Documentos referem intervenção de cubanos contra fracionistas angolanos em 1977

Os telegramas da embaixada de Portugal em Luanda no dia 27 de maio de 1977 referem a interferência de tropas cubanas contra os "fracionistas" Nito Alves e José Van-Dúnen, acusados pelo regime de tentativa de golpe de Estado.

As posições do antigo guerrilheiro e ex-ministro da Administração Interna Nito Alves (Alves Bernardo Batista) e de José Van-Dúnen levam, no início de 1977, ao processo de expulsão do Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e depois à acusação de golpe de Estado que acaba por provocar uma purga que fez um número ainda indeterminado de mortos, prisões e exílios.

No dia 27 de maio de 1977, a embaixada de Portugal na capital angolana transmite um telegrama em que informa que grupos ligados a Nito Alves e que incluem elementos das Forças Armadas ocuparam a Rádio Nacional "convocando" uma manifestação popular no bairro de Alvalade, junto às instalações da emissora.

"A cidade encontra-se sob tiroteio, particularmente nas imediações do palácio que, todavia, continua sob o controlo do governo. Há notícias contraditórias de que neste momento (11:00) não há unidade nas Forças Armadas", indica o telegrama "urgentíssimo" enviado para Lisboa.

Às 17:30 outro aerograma, que faz parte do arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, referia que a Rádio Nacional tinha sido "ocupada" após intenso tiroteio "ao que se julga por tropas cubanas".

A descrição dos acontecimentos pela embaixada portuguesa salienta que os acontecimentos na Rádio Nacional "revestiu-se de forma extremamente violenta".

"A grande massa de povo ali concentrada foi dispersa por uma coluna de tanques pesados causando mortos e feridos cujo número não foi divulgado", escreve a embaixada no dia 27 de maio, num outro aerograma recebido em Portugal, quatro dias depois dos factos.

Na sequência da mesma mensagem, a embaixada informa no mesmo dia (apesar dos atrasos nas transmissões telegráficas para o exterior) que as forças governamentais anunciam o fim da "aventura dos fracionistas" numa comunicação ao país lida aos microfones da Rádio Nacional.

"O Comité Central e o Bureau Político do MPLA estão na firme disposição de continuar a via revolucionária. É um caminho que apresenta certas dificuldades e oferece também algumas incompreensões por parte do nosso povo. Temos uma série de países ocidentais e capitalistas que estão contra nós e temos países amigos que embora amigos não compreendem bem a nossa posição", explica o comunicado.

A mensagem do MPLA conclui com um aviso ao indicar que o povo vai compreender por que razão o governo vai agir "com dureza" e "com medidas drásticas em relação a indivíduos que agiram de má fé".

O telegrama nº365/1988 da embaixada de Portugal frisa que o "levantamento popular armado" teve o apoio de elementos das FAPLA e que a crise está longe de estar resolvida.

"A calma que reina em Luanda após a tomada da Rádio Nacional não significa paz e deixa prever novos incidentes pois receia-se que, após a derrota desta manhã as massas populares armadas tenham refluído para os musseques. No momento da redação deste telegrama (17:00) ouviu-se intenso tiroteio na zona do Bairro Operário. Receia-se escalada da violência pela noite", escreve a embaixada no dia 27 de maio.

Após a tomada da Rádio Nacional, o presidente Agostinho Neto faz uma comunicação ao país em que será feita "justiça".

"Quero dizer mais uma vez que não haverá para aqueles que se introduziram numa luta contra o MPLA qualquer espécie de contemplação. Qualquer espécie de perdão (...) não haverá mais tolerância. Nós vamos proceder de uma maneira firme e dura", declara Agostinho Neto.

Após a comunicação presidencial, o Bureau Político do MPLA aprofunda a condenação do "fracionismo" emitindo um documento em que expõe o historial do "nitismo" que "teria origem na estruturação de uma rede clandestina a partir do secretariado do movimento criada por Nito Alves" e Sita Valles, militante do PCP em Portugal e do MPLA em Angola, e companheira de José Van-Dúnem.

A embaixada de Portugal, citando o documento do MPLA, destaca que ao grupo divisionista é atribuída a organização da manifestação de protesto do dia 06 de fevereiro de 1976 a propósito da "suspensão do programa Kudibanguela" (Kudibanguela significa "Vamos Fazer" ou "Ação" em quimbundo, o nome da emissão radiofónica de agitação política do MPLA que começou a ser emitida em dezembro de 1974 ainda na antena da Emissora Oficial de Angola).

Além do protesto contra o fim do programa de rádio, os fracionistas eram também acusados da publicação de panfletos contra o governo, o Burreau Político do MPLA, A DISA (Direção de Informação e Segurança) e o Jornal de Angola.

O alegado golpe de Estado de 27 de maio de 1977 foi estudado, nomeadamente, pelos historiadores portugueses Dalila Mateus, Álvaro Mateus e José Milhazes ou pelo britânico David Birmingham e tem sido objeto de trabalhos jornalísticos ao longo das últimas quatro décadas.

Os historiadores Dalila Mateus e Álvaro Mateus referem que pelo menos 30 mil morreram na sequência dos acontecimentos de maio de 1977, em Angola, mas segundo a Fundação 27 de Maio, formada por ex-presos políticos, a purga do MPLA pode ter atingido os oitenta mil mortos.

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