condenado por crimes de terrorismo. Algumas destas propostas foram feitas pela FN, depois pela direita de Sarkozy e agora o PS discute-as. Dir-se-ia que o PS está a assumir, a apropriar-se do discurso securitário da extrema-direita.

Não se trata de nos apropriarmos de um discurso, mas de tomarmos um conjunto de medidas que sejam eficazes contra o terrorismo. E é preciso agir em todas as frentes. A da desradicalização, por exemplo - uma parte dos que se radicalizam fazem-no na prisão, na internet ou no contacto com pessoas já radicalizadas. É uma luta que se faz na escola, na sinalização dos pais... É uma batalha longa e difícil, esta, de defender sociedades fundadas na tolerância.

E que não parece estar a correr bem: segundo um estudo publicado ontem o voto jovem (dos 18 aos 30) na FN é 34%, mais elevado do que nas outras idades.

Se a extrema-direita tem 30%, é porque muita gente votou nela. E que muitos não votaram. É preciso usar esse direito, o do voto, para defender a sociedade democrática. Tivemos 50% de abstenção. Menos do que há seis anos, mas mesmo assim...

Presidiu ao SOS Racismo. Agora está num governo que distingue entre quem tem dupla nacionalidade e quem a tem só francesa. Não é dizer que há os franceses de verdade e os outros?

Como ex-presidente do SOS Racismo sempre defendi que a França é uma nação universal onde têm lugar todos os que aderem aos seus valores, independentemente da sua origem, cor, religião. Se se é membro da comunidade nacional, não se deve participar em ações terroristas contra o seu país e os outros franceses.

Mas se alguém que só tem a nacionalidade francesa for condenado pelos mesmos atos será francês toda a vida.

Sim, porque não podemos criar apátridas, as convenções internacionais não o permitem

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