Isto é mais do que um gajo a tocar bem um bom piano

Jorge Palma

Jorge Palma assinala os 25 anos do lançamento do álbum "Só" com uma série de concertos em que vai tocar todos os temas do disco ao piano. E, nas restantes duas horas de concerto, tudo o mais que lhe apetecer.

"Um grande piano e um gajo a tocar bem e a cantar muito bem também." É isto, sem falsas modéstias, , o disco que Jorge Palma editou em 1991. Um punhado de boas canções que já tinham sido editadas em álbuns anteriores mas que aqui são interpretadas por Palma apenas ao piano. E depois, um toque especial, aquilo que faz com que um disco bom se torne um disco icónico: "Tem um ambiente muito íntimo, está ali muito sentimento."

Aconteceu há precisamente 25 anos. Jorge Palma recorda que, naquele momento, queria tocar piano. A editora achava que estava na altura de lançar um novo álbum mas ele não tinha composições novas. Perante isto, Tó Zé Brito, que era o responsável de Artistas e Reportórios da Polygram, teve a ideia de fazer um disco com as canções que já havia mas com uma nova interpretação. Como se fosse um recital. E assim se fez. "Tinha um Steinway que é um piano belíssimo e fomos para os velhos estúdios da Valentim de Carvalho, onde eu já tinha gravado com a Amália, onde gravaram grandes nomes e grandes orquestras, era o maior estúdio de Lisboa. E foi a última gravação que se fez ali, foi a despedida", lembra o músico.

Naquelas semanas, a "equipa residente" era composta por Jorge Palma, o técnico de som José Manuel Fortes e o produtor Francis. A meio da gravação, To Zé Brito foi substituído por Carlos Maria Trindade que passou a ser também presença regular no estúdio. Não havia público mas as gravações foram feitas como se os temas estivessem a ser interpretado ao vivo: piano e voz em simultâneo. "Eu tocava e depois vinha cá fora ouvir. Bastava-me olhar para as caras deles e percebia logo se estava bom ou se tinha que repetir", conta. Tinha inteira liberdade. E estava a divertir-se a tocar piano, é o que mais recorda desses dias.

Quem está habituado a vê-lo da plateia não imagina, mas Palma é um perfeccionista. "Tenho atenção ao que faço e ao que me proponho fazer. E tenho plena consciência de quando está mal e de quando está medíocre, e ou tem melhoras ou é para esquecer." É, na verdade, o seu primeiro e maior crítico. "Há uma certa fasquia abaixo da qual eu não quero estar - estou a falar de interpretação mas também em termos de composição. Procuro que as canções que eu faço não tenham tempo, que sejam intemporais. Ocasionalmente tenho escrito uma canção ou outra que fica datada, mas procuro escolher temas intemporais e escrever canções que possam ser igualmente cantadas por homens ou mulheres." Ele sabe que são essas as canções que sobrevivem. Canções como aquelas que gravou neste disco: Estrela do Mar, Canção de Lisboa, O meu Amor Existe, , A Gente Vai Continuar, Frágil, Essa Miúda, Bairro do Amor, Terra dos Sonhos, Deixa-me Rir, À Espera do Fim, Jeremias, o Fora da Lei, Viagem na Palma da Mão, Dizem que Não Sabiam Quem Era e O Fim.

"O disco saiu discretamente, ninguém estava com grandes expectativas", diz. E, no entanto, foi ganhando o coração dos fãs que perceberam que estavam perante o registo de um momento único e irrepetível. De tal forma que, para assinalar os 25 anos do lançamento, Jorge Palma decidiu fazer uma série concertos onde vai tocar todos todos temas (embora não seguindo o alinhamento do álbum) ao piano, como nunca tinha feito até agora.

De volta ao piano

No booklet original de , Francis chamava-lhe um tipo porreiro. Jorge Palma tem 66 anos e continua a ser esse tipo porreiro. O cabelo agora ralo e branco mantém-se despenteado como sempre esteve. Não esconde a barriga saliente nem veste roupa nova para as fotografias que vão sair no jornal. Conversa sem filtros e aceita até, depois de desligado o gravador, escrever um autógrafo num disco que traz a data de há precisamente 25 anos. "Hoje já me pedem menos autógrafos, é mais selfies, é mais prático", diz.

Passa poucos das 15.00 quando Jorge Palma chega ao estúdio de Vale de Lobos, no meio do campo, a apenas 17 quilómetros de Lisboa. O dia está agora a começar. É ali que o músico está a ensaiar para os concertos que se aproximam. Traz uma caixa com um resto de pizza do almoço e dois sacos de plástico cheios de latas de Coca Cola. "A minha droga", comenta, entre risos. Está nervoso. "Há dias em que fico insuportável. Mas isto também dá pica. Acho que acontece com todo o pessoal que faz música e teatro. Continuo a sentir isso, qualquer que seja o concerto, mesmo com o repertório completamente rodado, em trio ou com a banda elétrica, seja com quem for, aqueles minutos antes de entrar são sempre complicados. Depois passa tudo."

Tirou um dia para dar entrevistas, uma espécie de folga para aliviar a tensão destas semanas que têm sido passadas sentado ao piano. "Estou a ser exigente comigo", admite. "E neste concerto há coisas com algum grau de dificuldade." "Decidi, porque me apetece, recuperar os arranjos do . Na altura fiz arranjos pianísticos complicadíssimos, tinha acabado o curso superior de piano no ano anterior e estava ainda com o espírito do Conservatório e com aqueles compositores todos nos dedos, Lizst, Rachmaninoff, Debussy, Chopin... E há coisas com um grau de dificuldade bastante elevado." Depois, "estupidamente", logo a seguir a ter gravado o , deixou de lado o piano. "Entrei numa segunda adolescência, rock"n roll mas da pesada", conta. Palma lembra-se, por exemplo, da noite em que gravou o disco Ao Vivo no Johnny Guitar [que saiu em 1993], "com o Zé Pedro, o Kalú, o Alex e o Flak, aquilo era só eletricidade e energia. Partimos aquilo tudo. Esses anos, de 1992 até há relativamente pouco tempo, foram heavy metal, com copos, uma loucura. Deixei os dedos desabituarem-se de tocar piano." No último mês, Palma tem recuperado a sua intimidade com o piano. "Neste momento, para tocar peças difíceis tenho de estudar de novo. Estudar de novo não é o mesmo do que começar de raiz mas..."

Beethoven, Dylan e um novo Palma

Preparem-se, pois, os fãs de Jorge Palma. Nos concertos de , o músico vai tocar a Sonata número 8, opus 13 (Pathetique), de Beethoven. Serão cerca de 20 minutos de piano, sem qualquer canção. Porquê? "Porque me apetece", responde, sem hesitar. "Porque o palco é meu e vou ter um grande piano. Os pianos de concerto são os Rolls Royce dos pianos, são máquinas fabulosas e vou aproveitar esse facto para, já agora, dar o gosto ao dedo numa área que tem sido o meu mundo desde a infância. Com grandes interrupções mas a verdade é que tive uma educação musical clássica."

Mas há um outro motivo. Esta peça é "muito especial" para Palma. Começou a ter aulas de piano com oito anos e, aos onze, a mãe fez-lhe um desafio: "Deu-me um livro com sonatas de Beethoven e disse: "Aprende lá esta, quando conseguires tocar os três andamentos para mim, eu dou dou-te 50 escudos." Para um puto, naquela altura, 50 escudos era muito. Andei meses à volta daquilo, claro que queria os 50 escudos, e, meio aldrabado, mas lá consegui. Portanto, desde os 11 anos que esta peça faz parte de mim de uma maneira mais especial do que qualquer outra que tenha tocado."

Para além das canções de e deste Beethoven, Jorge Palma tem um alinhamento na cabeça (e que pode ser alterado a qualquer momento) que inclui outros temas do seu repertório e versões que costuma tocar nos seus concertos, "um Dylan, um Cohen, ainda não sei bem quais". Uma já sabe, de certeza: Avec Le Temps, que é uma canção de Leo Ferre que fala da passagem do tempo e de como tudo passa com ele. E também vai mostrar uma canção nova, que vai integrar o próximo disco a lançar, se tudo correr bem, na próxima primavera. "Já foi muita página para o lixo e agora tive de interromper o processo para ensaiar para os concertos, mas, geralmente, quando tenho um prazo, cumpro-o."

Vai ser engraçado ouvir este tema na mesma noite em que Palma toca também temas do seu primeiro disco, de 1975, "com toda a ingenuidade e falta de perícia e experiência que se nota nas letras". "Dá-me gozo. E é isso que eu procuro. Que 20 ou 30 ou 40 anos depois me dê gozo tocar e cantar as coisas que escrevo."

Jorge Palma, Só
Dias 28 e 29, às 21.00
Centro Cultural de Belém, Lisboa
20 euro/40 euro

Dias 1 e 2 de dezembro, às 21.30
Casa da Música, Porto
30 euro

Dia 6 de dezembro, 22.00
Convento S. Francisco, Coimbra
23 euro/35 euro

Dia 10 de dezembro, 21.30
Teatro das Figuras, Faro
20 euro/25 euro

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