Não é preciso aprender ballet desde criança para saber dançar

Até chegar à escola de Dança, nunca tinha tido aulas

João dos Santos Martins, de 27 anos, é um dos nomes a acompanhar na dança contemporânea. Hoje e amanhã, no CCB

Até mesmo quem não acompanha o mundo da dança deve ter reparado no seu nome - João dos Santos Martins - ao lado dos nomes de Vera Mantero, Paulo Ribeiro, João Fiadeiro e Clara Andermatt. Ele, João, foi o coreógrafo que os juntou, há um mês, no Teatro Viriato, em Viseu, para (re)fazer Quatro Árias de Ópera. Ele, João, com metade da idade deles. 27 anos feitos esta semana e uma timidez desarmante. Garante que não está deslumbrado. Que ficou mais rico com esse encontro. "Trabalhar com eles é trabalhar com a génese da dança contemporânea em Portugal, eles são a fonte de todas as especulações sobre as quais o meu trabalho também passa, por isso ter um diálogo direto com eles nesta proposta foi muito bom." E agora é continuar. Com o seu próprio trabalho.

João cresceu na Póvoa de Santarém, uma aldeia a dez quilómetros de Santarém. O pai vende charcutaria, a mãe tem um restaurante. Não teve muito contacto com as artes e, até aos 18 anos, só tinha visto um único espetáculo de dança contemporânea, do Quorum Ballet. Nada disto o impediu de dançar. No quarto ano (teria uns nove anos) juntou-se com algumas amigas e formaram um grupo: Dream - Grupo de Dança Moderna da Póvoa de Santarém. Não tinham aulas, não tinham qualquer orientador, eram só um grupo de miúdos que via os videoclipes na televisão e tentava imitar as coreografias. A primeira apresentação aconteceu no estrado da sala de aula ao som de Eu Sei, Tu És, dos Santa Maria. Ele era o único rapaz. "Começámos a fazer espetáculos nas festas da aldeia, a 15 de agosto. Preparávamos uma performance que normalmente era a "surpresa" no programa." Separaram-se no fim do liceu. João foi o único que continuou a dançar.

Lembra-se que no momento de escolher um curso superior estava tão desorientado que decidiu imprimir a lista de todos os cursos existentes e começar a riscar aqueles que não queria mesmo seguir. Escolheu a dança, "um bocadinho às cegas". "Naquele momento era a coisa que tinha mais desejo de fazer. Mas também gostava muito de organizar aqueles eventos, escolher as músicas, ver os figurinos, fazer a edição de som ou ver a relação entre o palco e o espectador, não era só a dança, era mais abrangente, a criação do espetáculo."

Teve três aulas de ballet para se preparar para as audições que correram "pessimamente". "Não sabia onde pôr a mão, onde pôr o pé, não sabia nada." Conseguiu a nota mínima nas provas e foi salvo pela média do secundário, onde tinha estudado de ciências. Entrou na Escola Superior de Dança, mudou-se para Lisboa e nunca mais teve dúvidas sobre o que ia ser.

Quis ver tudo, absorver tudo. Viu Pina Bausch a dançar o Cafe Müller - "apesar de hoje não me identificar tanto com o trabalho, na altura foi super importante, foi um encantamento com o suporte artístico". Teve aulas com João Fiadeiro na Real. Teve, finalmente, aulas de ballet. Aprendeu a técnica Graham. Descobriu a performance. Trabalhou com João Galante e Ana Borralho (a primeira experiência com nudez). O primeiro trabalho a sério, "com contrato assinado", foi com Rui Horta. E agradece aos voo low cost que lhe permitiram sair daqui "sem precisar de pedir uma mesada extra" para estudar na Holanda, na França, na Bélgica. Por exemplo, com Xavier Le Roy, que tanto o influenciou.

Passaram poucos anos. João gosta de correr junto ao rio. Não dança todos os dias, mas às vezes gosta de experimentar umas coisas diferentes, já fez aulas de zumba e de kizomba num desses ginásios da moda. Não tem espartilhos. Nem no corpo nem na cabeça. E é também sobre isso que fala Autointiulado, o espetáculo que apresenta, com Cyriaque Villemaux, no festival Alkantara - um olhar para a história, para os clichés, para as formas, para a dança que se faz hoje, através de citações e de adulterações. "Como nos posicionamos como coreógrafos pós-conceptuais ou como lidar com o legado conceptual da dança." João não tem respostas para dar. A busca continua - e a seguir vai passar pelos Açores onde vai criar um novo espetáculo, a convite do festival Walk & Talk.

Autointitulado

Hoje e amanhã, 19.00

CCB, Lisboa

10 euros

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