O fisco levantou, no ano passado, o sigilo a 535 contas bancárias, um mecanismo que lhe permite aceder aos movimentos de dinheiro dos contribuintes suspeitos de irregularidades fiscais. Foram mais 15% do que em 2015. A maior parte dos visados não se opôs à fiscalização, mas 21 recorreram aos tribunais para tentar travar a ação..O acesso do fisco às contas bancárias tem vindo a subir de forma consecutiva nos últimos três anos. E também o número de contribuintes que autoriza esta verificação - ainda que em várias situações esta "luz verde" não seja necessária. Em 2015, houve 465 derrogações de sigilo, tendo 346 obtido autorização voluntária; no ano passado, foram 429 os que não puseram qualquer entrave. Entre os 21 que recorreram para a justiça, apenas nove viram os tribunais dar-lhes razão..O levantamento do sigilo bancário é apenas um dos instrumentos a que a Autoridade Tributária, tutelada por Rocha Andrade, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, recorre quando existem indícios de prática de crime em matéria tributária, o contribuinte tem dívidas ou existe desconformidade com o rendimento declarado..No total, e segundo revela o Relatório de Combate à Fraude e Evasão Fiscais e Aduaneira, ao longo do ano foram realizadas 82 831 ações de inspeção em todo o país. Uma subida de 12,4%, que resultou num aumento de impostos pagos de 1,6 mil milhões de euros..Entre estas ações incluiu-se o controlo de mais-valias resultantes da venda de imóveis, tendo o fisco detetado 716 casos em que os contribuintes não procederam ao reinvestimento total ou parcial do valor realizado com a alienação de casas ou terrenos. No seu conjunto, estes contribuintes viram o fisco corrigir-lhes o rendimento em mais 15,3 milhões de euros..Sob o olhar atento das Finanças estiveram os setores que foram identificados como de "elevado risco. E que setores foram estes? O arrendamento (habitacional e a turistas), rent-a-car, ginásios e o negócio dos transportes na chamada economia de partilha. O documento revela que, no caso do alojamento local, foram selecionadas para monitorização 397 pessoas, das quais 45 acabaram por ser notificadas para inspeção. Cinco não tinham irregularidades, mas 40 revelavam indícios de omissão de rendimentos, tendo as correções realizadas na sequência destas diligências da Autoridade Tributária resultado num acréscimo de 1,9 milhões em IRS e IRC e de 98 mil euros em sede de IVA..No arrendamento habitacional, a triangulação dos dados (entre o arrendamento e a declaração de rendimentos) revelou ser necessário o envio de 128 800 e-mails aos proprietários com indícios de se encontrarem em situação irregular. O aviso revelou-se certeiro, já que se traduziu num acréscimo, face a 2015, de quase 56 milhões de euros nos rendimentos declarados..As plataformas de transporte que operam na chamada economia de partilha, como a Uber, estão também na mira do fisco que está ciente dos riscos associados a este tipo de negócio e ao controlo dos operadores aderentes às plataformas onde este se desenvolve. O fisco pretende manter-se atenta a estes setores de atividade e está a reforçar o controlo. Exemplo disso foram os 3750 estabelecimentos de alojamento local que foram alvo de uma inspeção de âmbito nacional, realizada no final de junho, e que mobilizou mais de 500 inspetores tributários e cerca de uma centena de inspetores da ASAE..A Autoridade Tributária esteve também atenta a quem tem benefícios fiscais, tendo controlado a situação de 2,3 milhões de contribuintes, entre empresas e particulares. Na sequência desta ação, foram cancelados 9858 benefícios, estando a maior parte (6127) associada ao IRS (como os PPR), seguindo-se o IMI em que foram cancelados 3648 benefícios. Na prática isto significa que milhares de proprietários perderam a isenção deste imposto sobre os imóveis.