"Está aberta a caça a tudo o que seja privado"

Almoço com António Ponces de Carvalho

Apesar de quase não haver uma cadeira desocupada à hora de almoço de um dia de sol de outono, não é difícil identificar o neto de João de Deus na esplanada do Populi. O bigode decalcado da cara do avô - que combina na perfeição com o fato clássico de três peças, camisa de botões de punho, pin na lapela - não deixa lugar para dúvidas, mesmo numa altura em que parece obrigatório para qualquer homem com mais de 18 anos. Curiosamente, porém, o aspeto formal não lhe pesa. Talvez porque a vida de António Ponces de Carvalho seja dedicada aos mais pequenos. Neto do criador da Cartilha Maternal e precursor do ensino pré-escolar, é o mais antigo responsável de uma instituição de ensino superior (a Escola Superior de Educação João de Deus, cargo que assumiu em 1979) e diretor dos Jardins-Escolas João de Deus desde 1986.

Não conheceu o avô, mas fala dele e da sua influência no ensino português como se com o próprio João de Deus tivesse cantado as sílabas coloridas da Cartilha, as mesmas que alguns críticos do sistema, professores da Escola Normal de Lisboa, tentaram fazer crer que "causavam cegueira às criancinhas", ri-se.

"Quando fiz o meu mestrado, consultei várias cartas antigas e encontrei coisas extraordinárias. Numa delas, a junta de educação reclamava que as Escolas João de Deus não tinham os mais elementares símbolos da nação portuguesa - que eram as fotografias do presidente da República e de Salazar! Já nos anos 1960, acusavam--nos de cometer o crime de ensinar as crianças - porque começamos aos 3 anos a dar lições, ao ritmo da criança, mas na altura, por má interpretação do Piaget, dizia-se que só se devia começar a ler aos 6. O pré-escolar era só para brincar. E numa ata que também descobri, criticava-se a educação de infância porque isso cabia às mães; e ficou-me gravada na memória a justificação: "As famílias de reta consciência têm repugnância em entregar a educação dos seus filhos a outros." Curiosamente, apesar do discurso oficial ser esse, os filhos dos ministros andavam todos lá."

Hoje com 56 anos, pai de duas raparigas e à frente de 55 centros educativos, conta-me que o método de João de Deus, em cujas escolas todos os alunos do 6.º ano e 97% dos do 4.º tiveram positiva a Português, é ainda considerado um dos melhores do mundo - "tem todos os ingredientes que os pedagogos e autores norte-americanos e ingleses defendem" - e que a Cartilha se mantém "atualizadíssima", tendo recentemente sido editada respeitando o novo Acordo Ortográfico. "E mesmo antigamente já era um exemplo: foi traduzida para francês, alemão, até tenho uma segunda edição em mandarim, de 1927. O meu avô teve muitas ideias extraordinárias. Foi ministro da Instrução duas vezes, foi ele quem criou o Instituto Superior Técnico e o curso de educador de infância, em 1920 - ao ensino oficial só chegou em fevereiro de 1973 ; e foi João de Deus o precursor do ensino preparatório, implementado décadas mais tarde por Veiga Simão."

A este antigo ministro, reconhece o crédito de ter sido o responsável pela única reforma educativa do país. "Há muitos anos que há este hábito: acaba-se com tudo só porque alguém acha que sim, cada ministro que entra tira e põe sem qualquer continuidade. Cada ministro que entra quer fazer uma reforma educativa. E mesmo que faça apenas pequenas mexidas, como a educação é um sistema de vasos comunicantes, cada vez que se mexe em alguma coisa desestabiliza-se tudo. Por exemplo, a terminologia está constantemente a ser alterada e os pobres dos pais nem sabem como ajudar os filhos. Um professor estuda cinco anos e quando vai ensinar já nada é como aprendeu. Isto é dramático." Recorda que, quando António Guterres era primeiro-ministro, teve "a ideia fantástica de fazer um pacto educativo" que permitisse trazer alguma estabilidade ao ensino, mas depois nada aconteceu. "E era fundamental ter medidas a médio e longo prazo."

Enquanto vamos esvaziando o saco de pão fresco e focaccia, alternadamente barrados com a saborosa manteiga de trufas e a pasta de azeitonas pretas e alcaparras, o vinho a ajudar a tornar tudo mais saboroso, vai desfiando as muitas mágoas que o sistema educativo lhe tem dado. "Contrariamente ao discurso oficial de dar mais liberdade ao ensino, a realidade é que cada vez temos menos liberdade: há mais regulamentações e o que se quer é que toda a gente faça tudo igual. E isso é mau, sobretudo na educação."

Para António Ponces de Carvalho, era muito mais útil que se promovesse um esquema em que os projetos das diferentes escolas fossem ao encontro das necessidades educativas do local onde estão integradas. "Por exemplo, Viseu vai receber um centro da IBM. Devia ser possível criar ali uma escola camarária em que a educação, logo desde o jardim de infância, seja mais virada para a tecnologia, de forma a que a cidade se tornasse uma espécie de Silicon Valley. Seguindo as grandes linhas de orientação nacional, claro, mas fazendo projeto completamente diferente. Mas não se pode."

Num Terreiro do Paço iluminado pelo sol de outono que convida os turistas a tirar fotos com o Tejo, a estátua de D. José ou o Arco da Rua Augusta a contrastar com o azul de fundo, conta-me que o pior do sistema atual é o poder que os técnicos e inspetores têm. "Antes sofríamos porque as leis eram passíveis de várias interpretações, mas sempre podíamos ir às chefias e tínhamos um árbitro imparcial. Agora o parecer do técnico é sacrossanto e ninguém se atreve a contrariá-lo. E há situações trágicas." Garante que certa vez teve "um imbróglio de sete meses" com uma arquiteta que não o deixava abrir um jardim-escola até as instalações estarem completas com um urinol para cada sete crianças. Tratava-se de um berçário para bebés de 4 meses."Alguém pegou no relatório dos projetos para miúdos de 3 anos e aplicou ali!"

Noutra ocasião, uma responsável da inspeção de saúde queria proibir que fraldas e comida passassem no mesmo corredor. "Só nos largou ao fim de oito meses de discussão, quando chegámos a um acordo: marcar no chão dois corredores com pintas a vermelho para onde passava a comida e a azul para as fraldas. Estamos nas mãos de técnicos que bloqueiam projetos capazes de criar riqueza e emprego", lamenta.

Aproveito a chegada do polvo, absolutamente recomendável, e do bife - "deixe lá a salada e a curgete e traga antes mais gratin de batata", pediu, sem sucesso - para saber se, em tantos anos ligado ao ensino, sente que as coisas pioraram. Não hesita: "Muito." E não é responsabilidade exclusiva do atual ministro - a quem reconhece o mérito de não estar refém dos sindicatos: "Aliás, nunca os vi tão sossegados...", ironiza. "Sentimos essa diferença nos últimos anos; começou com o anterior governo e cada vez sentimos mais" -, ainda que discorde de algumas das "alterações sistemáticas" que Tiago Brandão Rodrigues tem promovido. "Por exemplo, a alteração da prova do 4.º para o 5.º ano não tem nexo. Em muitas escolas nem sequer há contacto entre os ciclos, por isso os relatórios nunca vão chegar a quem devem, de forma a aferir onde é preciso investir para melhorar."

Enquanto faz render o bife à espera do reforço de gratin de batata - que há de chegar demasiado tarde -, explica que parece haver um medo enraizado de avaliar. "Já nos disseram até que é um crime pedagógico sublinhar os erros ortográficos a vermelho, porque traumatiza as crianças..."

Licenciado em Física, com diplomas de Diretor e de Professor Primário Particular, Estudos Avançados na área de Didática e Organização Escolar (tirado em Espanha) e outro de Estudos Aprofundados (em França, tal como o mestrado em Ciências da Educação), além de ter o grau de doutor em Educação Infantil e Familiar, o currículo de António Ponces de Carvalho é extenso em formação e prática. Talvez por isso mesmo seja um defensor da escola pública mas considere que se devia exigir que ela atingisse padrões de verdadeira qualidade. E defende a avaliação como fator essencial. Não comparando o incomparável - uma escola num bairro problemático nunca terá os mesmos resultados do que uma cujos alunos tenham boas condições socioeconómicas -, mas medindo o ganho educativo dos alunos de cada escola num ano letivo ou ciclo educativo. E porque é que isso não é feito? "Porque dá trabalho, mexe com muitos interesses e vai obrigar os professores a trabalhar. Eu estive no público muitos anos e sei que um professor do secundário formalmente tem 25 horas letivas e dez não letivas. Nas letivas tem reduções, por isso a maioria só tem realmente 14 horas. Mas como há uns anos se alterou essa formulação de hora para tempo letivo - e cada um tem 45 e não 60 minutos -, na verdade o professor trabalha menos de dez horas. Estamos a brincar! Há professores que trabalham muito, mas porque estão empenhados, porque são extraordinários."

De resto, António Ponces de Carvalho diz que "só tem medo de ser avaliado quem é mau e não quer melhorar, porque é para isso que serve a avaliação, para detetar fragilidades e corrigi-las." Sem ela, defende, não é possível assegurar uma melhor educação, que é fundamental para o país garantir um serviço público de qualidade, "independentemente de quem é o proprietário". Fala numa espécie de parceria público-privada na educação? "Claro, fazia sentido. Não queremos aqui o sistema soviético ou cubano, mas a melhor escola que já visitei foi na China. O Estado pagou terreno, em Xangai, construiu-a, mas a gestão é privadíssima. E todos os anos é avaliada. O ensino é bilingue desde o berçário e o custo divide-se entre os pais e o Estado, que também subsidia a escola. O ministro explicou-me que o objetivo é dar a melhor educação possível aos alunos, independentemente de ser pública ou privada. Os nossos comunistas deviam lá ir aprender. Nós temos escolas públicas excelentes e outras de má qualidade, como há privadas excelentes e outras más. O que digo é que se feche as que não prestam, sejam públicas ou privadas. Tenho dito aos sindicatos: façam uma escola e apliquem aquilo que dizem e vamos ver que resultados têm. A nossa educação é medíocre, é um sistema que faz emergir os muito bons, pessoas que, apenas graças aos seus esforços e empenho - porque o sistema não garante grande qualidade -, se tornam brilhantes."

À maioria dos miúdos, diz, apenas se exige que decorem conteúdos e é por isso que em Pisa os nossos alunos tem resultados razoáveis na aplicação direta, mas quando é preciso inferir ou aplicar conhecimentos em casos distintos a coisa muda de figura. "De que serve decorar as características físicas e psicológicas de Carlos da Maia, em Os Maias, se depois não sabem traçar o perfil da Joaninha de Viagens na Minha Terra?"

Já vamos a caminho da sobremesa - para mim, só café - mas ainda há tempo para voltar ao problema que mais tempo rouba a António Ponces de Carvalho: "A arbitrariedade da ação dos técnicos que condiciona tudo." "Por vezes temos a sensação de que os inspetores não gostam do nosso método e, como está aberta a caça a tudo o que seja privado, atacam-nos. Esquecem-se de que somos uma instituição particular de solidariedade social, que temos muitas crianças que não pagam nada, que oferecemos uma refeição a meio da manhã, o almoço e o lanche e que grandes vultos tiveram educação graças a nós."

Já com os cafés despachados, recorda com orgulho que das escolas que dirige têm saído bons estudantes, convidados todos os anos para participar em concursos nacionais. "A melhor turma do Liceu Pedro Nunes, cujos alunos estão todos no quadro de honra, vem toda do João de Deus. Fico muito contente com isso!" Também na formação de educadores as escolas que dirige têm dado provas. "Ainda agora esteve cá uma professora italiana que visitou as nossas escolas e ficou tão espantada com o que encontrou que já assinámos um protocolo para darmos formação na Universidade de Roma III." Os professores da escola portuguesa foram escolhidos para ensinar pelo método que João de Deus criou em 1920.

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