Joel Neto: "Nos Açores a quantidade de coisas que me comovem é maior"

Joel Neto prepara mais dois livros

As crónicas de Joel Neto no Diário de Notícias ganham nova forma, em livro. "A Vida no Campo" é lançado dia 18 e junta 200 textos do autor que regressou à Terceira por quatro anos.

Joel Neto, 42 anos, há quatro a viver no Lugar dos Dois Caminhos, freguesia de Terra Chã, ilha Terceira. Açores. Do meio do Atlântico enviou crónicas diárias (agora semanais), para o DN. Fala-nos das tradições, dos humores da meteorologia, dele, dos vizinhos. Apresenta-nos os nomes extraordinários dos da Graciosa, a receita (que nunca fez) de queijada dona amélia, as aventuras com as águas vivas. Coisas lá da ilha agora vertidas em livro, A Vida no Campo. A caminho um novo romance, que espera publicar na primavera de 2018 (mas que o editor quer publicar já na próxima) - e que andará "fora de portas", por Friburgo, Praga e Bristol. E um outro livro, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos. Entre as lides da escrita, a caminhada diária e os preceitos do quintal, respondeu às perguntas do DN. E diz que o "prazo" de quatro anos para ficar na Terceira está a terminar. E que decidiram "renovar" por mais dezasseis.

Quando percebeu que um conjunto de crónicas, diárias, no jornal se tinha transformado num livro?
Eu diria que aconteceu o contrário. Havia um livro que se foi transformando em crónicas de jornal, mas nunca deixou de ser um livro em curso. Um diário. Hoje, temos uma visão muito lata da palavra crónica. Chamamos crónica a artigos de todos os tipos: crónicas, comentários, análises, até ficções ou diários. Antes não era assim. Muitas vezes, a melhor literatura veio dos jornais. Boa parte do cânone do século XIX nasceu assim, aliás. Ainda há umas semanas li o Longe da Multidão, do Thomas Hardy, que é um marco na história da literatura e nasceu precisamente como um folhetim de jornal. Nem sequer me posso gabar desse método quanto a A Vida no Campo. Eu tinha um diário e o André Macedo propôs-me que eu o vertesse numa coluna diária no DN. Foi - e ainda é, agora em versão semanal - um dos grandes privilégios da minha vida. E senti uma resposta excecional da parte dos leitores.

Organizou-as por estações - outono, inverno, primavera, verão. Se fossem crónicas da vida na cidade também o teria feito ou na Terra Chã aprendeu as estações?
Organizei os textos assim porque, originalmente, eles estavam organizados mais ou menos assim. Transformar textos de dimensões e respirações diferentes numa coluna de jornal é que, entretanto, exigiu que eu baralhasse um pouco os dados. Às vezes ia buscar um texto aqui e outras vezes ali - era consoante a oportunidade e a (palavra que uso com cuidado) inspiração. Mas, de facto, foi o campo a reensinar-me as estações. Numa cidade há sobretudo duas estações: a quente e a fria. É claro que as pessoas com mais sensibilidade sabem olhar as desfolhas do outono e os jacarandás da primavera. Mas, no dia-a-dia, ou podemos vestir uma t-shirt ou não podemos. No campo, é tudo diferente. No campo açoriano, muitíssimo diferente. O mais difícil é mesmo reduzir a divisão do ano a quatro estações. Devemos ter umas cinquenta.


O tempo. Ainda a meteorologia. Nos Açores, "o único lugar do mundo onde falar do tempo não é só fazer conversa", ganhou a paciência de saber relacionar-se com os humores da natureza?
Na verdade, eu só tive problemas com os humores da natureza quando me limitava a ir aos Açores de férias e, portanto, queria ir nadar, jogar golfe, fazer churrascos. Desde que vivo em (quase) permanência na ilha, até aprecio esses humores. Tudo se renova a cada dia. E, além disso, o inverno é silencioso, o que beneficia o meu trabalho. Sou a única pessoa que conheço, mesmo aqui, que não vai à janela ver que dia está assim que se levanta da cama. Tenho amigos e vizinhos que ficam de mau humor quando está mau tempo. A minha mãe, que vive aqui perto, fica com o nariz vermelho. Eu levanto-me, vou até à cozinha e faço um café. Só então confiro o tempo. Vejo-o através do meu jardim e, se estiver um dia sombrio, ou ventoso, ou frio, acendo a salamandra.


O tempo, dos dias. Essa vida de ilhéu mostrou-lhe o que é o tempo, as 24 horas que tem o dia?
Em parte, sim. Mas eu continuo a trabalhar muitas horas, de maneira que nem todos os dias me apercebo da passagem das horas da mesma maneira. O campo não é apenas um passeio: tem os seus compromissos. E escrever continua a ser um ato trabalhoso, aturado, sofrido - estejamos onde estivermos.

Leio textos do meu tempo de urbano cínico e conservador e não me revejo naquela pessoa


Esta rotina de fazer crónicas diárias no DN levou-o a olhar para a ilha de outra forma? Anda sempre à procura de histórias?
Talvez se possa dizer isso, mas apenas até certo ponto. Fui jornalista durante 20 anos - e, até certo ponto, ainda o sou -, mas acho que o meu olhar sempre foi primeiramente o do escritor. Coleciono histórias, e personagens, e tiques, e assimetrias desde a infância. Estou sempre a roubar. Naturalmente, roubo aquilo que me comove. Aquilo que me faz eriçar um pêlo, mesmo que não me aperceba logo disso. E, nos Açores, a quantidade de coisas que me comovem é maior. Ainda hoje, passados quatro anos, consigo comover-me todos os dias a olhar para a mesma criptoméria baloiçando ao vento. Todos os dias ela baloiça de um modo distinto.


Há um antes de viver na Terra Chã e um depois de viver na Terra Chã. O que mudou em si? E na ilha?
Há, claramente. A ilha está mais bonita, mais pobre, menos central. Não há economia e os indicadores sociais padecem com isso. Mas, por outro lado, eu conheci-a melhor. Saí para fora dos lugares da minha infância, explorei-a. E a Terceira é bonita, muito mais bonita do que eu me lembrava - nomeadamente no centro, no mato, que é onde passo mais tempo, porque gosto de deixar ao mar o papel de epifania. Isto quanto à ilha. Quanto a mim, e embora eu seja ao mesmo tempo o meu laboratório e a minha perplexidade - e, portanto, a pessoa em piores condições para fazer uma avaliação objetiva -, creio que mudou quase tudo. Leio textos do meu tempo de urbano cínico e conservador e não me revejo naquela pessoa. Naquele Joel Neto. Creio que hoje sou um homem muito mais esperançado e feliz. Pode parecer um contra-senso, numa ilha onde a economia estagnou e as pessoas vivem pobremente. Mas há algo no modo como esta paisagem se renova e no modo com esta gente se entreajuda que me mudou profundamente. Gosto de acreditar que me mudou para melhor.

Nestes textos conhecemos a Catarina, sua mulher, o cão Melville e, depois, a Jasmim, o Sr. Chico, sabemos da visita dos sogros. E muito mais. Não sentiu esta partilha como uma perda de privacidade?
Eu não tenho problemas com a privacidade. Também conservo os meus segredos, mas a minha vida é a minha obra em contínuo. Só tenho uma e quero fazer dela o melhor que puder. As pessoas saberem dela não me inquieta. Mesmo aqui, na vizinhança, preocupa-me muito pouco que saibam onde estou ou o que estou a fazer. Pelo contrário, acho-o encantador. Nunca me senti alvo de qualquer tipo de abuso.

Temos tempo. O mundo não acaba amanhã. Talvez seja esse o maior de todos os ensinamentos do campo


O Chico, mas também o carteiro do Benfica, o João Cara Velha (ou uma qualquer das pessoas a quem se refere) nunca lhe falaram desta circunstância de serem protagonistas das suas crónicas?
Sim, frequentemente. E o Galão, e a D. Maria de Fátima, e o sr. Dimas, e o Américo e a Telma, e tantos outros. Gostam todos, riem-se imenso. Só houve uma vez que uma jovem cabeleireira se ofendeu por eu ter brincado com o facto de ela ter feito um comentário sobre as minhas entradas. Mas foi por falta de sentido de humor: pensou que eu estava a brincar com a sua suposta falta de profissionalismo, quando na verdade estava a brincar com o meu próprio envelhecimento. Também isso me ensinou sobre os termos em que as pessoas devem entrar nos textos.


De vez e quando sai, fisicamente, da ilha. A 23 de dezembro conta-nos que que se sentou na Barbearia Campos, no Chiado, em Lisboa. Depois desse corte de cabelo, a barbearia fecharia para reabrir na Rua do Loreto enquanto o prédio do Chiado foi para obras. Agora deverá regressar, numa réplica de si mesma, com um McDonald's ao lado. Como vê as mutações de Lisboa a partir do Lugar dos Dois Caminhos, na Terra Chã?
Vejo-as com alguma apreensão, até porque a minha Lisboa é sobretudo a do centro. Temo que os bairros históricos percam a sua alma e também que se esteja a criar uma bolha. Mas Lisboa estava muito carente de economia e tenho esperança de que, no cômputo geral, possamos vir a considerar que a alma da cidade prevaleceu.


Teme que com a abertura dos Açores às low cost exista uma ameaça real ao património, quer natural quer edificado?
Estamos muito longe de ter razões plausíveis para sentir esse medo. Os Açores estão muito subexplorados em inúmeras das suas potencialidades, inclusive a nível turístico. As low cost são uma boa notícia, porque trarão emprego e centralidade. Não acredito na massificação, mas, mesmo que ela venha a acontecer, haverá ainda muita margem para geri-la. E, embora haja nisso um egoísmo, nós continuaremos sempre à parte desses fluxos. Vivemos num lugar interior, nos limites de uma freguesia rural, e os nossos vizinhos ainda são, na sua maior parte, aqueles que já eram vizinhos dos meus pais e dos meus avós.


Sente-se um ilhéu? O que é isso?
Essa é a pergunta do milhão de dólares. Ainda há umas semanas o Onésimo Teotónio de Almeida me pediu um ensaio sobre o tema para uma publicação da Universidade Católica. Não creio que consiga escrevê-lo - ou reduzir tudo o que penso e posso pensar sobre o tema a um ensaio e/ou a uns meses de escrita -, porque na verdade todo o meu trabalho, desde o início, tem sido a procura de uma resposta para esse enigma. Eu sou ilhéu. Mas o que é um ilhéu? Um ilhéu é alguém para quem o mundo apenas pode ser imaginado. Mesmo quando um ilhéu viaja, viaja diafanamente. Mesmo quando emigra, a ilha vai dentro dele. Porém, isso constitui apenas uma pequeníssima parcela do que será ser um ilhéu.

A obra do jardim de inverno sempre vai avançar? E depois?
Ah, vai. Um dia vai, e o meu sogro - que é arquiteto - anda a desenhá-la. Mas temos tempo. É outra coisa que se sente no campo: não é preciso fazer para ontem. Além do mais, uma casa de campo é uma obra em contínuo. Ainda agora andamos, eu e o Chico - sobretudo o Chico, o nosso milagre -, a limpar a mata de modo a torná-la um prolongamento do jardim, com zonas frescas, mais espaços para os cães brincarem, recantos marroquinos para nos deitarmos a ler à sombra. Há de demorar meses, talvez anos. E depois faremos outras coisas. Temos tempo. O mundo não acaba amanhã. Talvez seja esse o maior de todos os ensinamentos do campo.

Um ilhéu é alguém para quem o mundo apenas pode ser imaginado

Lançamentos:

Lisboa: 24 de Maio, Fnac Chiado, 18.30, apresentação de Fernando Alves
Porto: 30 de Maio, Fnac NorteShopping, 21.30, apresentação de Júlio Magalhães
Terceira: 15 de Junho, Q.B. (festa ao ar livre), 20.00, apresentação de José Lourenço + leitura de textos por Valter Peres e Joel Neto + concerto de Maria Bettencourt, António Bulcão e Luís Bettencourt
São Miguel: 29 de Junho, Leya-Solmar, 19.00, apresentação de Vamberto Freitas

Feira do Livro de Lisboa:

28 de Maio, 19.30, stand Presença/Marcador
29 de Maio, 19.30, stand Presença/Marcador
4 de Junho, 18.00, stand Presença/Marcador
5 de Junho, 18.00, stand Presença/Marcador

Sessões de autógrafos e Leituras Públicas:

Vila Franca de Xira: 3 de Junho, Fábrica das Palavras/Biblioteca Municipal, 18.30 (incluindo apresentação de "Arquipélago")

Vila da Calheta: 16 de Julho, Largo do Cais (Festival de Julho) 20.00

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