Mário Cruz viu crianças açoitadas à sua frente

Criança acorrentada numa daara. Uma das fotografias premiadas pelo World Press Photo.

O fotógrafo português esteve no Senegal a fotografar as daaras onde vivem crianças escravas. Após ganhar um prémio do World Press Photo, Mário Cruz apresenta hoje o livro "Talibes - Modern Day Slaves"

Um homem de braço erguido açoitando uma criança. Um amontoado de crianças dormindo no chão. Um pé acorrentado. Crianças mendigando nas ruas. Pobreza. Uma criança com cicatrizes no rosto por ter sido açoitada. À medida que vai passando as páginas do livro, o fotógrafo Mário Cruz vai contando as histórias daquelas imagens, captadas há mais de um ano, no Senegal. "Quando vejo estas fotografias não vejo só as fotografias. Sei qual é o cheiro que estava aqui, quem são estas pessoas."

As imagens mostram a vida difícil dos talibés - crianças que são entregues pelas famílias a escolas tradicionais corânicas (daaras) onde os professores (marabouts) são responsáveis pela sua educação. Só que, nos últimos anos, o sistema foi sendo pervertido e muitas das escolas em vez de educar as crianças exploram-nas. Os miúdos são obrigados a trabalhar e a mendigar nas ruas, são maltratados e vivem como escravos. Muitos deles, na verdade, são traficados, forçados a estar ali. A situação está a ser investigada e combatida por várias organizações humanitárias mas até aqui era difícil provar que aquilo acontecia. Estas fotografias documentam as condições de vida no interior das daaras e os maus-tratos físicos a que as crianças são sujeitas.

"É fácil encontrar talibés nas ruas, estão por todo o lado. São mais de 30 mil só em Dakar. O que faltava era a prova do que acontecia nas escolas." Agora já há uma prova. Mário Cruz tem 29 anos e ganhou com este trabalho, Talibes - Modern Day Slaves, o prémio World Press Photo na categoria Temas Contemporâneos. As fotografias que foram publicadas, primeiro, na revista Newsweek e, depois, noutras publicações estão agora reunidas num livro. Um objeto cuidado e belo, tão belo quanto pode ser o retrato de uma realidade horrível. Vai ser apresentado hoje, às 18.00, na livraria Fnac do Chiado, pelo jornalista Fernando Alves e pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

"Um talibé observa outro talibé a dormir num banco de madeira na zona de Diamaguene, Senegal", explica Mário Cruz. "Muitos talibés não dormem durante a noite com medo de abusos sexuais e acabam por dormir nas ruas enquanto mendigam para os seus supostos professores corânicos."

Ir além das notícias

Com o pai fotógrafo, Mário Cruz cresceu a mexer em máquinas fotográficas. "Por volta dos 16 anos, quando tive a noção de que através de um conjunto de imagens podia transmitir alguma coisa, contar uma história, a fotografia captou a minha intenção." Tirou o curso de Fotojornalismo no Cenjor, foi estagiar para a Lusa e ficou lá a trabalhar. Isto foi há dez anos. Mário gosta do que faz mas, aos poucos, foi sentindo falta de algo mais, algo que não podia ter no trabalho diário, com uma agenda tão preenchida. "Valorizo o que faço na Lusa mas admito que não é o trabalho que me faz sentir mais realizado. Comecei a questionar o que estava a fazer, a sentir-me desmotivado."

Então, há quatro anos começou o seu primeiro projeto pessoal, Cegueira Recente, precisamente depois de ter ido, em trabalho para a Lusa, a um centro de reabilitação para pessoas com cegueira recente e ter ficado com vontade de saber mais sobre aquelas pessoas. "Aproveitei as folgas e as férias e voltei lá muitas vezes." O trabalho acabou por ganhar o Prémio Estação Imagem e, duas semanas depois, foi publicado na edição internacional do The New York Times.

Nessa altura, já estava a fazer Teto, um trabalho sobre pessoas que não têm casa. "Passei um ano a andar por Lisboa, sozinho ou acompanhado, de carro e a pé, a tirar notas das localizações onde poderia haver pessoas a viver em locais abandonados. No segundo ano comecei a fazer contactos. Foi francamente difícil entrar em muitas destas vidas porque o facto de não terem uma casa onde morar muitas vezes é o seu segredo, nem os próprios familiares sabem", conta.

Mais uma vez, conseguiu publicar o trabalho no The New York Times e, depois, noutras publicações internacionais. E ganhou mais um prémio, desta vez da Magnum, a prestigiada agência americana. As reações foram muito boas. "Sinceramente, foi o primeiro trabalho em que senti o impacto das minhas fotografias noutras pessoas." Estava no momento de fazer algo ainda mais desafiante.

O maior desafio

"Uma das coisas boas que a Lusa me proporciona é a variedade de trabalho, conhecer pessoas e países que de outra forma nunca conheceria. Uma dessas viagens levou-me, em 2009, à Guiné-Bissau. Foi lá que ouvi as histórias de crianças que andavam a desaparecer e que se supunha que iam para o Senegal para serem escravas. Aquilo despertou-me a atenção mas na altura estava ainda muito preso à Lusa, não me sentia minimamente capaz de me debruçar sobre uma realidade dessas." Porém, alguns anos depois, a ideia já lhe parecia mais exequível. No início de 2015, um bocado em segredo até das pessoas mais próximas "porque não sabia o que aquilo ia dar", começou a investigar.

"Esta foi a primeira fotografia a ser publicada na altura pela Newsweek", diz Mário Cruz. "Essa publicação mostrou 20 fotografias. O livro tem 70."

Durante seis meses, Mário passou grande parte do seu tempo livre a ler sobre o Senegal e sobre as crianças talibés, a estabelecer contactos, a trocar e-mails e a ter reuniões via Skype com pessoas de Organizações não Governamentais (ONG) locais e internacionais, da UNICEF, da Amnistia Internacional, da Humans Rights Watch. "A partir do terceiro mês já tinha na cabeça que ia para o Senegal, mas não tinha garantias nenhumas." Pediu uma licença sem vencimento de dois meses, fez um curso intensivo de francês, preparou-se o melhor que pôde, ouvia histórias que correram menos bem de pessoas que tinham tentado fazer o que ele queria fazer, ignorou essas histórias, arrumou tudo aquilo de que precisava numa única mochila e foi.

Mário Cruz tinha noção dos riscos que enfrentava mas estava determinado: "Uma das dificuldades que senti neste trabalho foi fazer o balanço necessário entre a consciência e a inconsciência. Tinha de estar plenamente consciente dos riscos mas não podia deixar que isso me impedisse de fazer o trabalho. E tinha de fazer esse balanço todos os dias, enquanto via atrocidades acontecerem à minha frente."

Com a ajuda de algumas pessoas das ONG, visitou algumas das daaras. Um branco no meio de negros e ainda por cima com uma máquina fotográfica (ainda que fosse uma máquina pequena) nas mãos. Como passar despercebido? Não havia hipótese, por isso sempre se apresentou como fotógrafo a trabalhar com as ONG. Era recebido quase sempre com desconfiança. Fotografava paredes, coisas sem importância, deixava-se estar até que quase se esquecessem que ele ali estava. "Nunca fotografei às escondidas", afirma.

"A fotografia mostra um grupo de crianças talibés a chorar enquanto recitam partes do Corão antes de serem forçadas a irem para as ruas mendigar."

E só teve verdadeiros problemas numa das daaras em Touba, onde entrou às escondidas do marabout depois de ter a informação de que ali havia crianças acorrentadas. "Tinha um fixer [um guia local], o Capi, que me acompanhava para todo o lado, não só porque afinal as pessoas só falavam árabe e eu precisava de tradução, mas sobretudo porque ele conhecia muitas daquelas daaras e tinha contactos. Daquela vez, o Capi não queria ir. Tinha medo por mim. Mas eu expliquei-lhe que não podia ir-me embora sem aquela fotografia." Depois de tirar três fotografias às crianças acorrentadas, Mário teve de fugir dos talibés mais velhos que o ameaçaram e depois sair da cidade o mais rapidamente possível. Mas conseguiu a fotografia. A tal prova que faltava.

Hoje é dia de celebração

Mário Cruz viu coisas horríveis. Achava que estava preparado. Mas nada o preparou para o momento em que viu um homem a chicotear uma criança. Nem para as vezes seguintes em que isso aconteceu. "Ao ver aquilo é difícil controlar as emoções." Se já era difícil estar a ver e depois no final ainda ter de dar um aperto de mão àquele homem, mais difícil era gerir as emoções depois, sozinho, "num hotel que não era um hotel, era um sítio onde tinha uma cama", sem ninguém com quem falar. "Só falava um pouco com a minha namorada, que sempre me apoiou. Foi um mês e meio muito complicado."

No bolso, Mário tinha sempre um cartão com fotografias tiradas nas ruas de Dakar, paisagens, coisas de turista. "Sempre que saía de uma daara punha esse cartão na máquina." Levou uma só máquina mas tinha vários cartões de memória e discos externos, com backups do trabalho que ia fazendo e que escondia nos sítios mais estranhos. Mas durante a viagem não conseguiu ver as imagens no portátil antigo que tinha levado. "No regresso, mesmo sem saber ao certo o que tinha, sabia que tinha muito mais provas do que tinha imaginado."

Esse era o seu objetivo. "Os prémios são um bom incentivo para nós mas o melhor é que dão visibilidade ao tema de que estamos a falar." Se ler este texto, Mário Cruz é capaz de ficar até um pouco aborrecido por se falar tanto dele. "O mais importante é falar dos talibés", disse várias vezes durante esta conversa. O seu nome não está sequer na capa do livro. O livro que ele já enviou para o Senegal e para as ONG para que todos possam ver e não possam mais negar a realidade daquelas crianças violentadas todos os dias.

"Um talibé brinca no centro SOS talibé em Bafatá, Guiné-Bissau" explica Mário Cruz. "Mesmo depois de serem resgatados as suas vidas são pautadas pela incerteza. Muitos deles não sabem quais são as suas famílias e o processo de reintegração é muito complexo."

A apresentação do livro hoje será também "uma celebração", diz. "Deixa-me imensamente feliz que o presidente do Senegal esteja a tomar medidas e que estejam a ser distribuídos panfletos com fotografias minhas alertando para a questão dos talibés. De junho a agosto já foram resgatadas cerca de 500 crianças." Deixa-o também feliz saber que este trabalho é também uma prova de que o fotojornalismo é importante. E é por isso que, mesmo sem saber como vai conseguir tempo e dinheiro para o próximo projeto, já sabe "perfeitamente" o que quer fazer a seguir. Mas para já ainda é segredo.

Talibes - Modern Day Slaves
Mário Cruz
Editora: Photoevidence
Exclusivo Fnac
PVP: 40 euros

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