Os desenhos que contam o regresso à vida do artista

António Jorge Gonçalves é o autor contemporâneo homenageado nesta terceira edição do Festival da Ilustração de Setúbal

"A Minha Casa Não Tem Dentro", "Subway Life" e "Desenhos Efémeros". Em Setúbal, três exposições mostram as múltiplas facetas do trabalho do ilustrador António Jorge Gonçalves.

Era uma vez o pai e a filha na abertura do livro. Têm em comum o desenho. São separados logo no início da história pela ausência do pai a braços com uma doença grave que o conduz ao hospital. Depois entra-se numa viagem onírica, em que a figura da morte, do sofrimento e da destruição estão presentes. Aos poucos a vida vai melhorando. Vê-se nos olhos da criança. Até chegar o final marcado pela notícia do regresso do homem a casa. E à vida.

Eis o resumo acelerado da A Minha Casa Não Tem Dentro, o livro desenhado por António Jorge Gonçalves, que narra uma história muito próxima daquela que o autor contemporâneo homenageado no Festival da Ilustração de Setúbal e a família viveram no ano passado. São esses desenhos que vão estar pelas paredes de uma das salas da Casa da Cultura sadina.

"Foi um livro feito de forma aberta", explica, exibindo quadros de tempestades, inundações, uma dança macabra, uma mão que embala uma menina, viagens, uma sala vazia e outra a abarrotar de gente. Também por lá anda um teatro com um corvo, além de uma cidade destruída e uma viagem à volta do sol e da lua.

"É um livro só de imagens entrecortadas por uma espécie de divisões com pequenas narrativas, como que microcontos que se relacionam embora não de maneira direta", acrescenta, admitindo que a sua mais recente obra acaba por apelar à capacidade "de o leitor inscrever a sua própria história nesta história."

Entre as curiosidades exibidas por António Jorge Gonçalves em A Minha Casa Não Tem Dentro, o autor aborda a forma pouco convencional em que o trabalho foi feito, tendo optado por separar o desenho da cor. Aliás, na exposição surgem em paredes diferentes. Numa estará todo o desenho e na outra a aguarela. "Outra particularidade é que estes desenhos foram feitos em negativo", revela, explicando que pintou a preto o que ia ser branco e deixou a branco o que deveria ser a preto. "É um pouco como fazer fotografia à moda antiga no sentido em que não vemos logo o resultado, nem se sabe bem o que vai ficar. Achei que fazia sentido, face ao episódio de saúde bastante grave que me aconteceu, ir do negativo para o positivo, numa viagem da noite para o dia", justificou ao DN, enquanto apresentava um dos três núcleos da exposição que promove em Setúbal até 2 de julho.

Na sala ao lado há lugar para Desenhos Efémeros. É a projeção de um pequeno filme que documenta a atividade de António Jorge Gonçalves em alguns dos quase 200 espetáculos que criou desde 2003. "É uma outra metade da minha atividade profissional. O desenho ao vivo com atores, bailarinos e músicos em óperas, concertos de música ou peças de teatro", revela, antes de passar em frente à "parede surpresa", defronte para a sala principal, onde vai escrever um rol de perguntas que o assaltam nos dias de hoje.

E mostra algumas questões no seu caderno, que designa como uma "espécie de ateliê", deixando escapar que seriam estas algumas das perguntas do momento para deixar em Setúbal: "Sou São Jorge ou o Dragão?", "Desenho porque desdenho?", "A ciência é a falência do mito ou é o mito que é a falência da ciência?".

Segue-se Subway Life na sala principal. É o mais célebre projeto do autor criado entre 1997 e 2003. São cerca de três mil desenhos de pessoas sentadas - na exposição estará uma clara minoria - feitos à boleia do Metro em dez cidades do mundo: Lisboa, Londres, Berlim, Estocolmo, Atenas, São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, Cairo e Moscovo.

Começou como se de um jogo se tratasse. O ilustrador sentava-se no Metro e propunha-se desenhar em breve minutos - cinco a seis - as pessoas que se sentassem à sua frente ou no ângulo imediatamente a seguir. "Não podia escolher a roupa mais bonita ou a menina mais gira", recorda, alertando para as posturas antagónicas que foi encontrando.

"No Cairo havia uma carruagem inteira a observar o desenho que eu fazia e a relatar em direto para a pessoa que estava a ser desenhada. Mas em Estocolmo as pessoas mudavam de lugar quando percebiam que eu estava a olhar para elas", relata o artista.

Viria a concluir que o Metro "é um sítio fechado que dá uma certa sensação de perigo e não convida à interação. As pessoas procuram uma bolha para se encerrarem. E quanto mais avançamos para norte no planeta, mais essa bolha se reforça", diz, anunciando como novidade a exposição dos próprios cadernos onde constam os desenhos originais. "Vai dar a possibilidade de os visitantes compararem com as ampliações nestes quadros onde as pessoas desenhadas estão quase no tamanho natural", explica António Jorge Gonçalves.

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