Já foram os oligarcas russos e os xeques árabes. Agora, cumprindo a "profecia" lançada há uns anos por Paulo Futre numa conferência de imprensa que ficou para a história, é a vez dos charters de milionários chineses chegarem em massa ao futebol europeu, que se tem tornado num negócio cada vez mais apetecível, pelas verbas que envolve - um estudo da Deloitte Global assinala que o mesmo pode gerar, só esta época, receitas no valor de 27 mil milhões de euros..Mesmo sem grande tradição na modalidade (apenas uma presença em Mundiais e um modesto 78º lugar no ranking FIFA, logo atrás de St. Kitts and Nevis...), o certo é que o investimento chinês quer a nível nacional quer no estrangeiro tem subido de ano para ano. A paixão do presidente Xi Jinping pelo futebol não só ajuda como ainda estimula os multimilionários locais - cujo número tem aumentado substancialmente nos últimos tempos (são atualmente 596 enquanto há dez anos eram 20, segundo o The Hurun Report) - a fazê-lo. E, claro, o facto de se tratar de uma economia em constante crescimento (sem o mesmo ritmo de há uns tempos atrás, ainda subiu 6,7% no último trimestre), no país mais populoso do mundo, também contribui para que existam fundos disponíveis para investir à grande... e à chinesa..Não espanta então que a Superliga local tenha sido a campeã dos gastos no último mercado de inverno, superando até a Premier League inglesa, com os clubes locais a gastarem cerca de 240 milhões de euros em contratações. Ou que as academias de clubes europeus ou de antigos jogadores (Luís Figo é um deles) se propaguem a grande velocidade pelo país, levando o know-how de quem se dedica há mais de um século à "causa". Afinal de contas, o grande objetivo é conseguir, num futuro não muito distante, que a China se transforme na próxima potência mundial da modalidade..Gigante adormecido."Creio que o forte investimento dos chineses no futebol está relacionado com a conjuntura económica favorável, como acontece noutras áreas da sociedade, nomeadamente na imobiliária e financeira, e é encarado por parte dos investidores como um negócio para a realização de mais-valias", adianta o português Tiago Capaz, que se encontra a trabalhar no país, na Winning League Figo Football Academy, em Chengdu..Para o técnico ribatejano, que passou pela Academia de Alcochete e acompanhou o nascimento de craques como João Mário, ainda faltam "dois ingredientes fundamentais" ao futebol local: "A paixão pelo jogo e um jogador de referência". "Na Europa falamos de futebol, vivemos futebol, discutimos futebol e todos os miúdos chutam uma bola e dizem que querem ser o Cristiano Ronaldo. Eles ainda estão a despertar mas quando conseguirem acordar o 'gigante adormecido' vão ser um caso sério", refere..Por essa razão, têm igualmente alterado algumas formas de olhar para o desporto no processo de formação de jovens jogadores. "Estão a organizar-se do ponto de vista dos quadros competitivos, das equipas e do desporto escolar. Existem muitos europeus a colaborar a vários níveis com o futebol na China e eles querem aprender. São rigorosos, disciplinados e seguem as diretrizes governamentais. A nível de infraestruturas são excelentes e tenho uma grande expectativa em relação do futuro do futebol chinês", finaliza Tiago Capaz..O alvo desejado.Enquanto esse dia não chega, a Europa vai servindo para o país ir entrando no "mapa" futebolístico internacional. Desde 2015, milionários chineses já investiram perto de dois mil milhões de euros no futebol europeu, comprando clubes ou participações nas sociedades que os gerem (ver infografia). Inglaterra é, naturalmente, pelas receitas que gera e pela histórica abertura a investidores estrangeiros (apenas sete dos 20 clubes da Premier League estão em mãos britânicas), o grande alvo, mas não tem sido fácil a entrada nesse mercado - a primeira experiência envolvendo cidadãos chineses, com o Birmingham, foi um desastre..Nesta altura, só há um clube do principal escalão do país em mãos chinesas. Trata-se do West Bromwich Albion, adquirido no último mês pelo empresário Guochuan Lai, mas a compra de 13% do Manchester City pela empresa estatal China Media Capital Holdings (adquiridos pouco depois de o presidente chinês ter visitado as instalações do clube mancuniano) mostra que a situação é para mudar. Liverpool e Hull City estão debaixo de olho e no segundo escalão também já há clubes nas mãos de grupos ou empresários do gigante asiático - o Wolves, por exemplo, foi comprado pela Fosun International, que detém parte da Gestifute de Jorge Mendes. E, pelo resto do Velho Continente, não faltam clubes, incluindo históricos (como Inter ou Atlético Madrid), que abriram as suas portas ao dinheiro vindo da Ásia.