"Acho que a humanidade vai evoluir através do conhecimento e da visão da verdadeira beleza." São palavras proferidas por um jovem Friedrich Schiller (1759-1805) em Irmãs Amadas, que, na essência, espelham o que terá sido a sua doutrina de vida, repartida entre a erudição e o amor, necessariamente ligada à demanda da beleza. O poeta, dramaturgo, filósofo e historiador que, tal como Goethe, se tornou uma das figuras de topo do romantismo alemão e do classicismo de Weimar, está no centro de um melodrama histórico de Dominik Graf, a chegar hoje às nossas salas... com algum atraso (é de 2014)..Partindo da crença de muitos estudiosos de que Schiller terá dividido o seu coração com duas mulheres irmãs - Charlotte, que identificava como a "sabedoria", e Caroline, o "fervor" -, aquilo que esta produção germânica faz é preencher o episódio indefinido com um imaginário romântico à medida do poeta. Assim, atravessando o período compreendido entre 1787 e 1802, a história começa com a discreta Charlotte (Henriette Confurius), a mais nova das duas irmãs, que conhece Schiller do parapeito da sua janela, num trivial mas sedutor diálogo, a fazer prever a regularidade dos futuros encontros. Caroline (Hannah Herzsprung), a mais velha, casada com um cortesão para salvar a família da ruína, chega depois e estabelece o triângulo amoroso - que, a sermos rigorosos, se trata de um triunvirato..[youtube:6ZtuN97aq04].Estas três personagens estão praticamente em condição de igualdade: Schiller ama as duas, e elas, além dele, também se amam, no laço intenso da sua irmandade, que é honrada com uma promessa de vida em comum. Todo o filme se constrói à volta dessa partilha, ora concertada ora insegura, do mesmo homem, contextualizada na época histórica europeia (Revolução Francesa), nas diferenças sociais e, em particular, no núcleo intelectual de Weimar..Nesse espírito de cultura, Caroline acaba por ser a figura feminina em ascensão, que, sob o olhar atento de Schiller, se empenha na escrita de um romance. A título de informação suplementar, ficamos a saber que após a morte do amante, foi ela quem escreveu a sua biografia, sem referir a relação amorosa, e destruindo, inclusivamente, a correspondência que a provava..Por sinal, as cartas, esses meios de excelência no século XVIII, são a alma do romantismo e uma forma de economia narrativa em Irmãs Amadas. Muitas vezes lidas diretamente para a câmara, surgem em complemento à voz off de um narrador omnisciente, que nos situa nas convulsões daquele período. E apesar de não se comparar às tremendas paisagens de Barry Lyndon (1976), de Kubrick, ou ao primor dos cenários pintados de A Inglesa e o Duque (2001), de Eric Rohmer, o filme de Graf concretiza uma distância emocional semelhante, tanto pela voz que narra e por alguns traços da linguagem formal, como pela montagem sonora..Com duas atrizes em notável equilíbrio dramático, e uma liberdade narrativa fulgurante, Irmãs Amadas é mais um filme que sonha com Schiller do que um filme sobre Schiller.