"Passei parte da minha infância no meio do mato, perto de leões, hienas e macacos. Foi fantástico"

Entrevista a Manuel Ramos, o Nelo
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Manuel Ramos, o Nelo do mundo da canoagem e empresarial, conduz o DN até ao andar cimeiro da fábrica no Canidelo, Vila do Conde, líder incontestável no mercado internacional de caiaques e canoas. Da sala, que já lhe serviu de escritório e que tem as paredes decoradas com dezenas de fotos e dedicatórias de atletas, pode observar-se a atual linha de produção da Nelo. Ali nascem cerca de três mil barcos por ano, exportados para mais de cem países. Todos eles altamente especializados, a bordo dos quais já foram conquistadas 93 medalhas olímpicas desde os Jogos de Atlanta 1996. Em curso está a mudança de instalações para uma unidade três vezes maior, também em Vila do Conde, num investimento de dez milhões de euros que lhe vai permitir aumentar a produção e apostar, em força, em barcos para o remo. Ainda antes da entrevista, Nelo despe a T-shirt que traz vestida e mostra um tronco largo, típico dos atletas de canoagem, modalidade da qual foi o primeiro campeão nacional em 1979 e que continua a praticar "quase todos os dias". Já com uma imaculada camisa branca, senta-se à cabeceira da mesa e dá o mote: "Vamos a isto?" Como o empresário nascido em Angola sublinha, mesmo estando no topo há uma procura constante do aperfeiçoamento dos barcos. O tempo disponível é, assim, algo muito precioso: "Nós hoje sabemos que há tanta coisa para fazer que não temos sequer tempo para as concretizar."

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Nelo ou Manuel Ramos? Como prefere ser tratado?

Basta Nelo. Eu gosto que toda a gente me trate assim. É mais fácil. No liceu, havia quem me tratasse por Manuel Ramos, Manuel Alberto, mas rapidamente começaram a tratar-me por Nelito e, depois, por Nelo. Assim ficou. Gosto que me tratem assim.

O Nelito aparece no seu contexto familiar?

Sim, por ser o diminutivo de Manuel. Em países como Angola, onde nasci, mas também em Moçambique ou no Brasil, muitas vezes o diminutivo fica forever [para sempre] e a verdade é que alguns familiares e amigos mais antigos ainda me chamam assim. Mas ao chegar a Portugal uma das primeiras coisas que me fizeram foi achar que um tipo com 15 anos não podia ser Nelito e então foram os meus colegas de liceu que passaram a chamar-me Nelo.

E pegou, ao ponto de ser também o nome da sua marca...

A história é simples. Eu era muito jovem quando comecei a praticar canoagem e a fazer uns caiaques. Primeiro a ideia era ajudar o meu clube em Vila do Conde e, depois, ainda bastante novo, avancei com a minha empresa. Na altura, era habitual os construtores darem o seu próprio nome à marca. Nos carros havia, entre outros, o exemplo da Ferrari (fundada por Enzo Ferrari) e na canoagem essa prática também existia. Achei que fazia algum sentido. Não se tratou de narcisismo, mas sim a opção de juntar o meu nome de atleta à minha marca, tendo em conta que já existiam mais exemplos desse género. Se em Portugal o nome Nelo causou alguma estranheza, internacionalmente funcionou muito bem: são apenas duas sílabas, simples de pronunciar em qualquer língua e facilmente entendíveis. O que tornou o nome da marca muito funcional. O símbolo também fui eu que desenhei, à mão, e até hoje sofreu apenas ligeiras alterações. É uma marca que marca bem.

Nasceu em Angola e veio para Portugal com 15 anos. Que recordações guarda de África?

Tive uma juventude muito rica. O meu pai trabalhava para os Caminhos-de--Ferro de Benguela, que explorava uma enorme plantação de eucaliptos ao longo da linha férrea, que atravessava Angola até ao Zaire. O meu pai pertencia ao departamento de florestas e o trabalho dele era carregar os eucaliptos para abastecer as máquinas dos comboios, pois na altura era essa a fonte energética. Por isso, eu vivi sempre em pequenos aldeamentos da própria companhia e passei boa parte da minha infância no meio do mato, sempre perto da natureza. Portanto, tive uma infância espetacular, da qual guardo ótimas memórias de viver no meio de todo o género de animais, como leões, hienas, macacos, búfalos, recordações da floresta, dos rios e cascatas e, claro, dos meus amigos que viviam lá. Foi fantástico. Só quando concluí a quarta classe e entrei no secundário é que houve uma mudança para a segunda cidade de Angola, que era Nova Lisboa [atual Huambo]. Foi essa a minha primeira vivência numa grande cidade. Vivi lá cinco anos mas depois, por uma questão de instabilidade, os meus pais vieram para Portugal. E aqui estou.

O facto de ter saltado tanto de terra em terra impediu-o de criar maiores raízes em relação a Angola?

Sim. A nossa infância marca muito aquilo que vamos ser no futuro. Fui sempre um saltimbanco. Nós vivemos muito pouco tempo em cada terra e, se calhar, nunca criei propriamente grandes raízes. Eu sinto-me um cidadão do mundo. Sou português, com muito orgulho, vivo em Vila do Conde, gosto muito de Portugal. Já tive a oportunidade de ter a cidadania angolana, mas não o quis. Eu quero afirmar-me sempre como português, mas julgo que parte da minha dinâmica tem que ver com o facto de nunca me ter agarrado a mundos muito pequeninos e andar sempre de um lado para o outro. Acho que me deu abertura, vontade e à-vontade para estar bem em qualquer país do mundo.

Já voltou a Angola?

Sim. Não sou saudosista nem nunca tive muita vontade de voltar, porque quando viajava preferia conhecer outros países. Mas já lá voltei e por dois motivos. O mais importante era perceber se Angola podia oferecer alguma condição para podermos criar e desenvolver a canoagem, através de um centro de estágio que servisse África a partir de Angola, uma hipótese que foi posta de lado porque existem poucas camas e a vida lá é bastante cara; o outro motivo foi ensinar os angolanos a fazerem canoas. Este é um projeto que já agarrámos há mais de dez anos, devido a essa vontade de fazer crescer a canoagem em África. Foi por aí o começo e tem sido difícil. Foram essas razões, meramente profissionais, que me fizeram voltar. O engraçado é que 30 anos depois de ter saído vi Angola exatamente como era.

E com que impressão ficou?

Gostei muito. Não contando com Luanda, uma cidade com muito trânsito e confusão, da qual fui acompanhando um pouco do seu desenvolvimento, o interior de Angola permanece exatamente igual àquilo que era no meu tempo. Foi engraçado perceber isso e ter a oportunidade de revisitar alguns dos locais onde vivi. Isso era algo que gostava de refazer. Visitar todos os locais onde vivi, principalmente aqueles mais recônditos, no fim da floresta. Mas apenas por mera curiosidade. Não me agarro muito ao passado.

Vivia assim tão longe de tudo?

Sem dúvida. Vivíamos naquilo a que chamavam partidos, que eram pequenas aldeias da companhia de caminhos--de-ferro onde, além da população local, não estariam mais do que um ou dois casais de portugueses. Esses partidos ficavam, no mínimo, a uns 10/15 quilómetros das vilas mais próximas, também elas pequenas. E a uns 100/200 quilómetros de uma cidade. Foi uma experiência muito interessante.

Durante esses 15 anos chegou a vir a Portugal?

Vim cá duas vezes. A companhia, que era inglesa, oferecia aos funcionários seis meses de férias de quatro em quatro anos. Eram as chamadas férias graciosas, e os meus pais vinham passá-las a Portugal, onde tinham família aqui em Vila do Conde e Póvoa de Varzim. Aliás, fiz parte do primeiro ano da escola primária em Portugal.

Sentiu muito choque cultural quando regressou de vez a Portugal.

Naturalmente. Era tudo muito diferente. Mas o que mais me afetou na altura foi o clima, que aqui era mais austero, mesmo tendo em conta que eu vivia no Planalto Central de Angola que era um pouco mais frio. Nesse aspeto, Portugal não era o lugar em que idealizava viver. Logo no início fiz várias viagens pelo país e rapidamente percebi tudo aquilo de bom que Portugal tinha para oferecer.

Os seus pais puderam preparar a saída de Angola?

Não. Tinham pouco conhecimento da realidade política e quando saíram foi com a ideia de voltar. Saíram mal, não conseguiram estabelecer alguma estabilidade financeira e nunca voltaram. Foi um projeto mal preparado.

Entre essas coisas boas que diz ter descoberto em Portugal estava a canoagem ou já praticava esse desporto em Angola?

A canoagem não existia em Angola. O que conhecia da modalidade foi através de alguns documentários a que tinha assistido. Achei que era um desporto interessantíssimo. Quando cá cheguei, por coincidência, conhecia alguém que estava a criar uma escola de remo e canoagem em Vila do Conde, num projeto da antiga Direção-Geral dos Desportos. Experimentei, gostei e depois quis aprender mais, mas a escola não tinha gente preparada para ensinar. O engraçado é que eu fui lá para aprender e depois o que me pediram foi para ficar a ensinar. Acabei por ser monitor à força, sem nunca ter passado sequer por algum tipo de aprendizagem. A federação de canoagem só aparece em 1979 e eu acabei por ser o primeiro campeão nacional. Até essa altura, como não havia competição organizada em Portugal, nós competíamos em Espanha.

Chegou a pensar numa participação olímpica como atleta?

Não. Tive a oportunidade de participar num Mundial. Só que estávamos impreparados. Fomos fazer provas de velocidade, as distâncias todas, sem nunca termos feito velocidade antes. Serviu de aprendizagem, mas não foi muito positivo porque estávamos a anos-luz dos nossos adversários. E a mim, embora reconheça que tinha algum valor, faltava-me a base pois só comecei a fazer canoagem com 17 anos, o que já é muito tarde. Nesse tempo, não havia conhecimento técnico para que pudesse continuar como atleta. Não fazia muito sentido e, por isso, é que mais tarde deixei de ser atleta de competição e canalizei essa minha vontade de vencer para aquela que é hoje a minha profissão.

Como aprendeu a fazer caiaques?

A Direção-Geral dos Desportos tinha um projeto que era a autoconstrução. A ideia era serem as próprias escolas a fazer os seus caiaques. Usava-se poliéster e fibra de vidro, era um fabrico muito simples. Foi assim que tive o primeiro contacto com a construção. Eu e os meus colegas fizemos os primeiros caiaques para servir a escola, para a fase de iniciação. Mais tarde fizemos alguns caiaques para rentabilizar a secção do clube. Depois, para tentar servir um pouco o mercado nacional, que era emergente, já era necessária uma base mais profissional, sem tanta carolice, e eu aproveitei a oportunidade para formar uma empresa com objetivos mais claros e que passavam por construir barcos de alta competição. Para a modalidade crescer eram precisos barcos e os que vinham do estrangeiro tinham preços que não eram compatíveis com os bolsos dos portugueses. Se alguém os fizesse em Portugal poderia fazer crescer a modalidade no país. Aí acho que também dei uma grande ajuda.

Onde é que começou o seu negócio?

Foi em Vila do Conde, em espaços pequenos, com dois ou três colaboradores. Como o trajeto da minha vida, fui um pouco saltimbanco porque foi necessário mudar várias vezes de espaço à medida que íamos crescendo. Mesmo este novo projeto [um investimento de dez milhões de euros, em Vila do Conde, numa nova unidade com 16 mil metros quadrados, três vezes mais do que a área atual] será, pensamos nós, para dez anos. Temos de ir adequando o espaço à qualidade do produto e às necessidades da nossa capacidade produtiva.

O facto de praticar a modalidade deu--lhe as pistas de que precisava para produzir melhores barcos?

Ninguém pode desenvolver material de competição se não tiver testado, vivido, conhecido a vida de atleta. Acho impossível que alguém consiga criar um produto para servir uma determinada modalidade sem a conhecer profundamente. Todo o material desportivo está muito agarrado àquilo que são as necessidades do atleta. Temos de aliar esse conhecimento prático a um acompanhamento permanente das necessidades dos atletas.

Continua a praticar canoagem?

Sim, quase todos os dias. No mar.

A canoagem de competição é um desporto bastante exigente. Os longos estágios, os treinos no inverno, o intenso trabalho de ginásio, requerem uma boa dose de disciplina para alcançar o sucesso. Enquanto antigo praticante de competição, acha que parte dessa disciplina o ajudou a vingar no mundo dos negócios?

Não sei. Fiz canoagem praticamente sozinho. Não treinei como eles fazem agora, com tanta intensidade. Sou é uma pessoa determinada.

Em 1996, nos Jogos de Atlanta, ganha a primeira das 93 medalhas olímpicas [uma em Atlanta 1996, cinco em Sydney 2000, 14 em Atenas 2004, 20 em Pequim 2008, 26 em Londres 2012 e 27 no Rio 2016] conquistadas por atletas a competirem em barcos Nelo.

Em Atlanta, os atletas russos que ganharam essa medalha fizeram-no num barco nosso, mas cujo desenho era de um americano. Só a partir de Sydney é que começámos a ganhar medalhas com um projeto inteiramente Nelo.

Mas, ainda assim, tendo em conta o papel que teve nesse barco, considera a medalha de Atlanta como a primeira.

Sem dúvida. Foi a nossa primeira participação e logo a ganhar uma medalha.

Destas 93 medalhas, uma é portuguesa. Foi a conquistada por Emanuel Silva e Fernando Pimenta em Londres 2012. Onde estava e que memórias guarda desse dia?

Guardo memórias fantásticas. Nos Jogos de Londres tive a facilidade de poder seguir as provas ao lado dos barcos numa bicicleta. Fiz muitos quilómetros para ver as provas todas. Foi uma experiência memorável. À prova em questão assisti na bancada. Naturalmente, senti um orgulho imenso por ver aquela medalha ser conquistada por portugueses. Ando há muitos anos a lutar por fazer ver a todos os portugueses que somos iguais aos outros e que quem faz um bom trabalho pode ganhar. A Nelo é um exemplo disso. Portugal tem todas as condições para não se ficar apenas por uma medalha. Há o exemplo de outros países, como é o caso da Hungria, que tem aproximadamente a mesma dimensão territorial que nós e o mesmo número de habitantes, tendo sido durante muitos anos líderes da canoagem. Portugal tem todas as condições para que isso aconteça. Precisamos é de ser objetivos e pragmáticos.

No Rio 2016, quatro em cada cinco atletas utilizaram barcos Nelo. Retirando desta equação os portugueses, por uma questão de afinidade, torce por todos da mesma maneira ou tem preferências em função das relações pessoais que foi estabelecendo ao longo da vida?

Nos Jogos Olímpicos, por ser uma janela de promoção da marca, a minha grande preocupação são os nossos resultados. Isso está acima de tudo. Naturalmente, eu assumo que a equipa portuguesa é a única que pode ter a minha preferência. De resto, não. Posso ter alguma relação com um ou outro atleta, mas isso não altera a forma como olho para os resultados.

É frequente os atletas pedirem-lhe para partilhar pequenos segredos sobre os rivais que também são equipados pela sua empresa?

Uma coisa que a minha equipa consegue fazer muito bem é trabalhar com os cem melhores atletas do mundo e fazer que eles percebam que têm o melhor de nós sem ser em detrimento de outros. Essa gestão é difícil de executar. Somos muitos honestos na relação que temos com os atletas. Seria até natural que algum o tentasse fazer, mas as coisas são tão claras e eles têm tanta confiança em nós que isso nunca acontece. Sentem que fazemos o melhor por eles e que não escondemos nada a ninguém.

Que obrigações tem como fornecedor oficial dos Jogos Olímpicos?

Concorremos aos Jogos de 2004, conseguimos ter sucesso e desde aí nunca deixámos de ser. A nossa experiência vem do trabalho que já fazíamos em outras provas como Mundiais e Taças do Mundo. Está lá uma equipa em permanência que assegura a todos os atletas o apoio que precisem com os barcos, de forma gratuita. Quando concorremos aos Jogos já estávamos preparados para isso. Hoje outros grandes fabricantes já fazem esse trabalho, mas por arrasto. Nos Jogos temos a missão de ajudar toda a gente, mesmo atletas que não disputem as provas com barcos Nelo.

Quem é o seu público-alvo?

Temos todo o tipo de clientes e está em curso um projeto para quem quer utilizar barcos de forma não competitiva. Mas como não podemos chegar a tudo trabalhamos mais com o topo da pirâmide. O nosso gozo, o nosso interesse, é trabalhar para a alta competição.

Quanto custa um barco de competição produzido na Nelo?

O preço pode ir dos 1500 aos 3500 euros. Mas mesmo o mais barato não é fraco, porque não nos interessa ter barcos de baixa qualidade. Os barcos são muito parecidos. A diferença de preço está no equipamento, se é mais ou menos completo.

Quantas pessoas emprega?

São 110.

A passagem para as novas instalações implica mais contratações?

Sim. Já estamos a formar pessoas nesse sentido. A ideia é numa primeira fase termos 150 e, depois, subir para 200.

O remo vai ser a sua nova aposta?

Nós já fizemos barcos de remo, há muitos anos, mas entretanto parámos a produção por falta de espaço. O remo é um desporto onde queremos chegar, mas só conseguimos desenvolver se tivermos espaço para isso. A ideia desta fábrica é também nesse sentido.

Ainda no início da carreira travou a expansão da Nelo para Espanha por ter lá um amigo a operar na mesma área e achar que não seria ético fazer-lhe concorrência. Ainda hoje são amigos?

Sim. Curiosamente, ele já não faz canoas.

A ética já lhe fez perder negócios?

Não.

O atual mundo dos negócios é compatível com essa ética profissional?

É. O nosso sucesso é exemplo disso. Uma pessoa só perde a sua ética quando quer facilitismos. Ao procurarmos atingir o que é mais difícil acabamos por conseguir um élan e um conhecimento que não teríamos se a escolha fosse seguir o caminho mais fácil. Por vezes tomam--se atitudes menos corretas por se querer ter a vida mais fácil. Nunca me arrependi do que fiz. Simplesmente, não conseguia ir para o mercado espanhol porque tinha lá um amigo e não fazia sentido fazer-lhe concorrência. Em vez disso, fui para Inglaterra porque foi onde nasceu a canoagem moderna e porque pensei que esse seria o país que me colocava o desafio mais difícil. Queria trabalhar para um mercado exigente.

Em 2012, 99% do que produzia era exportado. Hoje, com o crescimento da modalidade em Portugal, as vendas no próprio país já são uma fatia mais representativa do seu negócio?

A nossa capacidade produtiva aumenta todos os anos. E a fatia em relação a Portugal foi diminuindo. O mercado nacional não cresce assim muito.

Utiliza bastantes vezes a palavra nós e não eu quando se refere à empresa. Há um espírito de empresa familiar na Nelo?

Isto não é uma empresa familiar. O que tenho é uma equipa dedicada, funcional e competente. Mas há uma coisa engraçada: embora seja o dono da empresa eu falo sempre em nós, mas há gente que trabalha comigo que diz sempre minha... minha empresa. Isso é muito gratificante.

Agora que está no topo, como é que se pode ambicionar mais?

Nós achamos que ainda há muito por fazer nos barcos. Às vezes questiono-me se somos nós que somos melhores do que os outros ou se são eles que são muito piores. Nós somos melhores, muito mais completos, mas ainda há muita coisa a fazer e isso é que me deixa tranquilo. Nós hoje sabemos que há tanta coisa para fazer que não temos sequer tempo para as concretizar. Temos muitas ideias, mas para algumas delas faltam tempo e pessoas. Estamos também cheios de gás para esta nova aposta no remo.

É possível um dia construir o caiaque perfeito?

Não, existirá sempre algo que podemos aperfeiçoar. Embora o último modelo que levávamos aos Jogos do Rio fosse quase perfeito.

Uma das suas paixões é viajar. Que zona do globo é que lhe falta conhecer e, por outro lado, qual é aquela a que nunca se cansa de regressar?

O continente que eu menos conheço é a América do Sul. Gosto de viajar e, por isso, estar em Nova Iorque, no Burkina Faso ou no deserto do Namibe, tudo é interessante. Tenho alguma predileção por África. Ao contrário do que as pessoas julgam, África não é perigosa. Eu faço viagens mais profundas, de peito aberto. Tenho de voltar a viajar mais. Nos últimos três anos tem sido mais difícil.

Quão profundas podem ser essas viagens?

Bastante. A última foi na região dos Grandes Lagos, tendo passado por Burundi, Congo, Etiópia... Tudo sem nenhum luxo, por estradas que nem sequer vêm no mapa.

É uma aventura para quanto tempo?

Umas três semanas.

Depois da crise que forçou o país a pedir assistência financeira, começam a aparecer cada vez mais sinais de retoma económica. Um deles tem que ver com o regresso do investimento empresarial. Também sente essa confiança a regressar à economia?

Sinto uma maior dinâmica. Estas crises, por vezes, são boas para fazer perceber que temos de estar sempre atentos. A nós, a crise passou um pouco ao lado porque nos preparámos para ela. Um dos nossos melhores anos de crescimento foi precisamente 2012. Alguns dos nossos agentes internacionais sentiram algum recuo, mas como nunca tivemos a capacidade para chegar a tudo aquilo que os nossos agentes queriam isso acabou por não nos afetar. Mas sim, sinto que Portugal está a voltar a crescer.

Hoje ainda consegue fazer nascer um caiaque de fio a pavio?

Sim, sim. Perfeitamente. Eu sempre fiz tudo. A minha função aqui na empresa é desenvolver modelos e a parte técnica. Portanto, também estou na fábrica. É na zona de produção que passo 80% do meu tempo. A pôr a mão na massa.

Leia a segunda parte da entrevista:

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