As negociações difíceis entre Bruxelas e o governo não surpreendem os economistas e a ideia que fica é a de que a ginástica dos últimos dias era "previsível". O resultado? Um Orçamento do Estado menos otimista ao nível do consumo e que volta a recair maioritariamente na classe média.."Foram procuradas soluções que reduzam o défice estrutural e gerem receita de uma forma aceitável tanto para Bruxelas como para os partidos à esquerda. Mas o resultado é o mesmo de sempre: tributa-se a classe média, fazendo de conta que se atacam os grandes grupos económicos", afirmou Pedro Soares de Pinho, professor de Economia na Universidade Nova de Lisboa. O exemplo mais claro, diz, é o agravamento do imposto sobre os combustíveis (ISP), que irá fazer subir a gasolina e o gasóleo em seis e sete cêntimos. E a falta de uma taxa para o setor energético..João Loureiro, da Faculdade de Economia do Porto, acredita que "o país não ganha nada com estas divergências" e assume que, no fim, "quem vai pagar é o mesmo - o governo repõe os salários da função pública, e esse funcionário vai pagar mais de cada vez que for encher o depósito do carro". Isto "é mau para o país e para quem concede crédito. O exterior não sabe quem é o governo, só sabe qual é o país". O que devia ter sido preparado? "Um ajustamento mais gradual", que permitisse a devolução de medidas de forma faseada..Filipe Garcia, do IMF, também não tem dúvidas. Entre as medidas desenhadas e as renegociadas, o tom volta a ser de "austeridade para os portugueses, seja direta ou indireta. Cedo ou tarde, o governo e a sua base de apoio político iriam ter de começar a debater-se com a realidade, nomeadamente a necessidade de negociar o OE e não de o apresentar unilateralmente. Será o primeiro teste à base de apoio ao governo. Entre a coesão política da "coligação" e a sua coerência política, algo terá de ficar pelo caminho", defende..Jorge Santos, especialista em macroeconomia no ISEG, também evidencia que a conjugação de posições sempre se adivinhou difícil. Os órgãos internacionais "aproveitam sempre os países pequenos para vincar as suas posições" e Bloco de Esquerda, PCP e Os Verdes, que suportam a maioria socialista, rejeitam mais medidas de austeridade. Perante este cenário, escolheu-se uma via menos difícil: "Era inevitável que se aumentassem os impostos que incidem sobre algo que se vai comprar." Mas, desta maneira, o aumento da carga fiscal não é direto e "satisfaz os partidos internamente"..A equipa de research do BiG tem, por isso, dúvidas sobre se um acordo com Bruxelas é positivo, pois "diminui a probabilidade de eleições antecipadas, estendendo a governação da atual coligação, de que os mercados não têm gostado". Seja qual for o desfecho, sublinha, o resultado deverá trazer "mais volatilidade à Bolsa"..Nuno Mello, da XTB, é mais convicto: "Um possível acordo com Bruxelas irá penalizar a Bolsa, com a banca a ser o setor mais castigado, depois de terem sido anunciadas medidas de agravamento dos impostos.".Filipe Garcia também sublinha este aspeto. O reforço das obrigações pedidas junto da banca, tanto pelo aumento da contribuição para o Fundo de Resolução como pelo imposto do selo que irá tributar as transações feitas através dos terminais multibanco "não deixa de ser curioso", especialmente porque "a banca já mostra dificuldades"..No Orçamento que conclui hoje em Conselho de Ministros, o governo deverá confirmar uma menor expectativa para o crescimento económico. O PIB não avançará 2,1%, mas sim 1,9%. Uma perspetiva bem mais real, defendem. Filipe Garcia diz que não tem dúvidas de que o governo foi demasiado otimista no primeiro rascunho que enviou a Bruxelas. Pedro Cosme Vieira fala em "crescimento económico exagerado". Entre a previsão acima da expectativa e uma inflação superior à esperada, o professor do Porto admite que "o défice resvala automaticamente para 3,2% do PIB, um aumento relativamente a 2015".