"Marcelo e Teixeira Gomes têm muitas coisas parecidas"

Sinde Filipe dá uma tocante dignidade a Manuel Teixeira Gomes em Zeus, a obra de estreia de Paulo Filipe Monteiro, já em exibição nos cinemas. É uma interpretação serena e majestosa de um ator esquecido, o primeiro ator português a subir a escadaria do Festival de Cinema de Cannes.
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Este papel do Teixeira Gomes é um desafio ou um presente para um ator?

Um grande desafio! Vamos lá ver: eu inicialmente nem queria fazer esta personagem. Eu explico: o Teixeira Gomes sempre me fascinou e eu conhecia muito bem a obra dele. Fui sempre um grande admirador deste homem. Por todo o respeito que tinha por ele, hesitei... Era um homem com uma constituição física de alguma maneira frágil e eu não sou nada assim. Mas o Paulo Filipe Monteiro, que é meu amigo e primo, insistiu que tinha de ser eu. Acabei por aceitar, e foi um trabalho apaixonante.

Sendo um especialista em Teixeira Gomes, diria que era um homem de segredos?

Os segredos estão na sua obra. Na verdade, era um hedonista e um helénico! Um homem com uma conceção do mundo muito estética, e isso está traduzido no seu magnífico conto Maria Adelaide.

Consegue relacionar a situação política nos anos 1920 quando Teixeira Gomes abandona a Presidência da República com a atual situação do país?

Sim! O Teixeira Gomes demitiu-se porque não aguentava aquela situação dos partidos a digladiarem-se, em especial com o Afonso Costa a baldar-se ao convite que ele lhe tinha feito! Às tantas ficou nauseado com aquilo e pensou: eu sou rico, não aguento mais isto, estou farto. Gosto é de viajar e escrever. Depois ainda houve várias tentativas de conciliar as partes, tal como agora, onde temos uma espécie de Rainha Santa no Marcelo, que vai tentando... Há coisas muito parecidas [risos]. Aliás, Marcelo e Teixeira Gomes têm muitas coisas parecidas. Provavelmente, ele próprio encontrará pontos comuns.

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Sente-se que não deve ter sido fácil filmar no deserto africano, sobretudo para alguém que carrega o filme quase todo às costas...

Do ponto de vista físico foi extenuante. O que mais me custou foi montar naquele dromedário. A maneira como eles se levantam provoca um esticão muito forte. Chegámos também a filmar numa zona perigosa, quase na fronteira com a Líbia - deslocávamo-nos sempre com escolta. Felizmente não nos aconteceu nada. O pior foi só a minha mala ter desaparecido mal chegámos ao deserto.

É uma das figuras que prestam depoimento no filme de João Monteiro, Nos Interstícios da Realidade - O Cinema de António de Macedo. Sente que o afastamento de Macedo do cinema é um sinal de uma certa pequenez do cinema português?

Ele tem uma escrita muito própria, que quis traduzir através da sua escrita cinematográfica, a meu ver não muito conseguida, infelizmente. Em Portugal, o Macedo foi um inovador em termos técnicos, mas em vez de criar uma empatia, criou uma rejeição. Nós, por arrasto, fomos levados com ele.

A sua carreira foi prejudicada por isso.

Eu fui muito prejudicado. Nunca mais ninguém me contratou para nada. Zeus caiu-me do céu - nunca um realizador se debruçou sobre a minha potencial personalidade cinematográfica. Pura e simplesmente, puseram-me na prateleira! Pensaram sempre que eu era daquele tempo que não interessava nada, e eu não devo nada aos cineastas portugueses, tirando o João Roque, que me chamou uma vez. Ah, o João Botelho também me chamou para uma coisinha assim muito breve... Para teatro também não tenho convites.

Mas será só esse estigma Macedo!?

Não sei... talvez também por não cultivar muito aqueles ambientes cinéfilos ou sociais. Não apareço muito, é a minha natureza... Gosto de ser ator quando me dão uma personagem para vestir. Quando não sou ator, gosto de ser o mais discreto possível.

E como é essa pessoa discreta?

Leio, pinto e escrevo. Escrevi para televisão uma prateleira de textos para episódios sobre Os Grandes Amores de Portugal. Trata-se de uma adaptação do Mário Silva Gaio que propus à RTP, ao Virgílio Castelo, que me disse: "Ó Sinde, isto é de época!" Ficam logo assustados! Tenho também escrito um guião sobre Vieira de Castro e estou a escrever um guião sobre uma professora de uma escola primária isolada em Trás-os-Montes, no tempo de Salazar. Mas o que gosto essencialmente é de representar

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