Fernando Távora. Viagem pela obra de um arquiteto genial

A escada de Fernando Távora no auditório do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Entre os que com ele conviveram ninguém esquece as marcas que deixou na Escola do Porto, em especial os dois Pritzkers: Álvaro Siza e Souto de Moura. Roteiro de três dias pelo Norte do país, revisitando quatro décadas de obras.

Na marginal de Viana do Castelo reúnem-se três joias: o tribunal do trabalho de Fernando Távora, a biblioteca de Álvaro Siza Vieira e o pavilhão multiusos de Eduardo Souto de Moura. "O Siza ganhou o prémio Pritzker, o Souto Moura ganhou e, se calhar, Fernando Távora também podia ter ganho", diz o estudante de arquitetura Fahim Cassam, no terceiro e derradeiro dia de uma viagem de Lisboa ao Minho que revisitou a obra de um arquiteto que viveu no tempo em que os arquitetos não eram estrelas (1923-2005).

Fernando Távora no gabinete

Quem o descreve excede-se nas qualidades. "Não há muitos dias em que não me lembre de Fernando Távora", diz José Aguiar, coordenador do mestrado em Arquitetura e diretor da área científica de arquitetura da faculdade de Lisboa, antigo aluno na faculdade de arquitetura do Porto, a cidade de Fernando Luís Cardoso Menezes de Tavares e Távora (é ele quem recupera o apelido que o rei D. José tinha proscrito), oriundo de Guimarães, ou, mais precisamente, da Casa da Covilhã, sua até ao final e agora nas mãos do seu filho, José Bernardo, também arquiteto, que elogia a maneira que o pai tinha de se tornar invisível nas obras.

Recebe-nos ali mesmo na Casa da Covilhã. Pretende aproximá-la do primeiro sonho do pai e torná-la "um albergue para poetas, pensão para artistas". Távora queria mesmo fazer aqui o seu escritório. Escreve-o num texto, em 1956, com 33 anos, em que se queixa da burocracia da metrópole (o Porto).

O encontro num dos locais mais marcantes da vida de Távora, que reabilitou entre 1975 e 1980, sem nunca ter concretizado o plano de aqui trabalhar, faz parte do roteiro da viagem que José Aguiar comissariou juntamente com o professor Pedro Pacheco e a doutoranda Ana Motta Veiga, que colaboraram com Fernando Távora. Deu-se a coincidência de três pessoas que tinham conhecido o arquiteto se tivessem cruzado na faculdade de arquitetura de Lisboa. Apresentaram o projeto à Ordem dos Arquitetos - Região Sul no Concurso Pop:Up 2016. Receberam uma menção honrosa, e puseram-na em prática nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro.

É a primeira vez que o professor José Aguiar entra dentro da Casa da Covilhã (só tinha estado no exterior e na capela). Cabe-lhe uma honra: ler aos arquitetos o texto que Távora escreve "sem rasurar" (como nota o filho) um dia depois de visitar a casa-estúdio do norte-americano Frank Lloyd Wright, em 1960. A viagem a Taliesin, como bolseiro da Gulbenkian, tão decisiva para o seu trabalho como a passagem por Itália ou os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) em que participa.

"Quando voltei a apanhar a camioneta, por volta das seis da tarde, ainda tinha os olhos inchados", escreveu Távora. "Escorriam-lhe as lágrimas pela cara quando lia este texto nas aulas". Professor na faculdade de Belas Artes do Porto, a ele se deve a "descoberta" do jovem Álvaro Siza Vieira para a arquitetura.

Álvaro Siza Vieira estava no 4.º ano do curso de arquitetura da Universidade do Porto, não imaginando que um dia viria a desenhar o novo edifício que alberga os estudantes desta disciplina quando Fernando Távora, já com escritório montado, o convida para trabalhar. Conta-o durante a visita pelo Mercado Municipal de Santa Maria da Feira. É o convidado inesperado da viagem. Só fala do mestre.

Mercado de Santa Maria da Feira

O mercado municipal da Vila da Feira, monumento de interesse público desde 2012 e na mais evidente degradação, foi o primeiro trabalho em que se lembra de participar. Desenhou e desenhou. Desenhou até dois dos sinais que faziam a separação entre zonas. Há flores e frutos, o peixe, a carne. Fez o boi que está no chão a anunciar a zona dos talhos. Já conheceu melhores dias, tal como as bancas do peixe cheias de pó e teias de aranha, os tetos e a fonte central, seca. Está quase vazio nos dias que correm. "Enquanto aqui estiver, isto nunca estará ao abandono", diz uma peixeira, a única pessoa a trabalhar aqui todos os dias.

A câmara promete mudanças. "Está prevista, e está a ser pensada, uma reabilitação do mercado municipal de Santa Maria da Feira", avança a câmara, questionada pelo DN. "No entanto, o processo de decisão ainda está em curso, dados os constrangimentos decorrentes do facto de se tratar de uma obra classificada como monumento de interesse público e histórico".

Siza passeia-se pelo lugar. "Hoje tinha de haver aqui uma guarda e uma rampa", diz, na sua voz baixa, com um sorriso, olhando para a escadaria. "Não havia regulamentos". O projeto para o mercado é de 1953, a obra de 1959, como detalha uma placa à entrada. Távora tem 30 anos nesta altura.

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