Em 25 anos morreram quase 2300 jornalistas pelo mundo

Documento elaborado pela Federação Internacional de Jornalistas conclui ainda que 2006 foi o ano mais mortífero e que apenas uma em cada dez mortes é alvo de investigação
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Nos últimos 25 anos, pelo menos 2297 mil jornalistas e profissionais dos media foram mortos durante o exercício da profissão. Os dados foram revelados num relatório da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), que coloca o Iraque no topo da lista dos países onde houve mais mortes, seguido das Filipinas e do México.

Carlos Pinota, repórter de imagem da RTP que passou por teatros de guerra como Timor, Afeganistão ou Kosovo, não se mostra surpreendido com os números e reconhece que "é uma notícia muito triste para o jornalismo livre e independente". O jornalista realça o facto de, nos últimos cinco anos, ter havido um acréscimo substancial de jornalistas freelancer no Médio Oriente, profissionais que "não têm o suporte dos grandes órgãos de comunicação social", encontrando-se "no terreno completamente desprotegidos".

No relatório emitido pela FIJ, o Iraque é o país mais perigoso para os profissionais dos media, com 309 mortes no último quarto de século, a partir de 2003, ano da invasão do país pelo exército norte-americano. Em segundo lugar estão as Filipinas, onde houve 146 vítimas mortais, e em terceiro o México, com 120.

No caso do Iraque e restantes países onde existem ou já existiram confrontos bélicos, Carlos Pinota nota que há um "total desrespeito pelos direitos humanos" e que o jornalista é considerado "um alvo" com vista à "propaganda terrorista". Em países como as Filipinas ou o México, o operador de imagem da RTP destaca a "ausência de um jornalismo isento e independente", sendo o assassínio uma forma de "silenciar o mensageiro".

A escalada de violência traduz-se no número de repórteres que têm perdido a vida no exercício da profissão. "Os últimos dez anos foram os mais perigosos", admitiu Anthony Bellanger, secretário-geral da FIJ. Ainda de acordo com o relatório, composto por um total de 76 páginas, o ano de 2006 foi o mais mortífero, tendo-se registado 155 vítimas. Para estes números muito tem contribuído o facto de quem pratica estes crimes passar, em grande parte dos casos, impune. "A FIJ estima que apenas uma em dez mortes é investigada", pode ler-se no documento. Do ponto de vista de Anthony Bellanger, trata-se de "uma questão diplomática". "Temos de parar com a impunidade que protege os assassinos", salientou.

Para Carlos Pinota, "não investigar a morte de um jornalista é sinónimo de que não lhe é dada a devida importância". "Há tendência para se pensar que aquela pessoa morreu porque estava no sítio errado, à hora errada. Mas as coisas não podem ser vistas assim. Quem pratica estes crimes deve ser investigado e punido", assevera.

A FIJ refere que em 1990, ano em que as mortes de jornalistas começaram a ser contabilizadas, o número de vítimas mortais se situou nos 40. A partir de 2010, contudo, a fasquia não baixou mais dos 100.

Apesar de o documento só vir a ser tornado público na próxima semana, a Associated Press obteve uma cópia durante um debate que teve como tema as mortes de jornalistas em zonas de conflito que decorreu no parlamento britânico na passada segunda-feira. A FIJ também participa num encontro a realizar-se amanhã em Paris, França, com a mesma temática. "Elaborámos este relatório para mostrar que está na altura de fazer alguma coisa", reforçou Bellanger.

O secretário-geral da FIJ mostrou-se também preocupado com a tendência crescente de grande parte dos sequestradores assassinar jornalistas sem sequer exigir um resgate ou algo como moeda de troca.

Os números são preocupantes e não se avizinham anos mais pacíficos, opina Carlos Pinota: "Penso que estes números vão manter-se porque os conflitos não estão a terminar, muito pelo contrário. Há cada vez menos respeito pelos direitos humanos e os jornalistas têm a vida cada vez menos facilitada". E acrescenta: "Há cada vez menos recursos, a pressão que vem das redações é cada vez maior no que toca à sede de boas histórias. E para ter boas histórias o jornalista tem de estar no foco do conflito, o que aumenta o risco".

A FIJ é a maior organização de jornalistas do mundo. Representa cerca de 600 mil profissionais em 139 países e é a entidade que atribui a Carteira Internacional de Jornalistas.

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