Trampolim para o mundo com dois anos de criação portuguesa

A equipa da Bienal de Artes Performativas

Em quatro dias intensos, a Plataforma Portuguesa de Artes Performativas reúne em Montemor-o-Novo 16 dos mais estimulantes trabalhos de criação em dança, teatro e performance dos últimos dois anos.

"Tenho deitado pessoas, contratado seguros, fechado orçamentos, confirmado empréstimos, verificado materiais de comunicação", responde Ana Carina Paulino à questão da ocupação dos seus recentes dias (e noites). "Estou basicamente a fechar o puzzle".

O puzzle é a estrutura em que assenta a PT.17 - Plataforma Portuguesa de Artes Performativas que, a partir de amanhã, reúne em Montemor-o-Novo 16 dos mais estimulantes trabalhos de criação em dança, teatro e performance dos últimos dois anos (escolhidos por um júri de programadores nacionais), para os dar a ver a uma plateia de programadores internacionais mas não só. "Fazer espetáculos em espaços que não são teatros é complicado, gerir 19 companhias é um desafio. Tudo é complexo mas não há nada impossível ou irreal", remata a diretora de produção da bienal. A menos de uma semana do arranque, reina uma tranquilidade enganadora no Convento da Saudação, o epicentro do fenómeno.

Não há vivalma nos 12 quartos do Centro de Residências Artísticas fundado por Rui Horta, os corredores estão silenciosos e as zonas de convívio desertas. "O convento está vazio. É tão raro acontecer, só pelo Natal, às vezes", confirma Susana Picanço, a produtora executiva que garante que nada falta aos artistas das cerca de 70 residências anuais e, na PT.17, resolve o quebra-cabeças do alojamento dos participantes e a média de 250 refeições por dia, uma alegria para a economia local e uma logística complexa que a preocupa enquanto distribui mesas nos claustros ensolarados, lugar de encontro entre criadores e programadores. Tiago Coelho, diretor técnico do EdT, encara com fleuma a coordenação das equipas técnicas contratadas para o esforço hercúleo de montar e desmontar todo o aparato de 16 espetáculos em quatro dias. "As pessoas não dormem mas, normalmente, tudo isto acaba bem. A questão do equipamento é sempre o maior stress, a esse nível não temos capacidade para fazer uma coisa desta dimensão sozinhos. Há que recorrer aos teatros nacionais e negociar orçamentos para alugar o que fica a faltar", sublinha, enquanto aguarda o regresso de Vasco Mósa e Jackson Lima, ausentes em missão de resgate de equipamentos, que completam esta mini-equipa com uma tarefa gigante em mãos.

Está quase tudo a postos para receber os 60 programadores estrangeiros apontados por Pia Krämer, responsável pela programação e relações internacionais do EdT - e recém-eleita presidente da European Dancehouse Network (EDN), a segunda maior rede de estruturas de dança a nível mundial. "Convidamos pessoas com um perfil específico e que estão mesmo interessadas, ou porque estão a planear um festival em que o foco são as artes performativas portuguesas ou porque querem seguir um determinado artista que estará na PT", diz, no competente português construído em 17 anos de vida em Portugal, pintado com o tom alemão da língua mãe. "Nesta edição reforçamos os convites a programadores de países do leste da Europa, uma decisão - que é também política - de juntar sul e leste europeus, para ativar esta linha em termos de comunicação entre artistas e programadores, para abrir mais o leque das possibilidades".

Um esforço que vale a pena

Intervenção, abertura, partilha e ativação são conceitos base desta Plataforma que Rui Horta pensou em 2008 como barragem contra a crise e o estiolamento e, com o esforço de várias vontades, ergueu em 2009 como trampolim para a abertura, a divergência e a internacionalização, num projeto consistente que chega agora à quinta edição. "Isto dá muito trabalho, custa muito dinheiro, ocupa muito tempo, mas é crucial. Nasce de uma urgência e cresce com uma cultura de acolhimento que está enraizada na forma como trabalhamos: os espetáculos são fantásticos e começam à hora, as pessoas conhecem-se pelo primeiro nome, nos claustros há um ambiente que favorece a partilha e esta cidade concorre para a fruição do objeto artístico". Com um orçamento total de 117 mil euros (financiado pelo EdT, DGArtes/MCultura, CMM, Dir. Reg. Cultura do Alentejo, Fundação BCP e inscrições de programadores), a PT descende dos Encontros Acarte e continua onde a Megastore, de Lúcia Sigalho (em 2000) ou Plataforma de Dança da Faro Capital da Cultura, de Luísa Taveira (2005) ficaram, a abrir horizontes.

Ana Rita Teodoro, coreógrafa e bailarina que pela primeira vez participa enquanto criadora (como Lígia Soares, Raquel André, Flora Détraz ou a Plataforma 285), desenha uma geografia exata e emocional: "Portugal é pequenino demais para os artistas que tem, precisamos de dimensão, e o facto de irmos lá para fora chama outras pessoas cá para dentro. E a PT é um ótimo contexto de visibilidade, traz pessoas com gostos e desejos realmente diferentes e junta-os todos a olhar para as coisas". Para António Torres, coreógrafo e bailarino com estreia dupla na mostra (O Outro em Mim que Eu Ignoro, com Ana Jezebel e We Are Not So Pretensious, de Maurícia Neves e Bárbara Carlos), o encontro é fundamental: "Espero que esta participação seja uma ferramenta de valorização do trabalho feito, não apenas pela possibilidade de o mostrar fora de Portugal mas também pelo confronto de ideias com outros criadores e programadores". Miguel Castro Caldas, autor e encenador estreante na PT, ressalva a importância de existir um júri e a organização ser "uma estrutura independente, e não estatal", e sublinha o empenhamento dos criadores: "No caso de Se Eu Vivesse Tu Morrias, implica um esforço grande de tradução, paginação e publicação de um livro caro (que faz parte do espetáculo) e ensaios não pagos, mas achamos que vale a pena." O texto é também fundamental em Despertar da Primavera - trabalho de reinvenção do original de Frank Wedekind que José Maria Vieira Mendes transporta para uma novílingua - mas o esforço implicado na aposta em inglês "não é tão grande como o de organizar uma plataforma como esta, um esforço que não tem lucros, só tem despesas, empenhado na divulgação de criadores portugueses", sublinha André e. Teodósio, autor, encenador e ator do Teatro Praga. "Para nós é um prazer e uma honra poder participar, sempre, e contribuir para o não enclausuramento do sistema. Porque além das vendas (de espetáculos) há também um valor simbólico que não é mensurável em dinheiro mas sim na libertação de uma ideia de uma arte nacional anacrónica ou não interessante. Passas a estar inscrito nas referências internacionais e isso é precioso".

Um luxo de entrada livre

Nem só de espetadores profissionais se faz esta Plataforma, que desde sempre se abre a um público mais alargado. Há oito grandes espetáculos para ver gratuitamente, bastando levantar os bilhetes no Posto de Turismo de Montemor-o-Novo: dia 7, Terça-Feira: Tudo o que é sólido dissolve-se no ar, de Cláudia Dias (Armazém 5, 18h30) e Bacantes - Prelúdio para uma Fuga, de Marlene Monteiro Freitas (Escola Secundária, 21h30); dia 8, Glimpse - Five Room Puzzle, de Tânia Carvalho (Cine-Teatro Curvo Semedo, 18h30) e Moçambique, de Jorge Andrade/mala voadora (Escola Secundária, 21h45); dia 9, Gatilho da Felicidade, de Ana Borralho e João Galante (Cine-Teatro Curvo Semedo, 18h00) e Brother, de Marco da Silva Ferreira (Escola Secundária, 21h45); dia 10, Despertar da Primavera, de Teatro Praga (Cine-Teatro Curvo Semedo, 17h15) e Adorabilis, de Jonas&Lander (Escola Secundária, 21h45).

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