"O meu filho queria jogar comigo, vamos ver se é possível"

Está a menos de um mês de completar 46 anos mas não se cansa de ganhar. Há duas semanas, a Taça de Portugal, alcançada ao serviço do Sp. Espinho, foi o seu 32.º título em pavilhão e nesta lista não estão incluídos os êxitos em vólei de praia

A vitória na Taça de Portugal de voleibol, que alcançou há duas semanas, ao serviço do Sporting de Espinho, foi o seu 32.º título enquanto jogador profissional em pavilhão. Qual o segredo para ainda estar em forma a um mês de completar 46 anos?

Sempre me cuidei muito, dando muita atenção à alimentação e ao descanso, e provavelmente estou a retirar os dividendos desse meu comportamento. Por outro lado, tenho sido um felizardo porque as lesões graves não têm aparecido.

Sente que tem as mesmas condições físicas que os seus colegas 20 ou 25 anos mais novos?

Sinto que hoje em dia o tempo de recuperação entre os jogos e os treinos é muito mais demorado. Convivo bem com isso, consegui adaptar-me a essa situação. Mas sem dúvida que a minha grande vantagem é a experiência e o palmarés que tenho atrás de mim, que me permite gerir o jogo e o treino da melhor forma.

E parece que ainda não se cansou de ganhar...

É importante que o trabalho realizado se reflita em títulos, sabendo que tenho de contar com a qualidade da equipa em que estou inserido e com a qualidade dos nossos adversários. A Taça de Portugal foi um título muito importante para o Sporting de Espinho e agora estamos concentrados no campeonato, com o Castêlo da Maia a ser o nosso difícil adversário nas meias-finais.

Torna-se ainda mais especial pelo facto de grande parte dos seus sucessos terem sido alcançados ao serviço do Sporting de Espinho, a cidade onde nasceu e cresceu?

Sem dúvida alguma. A equipa tem uma grande empatia com os adeptos e Espinho é uma cidade que respira voleibol. Felizmente temos muita gente que vai atrás de nós, transmitindo-nos um grande apoio. Comparando com os nossos adversários, temos a felicidade de contar com esta força extraordinária vinda das bancadas.

Há algum título mais especial entre os 32 que conquistou?

Não posso destacar nenhum, seria até injusto, pois todos surgiram na sequência de muito esforço e dedicação. Mas lembro-me por exemplo da conquista da TOP Teams Cup pelo Sporting de Espinho, única competição europeia ganha por um clube português na modalidade, ou o primeiro campeonato no Sporting, depois do regresso da modalidade ao clube, ou, claro, o meu primeiro título de campeão na Académica de Espinho, com apenas 17 anos.

Ainda tem recordações nítidas desse título na Académica de Espinho?

Perfeitamente! Vínhamos da II Divisão e éramos uma equipa muito jovem, que conseguiu contrariar o poderio de cinco candidatos ao título. Fomos conquistando vitórias atrás de vitórias e até os adeptos do clube rival da cidade, o Sporting de Espinho, se renderam e começaram a apoiar-nos.

O que lhe falta ainda alcançar?

O meu filho Guilherme gostava de jogar comigo, vamos ver se será possível (risos). Ele tem 14 anos e joga na Académica de Espinho.

Acha que ele pode atingir o seu nível?

Com trabalho e dedicação tudo é possível, mas tento incutir-lhe que o mais importante é estudar. Costumo assistir aos jogos dele ao vivo e ele confronta--me frequentemente com questões práticas sobre a modalidade, muitas vezes vê vídeos de situações de jogo e faz-me perguntas. Eu tento mostrar-lhe como fazer as coisas bem.

Curiosamente só jogou durante um ano no estrangeiro, mais precisamente nos italianos do Reima Crema, em 2004/05. Por não ter espírito de emigrante ou por qualquer outra razão?

O problema, entre aspas, foi o voleibol de praia, durante 20 anos corri o mundo durante quatro meses e isso impossibilitava representar clubes estrangeiros. Também estive envolvido em três projetos olímpicos, tendo conseguido estar presente em duas meias-finais... Mas tive muitos convites de clubes estrangeiros.

Ficou algum amargo de boca por ter estado à beira de duas medalhas olímpicas em voleibol de praia, ao alcançar dois quartos lugares, em dupla com João Brenha?

Teria sido a cereja no topo do bolo, mas não aconteceu, pois as vitórias e as derrotas fazem parte do desporto. Mas fiquei muito orgulhoso das minhas prestações.

Representou o Sporting num dos períodos áureos do clube na modalidade, no início e meados da década de 1990. Sente pena que o Sporting não tenha voleibol atualmente?

Como apreciador da modalidade e adepto do Sporting é com muita pena que vejo essa situação.

Tem tido contactos com responsáveis do clube a respeito do regresso da modalidade?

Temos mantido algumas conversas, mas não existe nada de concreto. Sei que existe o desejo de fazer regressar o voleibol, até porque essa é uma promessa da atual direção, mas não quer dizer que esse regresso aconteça comigo.

Está nos seus planos candidatar-se à liderança da Federação Portuguesa de Voleibol?

Estou disponível e sinto-me apto para abraçar qualquer cargo de relevo no voleibol, mas não quero decidir já. Tenho o nível 1, 2 e 3 de treinador e tenho uma Academia com o João Brenha, que já vai no sexto ano de existência e que durante uma semana movimenta 3000 jovens num torneio.

Os jovens de hoje em dia demonstram muito interesse pela modalidade ou já se viveram melhores dias?

No meu tempo tínhamos uma dedicação muito maior. Jogávamos na rua, acabava o treino e continuávamos a praticar... Hoje em dia os miúdos estão sempre agarrados aos telemóveis e deixam o voleibol um pouco para segundo plano.

Uma derradeira pergunta. Até quando pretende jogar?

Ainda não pensei nisso. Comecei a jogar na Académica de Espinho com 6 anos, pois o meu pai era lá diretor. Comecei por gosto pelo voleibol e não por gosto pela vitória e assim continuarei até ao fim. Vou estando por aqui enquanto me deixarem e enquanto sentir prazer em jogar.

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