"Uma canção é a solução para tudo"

The Tallest Man on Earth está este sábado, 6 de fevereiro, em Lisboa para apresentar o mais recente álbum, "Dark Bird Is Home". A Aula Magna vai vê-lo com uma banda mas Kristian Mattson vai ser sempre um solitário

Onde está neste momento?

No Luxemburgo, para um concerto.

E que tal a digressão?

Uma maravilha. A banda e a equipa vieram da América e fizemos alguns ensaios na minha casa, na Suécia. Fica no meio do nada. Foi divertido. Depois entrámos no autocarro e ainda não parámos. Eles gostaram muito daqueles dias em minha casa. São quase todos do Midwest, do Wisconsin, que em muitas coisas é parecido com a Suécia.

Eram todos já conhecidos?

Um deles tocou no disco mas no ano passado tocámos uns 80 concertos, talvez. Mas vivemos no autocarro, sem muito espaço privado, mas fazemos isto há muito tempo, mesmo que em situações diferentes. Já não somos assim tão novos. Somos profissionais e temos de fazer que as coisas funcionem sempre. Volta e meia estamos mais cansados mas nesta vida aprendemos quando é a altura certa de deixar alguém sozinho. Vai tudo da experiência.

Visto de fora a vida na estrada é sempre uma curiosidade.

Claro, é normal, é um estilo de vida especial e pode ser difícil. Quando estamos num concerto, os que estão em palco dão tudo e perdem a cabeça, pelo menos durante aquele momento. Mas depois vocês todos vão para casa, nós vamos tentar descansar para fazer tudo outra vez no dia seguinte. Dou concertos há quase dez anos e quando assim é aprendemos o que devemos ou não fazer.

Por exemplo?

Coisas meio banais. Tento manter-me em forma, por exemplo. À medida que as bandas crescem e envelhecem os excessos vão acalmando porque há coisas que vamos deixando de conseguir fazer, se queremos dar bons concertos todos os dias.

E quanto ao que acontece no palco, isso também não cansa? Não é preciso encontrar motivação para isso também quando a coisa se transforma em rotina?

Em parte é um mistério, esta energia contínua. E se acontece um sentimento de emprego normal numa vida que nos leva constantemente para fora de casa, é porque algo não está bem. Por vezes, por exemplo, tenho de deixar algumas canções descansar porque deixam de ter lugar no alinhamento. Mas é o estar em frente a pessoas que não conhecemos. Não é só tocar o instrumento e cantar as letras. Perco-me na paixão do que está a acontecer e é isso. Posso não ser bom em muitas outras coisas na minha vida mas com a música bate tudo certo e isso resolve qualquer problema.

Mas assim sendo podia ficar só em casa a escrever e a gravar canções.

Não. Daria em doido se fizesse só isso. Preciso do equilíbrio entre as duas coisas. As digressões cansam muito mas se passo muito tempo em casa as coisas podem correr mal. Apesar de ser um tipo introvertido. Vivo numa aldeia pequena e isolada, posso tocar o que quiser que ninguém me ouve. Às vezes tenho de me lembrar a mim mesmo de ir dormir. Mas isso tem um prazo de validade.

E isso não será porque vive num sítio isolado, como diz? Sozinho?

Não me parece. Vivi em Nova Iorque durante um ano, talvez, e foi incrível. Mas talvez porque tive o luxo de alugar um apartamento, ficar ali a tocar, ver as pessoas na rua. Mas sabia que ia voltar para casa. Em Nova Iorque há sempre barulho mas tinha do outro lado o oposto. Tenho a sorte de andar entre os extremos.

Sim, mas sempre com a música. Se fizesse qualquer outra coisa, o que seria?

Em tempos quis ser chef. Temos alguns muito bons na Suécia. Mas se fosse agora acho que faria algo que me levasse para o meio da natureza. Talvez um guia para excursões de pesca, porque não?

Há pouco falava de estar na estrada com mais pessoas e de como isso é novo. Como é que aconteceu?

As canções levaram-me a tomar essa decisão. Sentia que muitas delas precisavam de algo mais e fui à procura de quem o pudesse fazer. Sobretudo para os concertos, porque no disco toco a maior parte dos instrumentos. E em palco esta coisa nova de andar com uma banda fez que os momentos em que toco sozinho se tornassem mais intensos. Bom, pelo menos para mim, espero que para os outros também. Lembro-me de estar sozinho em palco em espaços muito grandes e a dar por mim a fazer muito barulho, como se às vezes fosse preciso preencher o espaço vazio. Agora o melhor de tudo está nos contrastes. Há mais drama e isso é ótimo.

O álbum tem um aspeto curioso. A última canção é a que dá título ao álbum e isso não é muito habitual.

Não é, mas é a canção mais importante do álbum e queria que ficasse em último porque depois dessa não teria nunca mais nada a dizer. A não ser que seja a falar.

E costuma falar com as pessoas que o vão ver?

Sim. E prefiro isso a responder a e-mails ou outras coisas do género. Não tenho muito jeito para falar mas prefiro isso a ter qualquer tipo de relação à distância. Ou então resolvo a questão de outra maneira. Tenho um grupo de fãs que é bastante hardcore e a esses já lhes disse que eles têm direito a uma espécie de bilhetes dourados, já compraram tantos que têm direito a ver todos os concertos que quiserem.

Mas esse cara a cara com quem o ouviu a cantar coisas tão pessoais, como faz, não é difícil?

É difícil mas não é por essa razão. É porque normalmente estou tão cansado que me custa a pensar seja no que for.

Já agora, por falar em canções pessoais, Sagres, é uma delas?

É, estive em Sagres há uns anos e foi um ponto de viragem na minha vida. Estava com a minha então mulher, num retiro de ioga, e decidimos nessa terra que o melhor era cada um seguir o seu caminho. E a canção é sobre isso. Parece dramático mas não é assim tanto. Uma canção é a solução para tudo.

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub