Uma artista estudiosa procura o mundo atrás de cada palavra

Uma voz recita o diário de Colombo nesta obra de Ana Torfs

O Centro de Arte Moderna mostra quatro instalações da artista belga Ana Torfs até 13 de junho. Linguagem é o tema central.

"Vão ver que esta exposição, embora não tivesse sido pensada para o ser, tem muitos pontos em comum com Portugal", resume Penelope Curtis, a sucessora de Isabel Carlos à frente do Centro de Arte Moderna (CAM), sobre a exposição da belga Ana Torfs, que hoje inaugura ao público.

Justifica-se trazer Isabel Carlos à conversa, pois foi dela a ideia de trazer para o CAM quatro das mais recentes instalações da artista, sob o título de Echolalia, palavra invulgar que designa a repetição automática de palavras e sons. "A linguagem é o mundo atrás das palavras", diz a artista, que expõe pela primeira vez em Portugal.

A curadora, Caroline Dumalin, diz que esta é uma exposição sobre a qual se faz zoom in ou zoom out como nas câmaras fotográficas., como na obra de 2013 que abre a mostra no piso 1 do CAM: seis tapeçarias jacquard com mais de três metros de altura a que corresponde uma palavra, invertida -- tabaco, açúcar, gengibre, chocolate, café, açafrão - que se espalhou nos Descobrimentos, "tão depressa que não houve tempo para criar outras".

A ideia partiu de um livro, As Viagens de Gulliver, e da descrição de uma máquina que criava frases a partir de palavras aleatórias. "Um computador primitivo", descrevem a artista e a curadora.

Family Plot (2009), a segunda obra em exposição, parte de um hobby da artista - jardinar. "Há 20 anos quis fazer um jardim urbano e aprendi os nomes em Latim", conta. Durante mais de dois anos pesquisou mapas e documentos em arquivos de todo o mundo (o difícil é saber que lá está), e uniu a Suécia do cientista Carlos Lineu a Portugal e a Angola, através de um austríaco: Friedrich Welwitch, médico, foi enviado para Angola pelo governo português para estudar a flora da então colónia, onde encontrou, e batizou, a planta Welwitschia Mirabilis.

A mais recente instalação de Ana Torfs, de 2014, é um jogo de línguas: a gestual (que muda de país para país) e aquela que usou Colombo para comunicar com os indígenas quando chegou à Índia que era na verdade a América. Painéis de imagens verdes, quais sombras chinesas, exibem imagens de flores verdejante, a que Cristóvão Colombo descreve, ao mesmo tempo que se ouve o que escreveu no seu diário de bordo. Torfs leu uma tradução da transcrição do texto original, e fixou as duas palavras mais usadas: ouro e sinais. O que procurava e a forma como comunicava. E nota: "Ele diz que eles devem ser servis pela forma como repetem o que ele diz".

Quarta e última forma de linguagem: as cores. Molduras guardam penas de ganso tingidas das muitas cores sintéticas que apareceram, por acaso, no século XIX. Evocam os livros de amostras antigos de apresentam das cores e, apesar do colorido, revelam uma história negra. As tinturarias que se tornaram multinacionais no século XX e financiaram a II Guerra Mundial. Uma voz, robótica, guia os visitantes: "Tartrazina.. usada em pudins, natas, marmelada, mostarda, iogurte..." É um tom de amarelo.

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