"O Mistério da Estrada de Sintra". Dois velhos amigos voltam ao DN

Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz

Foi neste jornal que Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão publicaram, em 1870, os folhetins que a partir de hoje regressam

Apesar dos seus 24 anos, quando Eça de Queiroz começou a publicar, com Ramalho Ortigão, as cartas que, entre 24 de julho e 27 de setembro de 1870, construíram O Mistério da Estrada de Sintra, o rapaz tinha ido já ao Egito cobrir a inauguração do canal do Suez. As 56 cartas que se revelariam folhetins de uma história que nunca existiu fora das penas de Eça e Ramalho não foram, por isso, a sua estreia no Diário de Notícias. Fora "o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez". Palavras dele.

O jornal, que ainda não chegara ao seu sexto ano de existência em 1870, era então dirigido pelo fundador e amigo de Ramalho, Eduardo Coelho. A aposta que este fez nos dois autores que só no último folhetim revelariam aos leitores a sua identidade foi muitíssimo bem sucedida. "Os leitores interessaram-se imenso" por aquela história de crime, mistério e adultério. E o jornal "deve ter vendido imenso, devia esgotar até. Havia aqueles relatos da época, de pessoas que apareciam mortas, esventradas, etc., e o público procurava - como procura ainda hoje - esse jornalismo sanguinário. O jornal lucrou bastante com isso", explica a investigadora Irene Fialho, que assina a organização do recentemente publicado Eça de Queiroz em casa, além de diversas edições críticas da obra do escritor.

Hoje, mais de 146 anos depois, o Diário de Notícias chama de novo O Mistério da Estrada de Sintra ao primeiro sítio onde a história encontrou leitores, e publica-a, até 10 de fevereiro, adaptada em 20 folhetins. Estes, todavia, não saem dos arquivos do Diário de Notícias, onde surgiam sempre no fundo da primeira página do jornal e começavam com "Senhor redactor do Diário de Notícias"... Antes, vêm da edição da obra em livro que, em 1885, aparece com o selo da Parceria A M Pereira. E não há como fugir à carta-prefácio de Eça e Ramalho que então a abria, e onde a obra é referida como "execrável", lugar onde existe "um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar".

Mas Irene Fialho avisa: "O Eça era um blagueur, não pode acreditar em tudo o que ele dizia. Talvez seja até uma maneira de ele dizer que afinal aquilo até é bom, para atrair mais o público..." Achando-a ou não "execrável" e usando esse epíteto para atrair leitores ou não, certo é que a obra foi bastante reescrita, sobretudo por Eça. Em 1885, aliás, e ao contrário do que acontecera em 1870, o seu nome surge antes do de Ramalho na assinatura.

Eça tinha 24 anos e Ramalho 33 quando, através de sucessivas cartas, criaram a quatro mãos O Mistério da Estrada de Sintra. Conheceram-se quando o mais novo fora aluno de Ramalho no Colégio da Lapa, no Porto. A amizade, de que também As Farpas são um testemunho, seria retomada com a vinda do professor para Lisboa. "O Ramalho foi padrinho de casamento do Eça. Em Tormes, na Fundação Eça de Queiroz, existe o presente de casamento. É uma masseira, um móvel onde se amassava o pão e depois tinha a parte de cima onde se punha o pão já cozido", conta a investigadora.

Apesar da amizade, "Eça trata nas cartas o Oliveira Martins e o Batalha Reis por "tu" e por "amigo"; ao Ramalho nunca deixa de o tratar por você, embora tenham sido amigos até ao final da vida do Eça. Ele vai morrer a casa, em Paris, com a família, mas antes tinha ido tentar umas termas na Suíça, e o Ramalho está com ele lá. Dos amigos, terá sido o último a vê-lo com vida."

Quando se juntaram para escrever O Mistério da Estrada de Sintra, os dois "conheciam bem" o folhetim como género literário e "resolveram parodiá-lo", diz Irene Fialho. "Já havia muito naquela época os folhetins de romance de mistério e de crime, sobretudo traduzidos do francês, e o público seguia-os com muita atenção."

Porque é que estes folhetins eram diferentes? "Porque surgiram em forma de cartas. Depois, porque ninguém sabia quem eram os autores das cartas, que assinavam apenas com uma letra. E porque era passado em Portugal, na estrada de Sintra. Levou as pessoas a crerem que realmente se tinha tratado de um crime verdadeiro e da sua resolução, até que finalmente no ultimo folhetim os autores finalmente desvendam o assunto."

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