Chagas Freitas: "Quero retirar a carga de iluminado que têm os escritores"

Pedro Chagas Freitas já escreveu 150 obras

Pedro Chagas Freitas vendeu cem mil exemplares de Prometo falhar. Segue-se o próximo sucesso: Envelhenescer.

O nome Pedro Chagas Freitas é do mais eclipsado nas páginas de crítica literária da imprensa nacional. A razão é simples, o "produto" que faz não agrada aos críticos, os mesmos que também raramente leem Paulo Coelho, mesmo que o autor português não se sinta próximo do que escreve o brasileiro. Quando se lhe pergunta por parecenças, só responde que nunca o tinham comparado "ao nome que referiu" e recusa pronunciá-lo. Os únicos escritores que diz estarem colados à sua inspiração são os grandes nomes da nossa literatura: Saramago, Herberto Helder, Lobo Antunes...

Pedro Chagas Freitas não evita perguntas mesmo que se note que aprecia contorná-las de forma educada quando não o interessa. Fala--se do negativismo da crítica e isso não o importa. Só ao referir-se o lugar futuro na literatura é que surge o único momento em que desblinda as respostas, e salta-lhe um "estou-me nas tintas para isso". O certo é que é dos poucos autores nacionais que vende muitos exemplares das suas "obras" - é sempre assim que designa os seus livros - e que com o sucesso de Prometo falhar anda sempre pelo topo das tabelas de vendas em Portugal, deixando bem para trás a quase totalidade dos escritores portugueses nesta contabilidade.

Esta semana, para dar vazão a algumas dezenas das 150 obras que ainda tem para publicar, lançou Envelhenescer, um romance tão "utópico como distópico" na sua opinião e que faz parte das dez "obras" que lançou no ano 2010 de uma só vez. Até ao final do ano, a sua atual editora pretende reeditar outras "obras" antigas e publicar um inédito dos dois mais recentes que tem por publicar. Como se fosse numa das suas "obras", faz questão de terminar a entrevista com as seguintes palavras: "Um dia em que não escreva é um dia falhado." Nem podia ser de outro modo, afinal ninguém escreveu 150 livros até aos 37 anos em Portugal.

Na biografia de Envelhenescer não coloca data ou local de nascimento mas sim que "é um gajo que escreve cenas". Porquê esta súmula?

É o que sinto, que sou um gajo que escreve textos variados e também porque quero retirar a carga de iluminado que as pessoas têm dos escritores. Vejo-me como outra pessoa qualquer.

Ser "iluminado" é a ideia que os leitores lhe transmitem?

Não, é exatamente o oposto. Quero é mostrar aos meus leitores que sou uma pessoa como eles, só que um operário da escrita.

Refere operário porque já trabalhou numa fábrica, foi barman e segurança antes da escrita?

Não tem relação, a ideia do operário é porque um escritor não é mais do que alguém que escreve.

É a vida com que sempre sonhou?

Sempre quis estar ligado à escrita e tudo o que fiz a partir de dada altura foi relacionado. Era o que me deixava feliz e o que se passa neste momento, pois estou dentro do mundo da escrita.

Ser um dos autores nacionais que mais vende não foi fácil?

E ainda bem que não o foi, porque não é propriamente um desporto de alta competição. Escreveria para meia dúzia de leitores se tivesse de ser, mas iria sempre à procura de mais. No entanto, compreendi que ter cinco ou cinco mil leitores não é o que me preocupa, mesmo que esse tempo de poucos leitores tenha sido muito importante para perceber que escrevo sempre igual.

Na apresentação do primeiro livro, Mata-me, só teve quatro pessoas. Ficou aborrecido?

Sim, é sempre uma coisa que marca, mas é o normal para quem está a dar os primeiros passos. Se continuei a escrever o que as personagens pediam com esses quatro leitores, percebe-se que a razão de escrever existia em mim.

Nunca quis mudar de estilo?

Continuei a escrever exatamente como fazia. Confirma-se nas reedições de livros escritos há algum tempo, onde se vê que sou igual. Acho que conquistar mais leitores não deve ser o que está à cabeça no processo de escrita. Evidentemente, que quero chegar ao público pois é para isso que edito.

Mas não há diferenças na escrita?

Espero que sim, terá mudado mesmo que eu seja o mesmo. Há leitores que me acompanham desde o início e consideram que sou eu quem está ali tanto no primeiro como no mais recente. Mais do que tudo não quero seguir uma fórmula, o que me interessa é a motivação. O momento em que dou o salto em número de leitores é com Prometo falhar, um livro de textos curtos, num estilo de que não há historial de sucesso em Portugal. Desde então já escrevi mais dois livros sem relação com os anteriores.

O seu leitor aceita a diferença?

Muitas vezes dizem "amei este livro e odiei aquele" por serem muito diferentes. Pode não ser simpático a nível emocional, mas é interessante perceber que o objetivo foi alcançado e que as obras não são réplicas umas das outras. Mesmo em Prometo falhar e Prometo perder, os que mais se assemelham no título, existem abordagens diferentes. Embora o leitor mais treinado nas minhas obras consiga perceber que é o mesmo autor.

Porque razão a crítica não lhe dá atenção, afinal vende mais de cem mil exemplares?

Quem vende cem mil exemplares não costuma ter muita atenção. Mais, também há exemplos de autores que antes de venderem muito eram apreciados e depois deixaram de o ser. Não me tira o sono, nem será por falta ou por excesso de crítica que escreverei.

Qual é a razão para o ignorarem?

Não faço ideia, nem perco tempo a pensar nos motivos na base do que está a dizer. Todos os dias recebo dezenas de mensagens e é raro aparecer algo desagradável. Sou um felizardo, porque 99,9 % dos comentários são bons. Haverá quem não goste, mas isso faz parte. Quando temos um milhão de pessoas a seguir-nos nas redes sociais é evidente que teremos uns milhares largos que não gostam.

Tem 150 livros escritos. Mostra uma vontade imensa de ser lido...

Sim, à volta disso. Mostra uma vontade imensa de escrever acima de tudo. Algumas dezenas foram escritos numa altura em que tinha poucos leitores, como não parei de escrever acumulei obras que não foram editadas.

Está numa editora de âmbito nacional. Refreiam-lhe o ritmo?

É uma decisão de ambos, pois tive de perceber o ritmo do mercado. Não é eficiente lançar 20 livros por ano pois não faz sentido em termos editoriais. Não era preciso a editora dizê-lo, eu compreendi.

Então não repetirá 2010, quando publicou dez livros num ano?

Exatamente. Já cinco será demais porque o ritmo dos leitores não se compadece com lançamentos em massa. De qualquer modo, lancei esses dez livros era por ser 2010.

Entre esses havia Envelhenescer?

Sim, é de 2007.

Porque optou por este?

Decidiu-se começar o ano com uma reedição, porque o objetivo é ir publicando as obras anteriores ao Prometo falhar. Em 2016, reeditámos três no início do ano e só depois as novidades.

No livro faz ataques à política e religião. São temas habituais?

Aqui era incontornável porque estamos a falar de uma utopia - ou de uma distopia -, num cenário de sonho e de desgraça. Quando um país entra numa situação daquelas, quer o governo quer as instituições religiosas têm de ser parte decisiva do problema. É uma abordagem muito sarcástica porque queria desconstruir o peso que damos a algumas instituições reais e sociais que consideramos intocáveis. Quis jogar com isso de forma irónica e até com humor negro.

Como quando faz desaparecer os bebés e toda a juventude?

A ideia da velhice e do envelhecimento é a que preside a esta obra. Julgo que a sociedade ainda tem de trabalhar muito no modo como trata os mais velhos e o seu final de vida. O que quis foi criar um cenário em que tudo se altera.

Nessa reversão temporal as mulheres voltam a ser virgens. É um truque literário?

Foi para explorar o mais possível qualquer tipo de tabu que uma situação destas iria desencadear. São dois planos narrativos, um das personagens através de uma família; outro mais alargado, o do país. Quis perceber como uma família com vários cromos sobreviveria a esta situação e como se percebe essa situação através das notícias.

O sexo está sempre muito presente e com imagens cruas. O leitor não fica incomodado?

Não estou atento a isso, escrevo o que sinto que a história necessita e o que parece mais interessante enquanto autor. Não posso estar preocupado se vou ferir os leitores.

Usa e abusa das frases de efeito. Como esta: "Morrer é a melhor parte de viver." Como surgem?

Neste caso, sendo da personagem Fiodor, que é um construtor de teses, imaginar as situações mais estrambólicas é-lhe fácil. Gosto de frases curtas e fortes porque acabam por ser uma das traves mestras do que escrevo. É algo que me é pedido no momento e respondo.

Gosta de Herberto Helder e Saramago. Não refere Paulo Coelho, que parece ser mais o seu estilo. Não o inspira?

Costumo falar dos autores que mais aprecio e fizeram escrever, sendo esses os nomes que dou. Faz sentido realçar o valor e não o meu gosto. O nome que referiu tem muito valor mas não é uma referência para mim.

Nem se podem comparar estilos?

As comparações são feitas por quem de direito, eu não faço esse tipo de ligação com o que escrevo.

Nem os leitores nunca o disseram?

Nunca ouvi isso mas aceito como qualquer outra ligação, apesar de não a ver. Enquanto leio preocupa-me o que os autores me trazem e não no que me fazem lembrar.

Que autores o influenciaram?

Esses, Saramago pela capacidade inventiva, Herberto pela dureza da escrita, Rui Nunes que é muito subvalorizado, Ruy Belo outro grande criador, o Al Berto e Lobo Antunes. São os que mais me marcaram quando comecei porque mostram que não há limites criativos.

Autores que ficarão na literatura nacional. O seu nome também?

Estou-me nas tintas se fico, não me interessa se daqui a cem anos sou lido. Gostava e quero sê-lo agora que estou cá, até porque é difícil prever quem fica daqui a cem anos.

Vai muito a feiras do livro mas não a festivais. Não gosta?

Tento gerir as presenças da melhor maneira. Já estive em festivais, vim agora de Itália, antes na Bienal do Rio. Estou onde me sinto bem.

Não se sente bem nos festivais nacionais?

Estou disponível, depende do que surja e não é um desafio a que diga não. Prefiro feiras do livro e apresentações em bibliotecas, mas não faço separação.

Como vai a receção no estrangeiro?

Estou em mais de dez línguas e agora vou dar o passo mais importante, o da difícil língua inglesa.

Metade do dia escreve, na outra é empresário?

Não há uma divisão assumida, tudo me realiza. Um dia em que não escreva é um dia falhado.

Últimas notícias

Somados, os candidatos presidenciais dos dois grandes partidos franceses não chegaram sequer a 30% dos votos na primeira volta das presidenciais. Uma crise do centrão que foi mortífera na Itália dos anos 1990, arrasadora na Grécia da austeridade e se faz sentir também hoje em Espanha. Veremos se se confirmará em França, que tem legislativas em junho. Um P&R para perceber melhor.

Partilhar

Conteúdo Patrocinado

Mais popular