Tónan Quito: o prazer de juntar amigos para fazer um espetáculo

Tónan Quito no Nacional a poucos dias de subir ao palco em Ricardo III

Eleito pela SPA como o melhor espetáculo de 2015, Ricardo III regressa nesta semana ao palco do D. Maria II, em Lisboa. Pretexto para conhecer melhor o ator e encenador

Se, no meio da rua, ouvir chamar "António", nunca irá virar a cabeça a achar que é com ele. Se ouvir "António Fernando", é capaz de pensar que já fez asneira, pois era assim que a mãe lhe falava quando queria ralhar. Ele é Tónan e sempre foi Tónan, desde pequeno. A primeira vez que viu o nome impresso num cartaz achou que parecia o nome de artista de circo, mas nessa altura já era demasiado tarde. Ficou assim: Tónan Quito.

Por estes dias, Tónan tem pouco tempo livre. Ainda no início do outubro era um dos atores em O Pato Selvagem, de Ibsen, numa encenação de Tiago Guedes, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. No fim de semana passado, esteve em Guimarães com a digressão de O Inimigo do Povo, de Ibsen, como ator e encenador. Amanhã, volta ao D. Maria II com Ricardo III, de Shakespeare - reposição daquele que foi eleito pela SPA - Sociedade Portuguesa de Autores como o melhor espetáculo de teatro de 2015 e do qual também é ator e encenador. E, entretanto, passa as manhãs nos ensaios de Sonho de Uma Noite de Verão, com a Companhia Maior, que vai estrear-se no Centro Cultural de Belém no início de dezembro.

Parece que ele está em todo o lado, como é que consegue? Tónan ri-se. Vendo-o em ensaios ou no palco, também parece que ele se diverte imenso a fazer aquilo que faz, e esse é bem capaz de ser o segredo do sucesso.

Descobrir o teatro aos 14 anos

Voltemos atrás. Tónan Quito cresceu em Carnaxide, numa família de músicos. "Vi muita ópera e muito bailado, o jardim-de-infância foi na plateia do São Carlos, onde o meu pai trabalhava." Mas não terá sido aí que começou o sonho. No 9.º ano, teve a sorte de na sua escola, além das disciplinas habituais como a Economia ou Saúde, haver também a opção de Teatro. O professor era António Fonseca, que, no final do ano letivo, teve a ideia de criar um grupo de teatro na escola. O grupo chamou-se 4.º Período - o do Prazer. António Fonseca encenava, mas tudo o resto era feito pelos alunos. A primeira peça que estrearam foi Romeu e Julieta.

"Não percebi muito bem quando é que decidi ser ator", diz Tónan Quito. "Gostava de estar num grupo e de montar um espetáculo. Fazíamos a tradução do texto durante o verão, organizávamo-nos em grupos, de produção, de cenários, de figurinos. E tínhamos de fazer tudo. Era muito divertido estar envolvido na preparação do espetáculo com um grupo de pessoas que são minhas amigas ainda hoje. Era uma maneira de estar na vida que me interessava."

Foi através desse grupo que chegou ao Teatro da Cornucópia para participar em O Triunfo do Inverno, de Gil Vicente, com encenação de Luís Miguel Cintra. Voltou lá para O Dia de Marte e depois Os Sete Infantes. Nessa altura, já estava a fazer as provas para entrar no Conservatório e as coisas começaram a tornar-se sérias.

A história é demasiado longa para ser contada com todos os pormenores, afinal Tónan Quito tem já 40 anos e anda há mais de 20 nestas andanças. Registe-se o encontro com Lúcia Sigalho para o espetáculo Dedicatórias, em 2000. "Para mim era tudo muito novo, estava ainda muito agarrado ao texto. Ainda hoje guardo coisas muito profundas da maneira de ela trabalhar e daquela maneira de se ser livre a trabalhar os materiais, de uma grande generosidade e de uma grande impulsividade."

Registe-se a criação de uma estrutura de criação teatral, a Truta, com amigos como Joaquim Horta, Rúben Tiago, Paula Diogo e outros. Havia a vontade de trilhar um caminho. De escolher os projetos em que se quer trabalhar. E, naturalmente, também encenar: "Eu tinha 30 anos e queria fazer o Ivanov, de Tchékhov, que é um autor de que gosto muito. Foi juntar umas pessoas para fazer um espetáculo." Como acontecia antes, como acontece ainda hoje.

Os mesmos de sempre

Nessa primeira encenação já tinha o professor, António Fonseca no palco, já tinha Fernando Ribeiro nos cenários, Daniel Worm d"Assunção na iluminação. Tal e qual como agora, em Ricardo III. "Normalmente não escolho atores, escolho pessoas. Pessoas com quem me apetece passar três meses a trabalhar. Gosto de ser confrontado, de estar com pessoas diversas, que me questionem e me mostrem que estou errado. Para se ser bom ator tem de se trabalhar muito, ler muito, ser uma alma generosa. Ter boa voz ou bom corpo não interessa nada."

No ano passado, Tónan Quito fundou a HomemBala, com Patrícia Costa, para pôr de pé projetos como este Ricardo III ou, no próximo ano, a peça Fé, Esperança e Caridade de Ödön von Horváth. Entretanto, podemos vê-lo em dezembro na reposição de Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, no D. Maria II. Entre o prazer de ser ator e o de montar um espetáculo fica difícil decidir. Por isso, sempre que possível, Tónan junta as duas coisas. "Construo sempre de dentro - custa um bocadinho mais mas dá muito mais gozo, e o facto de estar perto dos atores torna tudo mais simples", diz. "É muito aborrecido estar de fora, encenar um espetáculo e não estar lá em cima, a divertir-me com eles."

E se os aplausos e os prémios são importantes, para ele as coisas continuam a ser tão simples como quando tinha 14 anos e fazia teatro na escola: "Emociono-me com os ensaios, apaixono-me pelas pessoas. Eu gosto de fazer isto e gosto de trabalhar com estas pessoas e espero que vocês também gostem de ver." No fim de contas, é isto: "Ao fim da noite queres ir para casa a sentir-te bem, a sentir que fizeste um bom trabalho."

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