Os olímpicos que a música não esqueceu

A proeza de Jesse Owens em 1936 inspirou músicos como Aloe Blacc ou Run-D.M.C.

As glórias afro-americanas têm sido idolatradas pelo hip hop e pelo rock. Muhammad Ali e Jesse Owens são os mais exaltados na música.

Na música popular urbana, o boxe tem sido a modalidade que mais canções tem inspirado. Não admira por isso que o campeão de pesos-pesados Muhammad Ali seja constantemente homenageado, desde os primeiros anos do estrelato quando respondia pelo nome de Cassius Clay.

Foi em ringue olímpico que a lenda se começou a erguer, nos jogos de Roma em 1960, quando ganhou a medalha de ouro e mostrou ao mundo a sua enorme agilidade. O novo imperador do pugilato levou o renovador da folk americana Bob Dylan a um exercício de autodeslumbramento sarcástico em I Shall Be Free No. 10 do marcante álbum de 1964 Another Side of Bob Dylan: "Cassius Clay, aqui estou eu/ 26, 27, 28, 29, vou fazer a tua cara parecer-se com a minha/ Cinco, quatro, três, dois, um, Cassius Clay, é melhor pirares-te." A inteligência ativista e irreverente de Muhammad Ali pelos direitos dos afro-americanos nos Estados Unidos levou-o à veneração por parte da comunidade do hip hop. Para se engrandecer a si mesmo, o rapper Jay-Z teve de se lembrar de Ali como exemplo em F.U.T.W. O rapper LL Cool J (em Mama Said Knock You Out) e o coletivo de old school The Sugarhill Gang (no tema que os mostrou, Rapper"s Delight) também o referenciaram.

Mas nem só de hip hop viveram os tributos musicais a Muhammad Ali. A indie-rocker Cat Power fez-lhe uma lindíssima vénia em The Greatest - "uma vez quis ser a maior, dois punhos de rocha sólida" - e o projeto de eletrónica inglês Faithless dá mesmo o nome do pugilista a uma canção sua, Muhammad Ali. David Bowie (em Candidate, do influente álbum Diamong Dogs), Tori Amos (em Professional Widow) e até mesmo o MPBista Gilberto Gil (no tema reggae Table Tennis) deram-lhe vivas. Haverá atleta olímpico mais musicado do que Cassius Clay?

Outro atleta mitificado na música foi o negro norte-americano Jesse Owens, que na cara de Hitler mandou às urtigas a proclamada superioridade da raça ariana nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, ao ganhar quatro medalhas de ouro no atletismo, três delas nas pistas de velocidade. O soulman Aloe Blacc canta Let The Games Begin para o biopic Race (estreia-se na quinta-feira). Mas Jesse Owens já fazia parte da consciência histórica do hip hop. Que o digam os Run-D.M.C. e os Wu-Tang Clan, e que bem o disseram respetivamente em Proud to Be Black e em Protect Ya Neck (The Jump Off).

Hoje, quando no hip hop alguém se quer lembrar de um exemplo de rapidez no contexto de violência gangster, o velocista jamaicano Usain Bolt, hexacampeão olímpico das pistas, é a metáfora à mão. Assim fizeram os rappers Lil Wayne, Akon e Young Jeezy em I"m So Paid ("os negros querem guerra mas não têm dinheiro.../ Desatam aos tiros mais depressa que o Usain Bolt, a coisa mais rápida a correr").

E quando uma música que já existe ganha de repente um outro sentido e uma certa desapropriação por causa de um fenómeno desportivo? Foi que o aconteceu à partitura Nadia"s Theme, que fora composta por Barry De Vorzon e Perry Botkin Jr. para a telenovela norte-americana The Young and the Restless, mas que ganha um outro sentido com o brilharete da adolescente ginasta romena Nadia Comaneci, que amealha notas máximas nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976.

De repente, Nadia"s Theme era Nadia Comaneci a fazer acrobacias no tapete, tudo por causa de uma montagem televisiva de um programa de TV, Wide World of Sports, que levou muitos a pensar erradamente que Nadia Comaneci fez as suas perícias ao som da música de Botkin Jr. e de De Vorzon.

Por cá, o arquivo cancioneiro ligado a atletas olímpicos é escasso. Mas os Diabo na Cruz lembraram-se na canção Duzentas Mil Horas de uma figura ligada à faceta mais dramática da alta competição, o fundista Fernando Mamede, que embora fosse o detentor recente do recorde mundial dos dez mil metros não conseguiu completar a prova da final olímpica nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984.

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