CR7 e Messi ganham milhões à custa de quem recebe 570 euros?

Lei Bosman. Faz 20 anos que o belga originou a maior revolução do futebol e ajudou a fazer dos jogadores estrelas milionárias: "Se Cristiano e Messi ganham o que ganham é graças a mim"
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Um dia um jogador de um modesto clube belga resolveu bater de frente com o mundo do futebol. Sentou a UEFA no banco dos réus e obrigou a FIFA a mudar as leis de transferências de jogadores, transformando a modalidade no que hoje conhecemos como futebol moderno. Aconteceu há 20 anos e foi proeza de Jean-Marc Bosman.

Hoje, podem nem se lembrar que clube representou, equipamento vestiu ou em que posição jogava, mas todos os jogadores, desde 1995, ano em que foi promulgada a Lei Bosman, lhe devem um "obrigado". Até então o clube tinha direito sobre o passe dos jogadores mesmo depois de o contrato terminar, os comunitários eram considerados estrangeiros e os atletas não tinham cláusulas de rescisão, ficando assim à mercê dos interesses dos clubes.

Agora, cada atleta a seis meses do fim do contrato pode assinar com outra equipa, sem que lhe seja exigido qualquer compensação financeira. "Dei trabalho a milhares de pessoas e a mim ninguém me ajudou", confessou Bosman ao site da FIFPro (onde vai trabalhar), amargurado: "Não me arrependo de nada, mudámos a história do futebol e impedimos que os jogadores fossem tratados como gado."

Travou uma luta que transformou o futebol numa indústria produtora de estrelas globais capazes de discutir fama e salários à escala da NBA e de Hollywood. "Se Cristiano e Messi ganham o que ganham é graças a mim", disse ontem Bosman, sustentando a ideia: "Ambos podem jogar com os melhores futebolistas e assim conseguem mais títulos e mais dinheiro. Dá para ver que quando jogam pelas suas seleções, não é fácil ganharem."

Aos 51 anos, Jean-Marc sobrevive amaldiçoado e à custa de 570 euros por mês, valor do subsídio de reintegração social na Bélgica, segundo revelou na entrevista.

Mas vamos ao caso

Insatisfeito com o corte do salário no RFC Liège - clube onde jogava e que lhe propôs renovar a ganhar quatro vezes menos -, Bosman assinou pelos franceses do Dunkerque (na II Divisão francesa, na altura). O belga julgava ser um jogador livre, mas o clube pediu 650 mil euros para o libertar e os franceses desistiram de o contratar.

Bosman não se conformou e moveu uma ação judicial contra o clube a 8 de agosto de 1990. E viu um tribunal de primeira instância dar-lhe razão. Era apenas a primeira de muitas batalhas até ganhar a guerra em 1995. Mas, entretanto, assinou pelo Saint-Quentin (França) e voltou a jogar, até o Liège interpor recurso e ele ficar suspenso até o Supremo Tribunal de Justiça da Bélgica apreciar o caso.

Nessa altura a federação belga e mais tarde a própria UEFA, com o apoio da FIFA, juntam-se ao clube na luta judicial, tentando impedir "o terramoto" que, defendiam, "iria acabar com o futebol". Sozinho frente às potências desportivas, em junho de 1995, o caso chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia, com os advogados de Bosman a tentarem provar que os contratos desportivos eram uma restrição à livre circulação de trabalhadores e flagrante violação do Tratado Europeu. E a 15 de dezembro desse mesmo ano o tribunal deu-lhes razão e a decisão fez jurisprudência.

A Itália já se tinha antecipado ao promulgar a Emenda Speroni e permitindo a livre contratação de comunitários e a Inglaterra decidiu acatar a ordem no início de 1996. Mas a UEFA ainda bateu o pé, até que a 11 de janeiro a Comissão Europeia confirmou que a decisão do Tribunal Europeu devia ser aplicada nos países membros e deu seis meses à UEFA para o fazer. Isto enquanto a FIFA ameaçava excluir os europeus, antes de aceitar a vitória de Bosman, que já tinha 31 anos e a carreira acabada!

Nem tudo foi bom...

Em 2011, após um jogo do Benfica sem portugueses ,Toni, ex-treinador do clube, atribuiu as culpas à Lei Bosman: "Na Inglaterra, onde nasceu o futebol, às vezes vemos lá um inglês no Arsenal, no Chelsea às vezes vemos lá um inglês. Por isso não me causa estranheza nenhuma o Benfica entrar em campo só com estrangeiros."

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