Fazer teatro pode ser um ato de resistência

O Bando. João Brites (de boné) orienta a reunião semanal da direção artística do grupo fundado e 1974. É a companhia com o apoio mais elevado. Estão numa quinta em Palmela, apesar de apresentarem muitos espetáculos em coprodução noutros teatros.

Na segunda-feira é Dia Mundial do Teatro. As companhias portuguesas continuam à espera das novas regras de apoios às artes e têm poucos motivos por celebrar. Fomos ver o que acontece n"O Bando, Cão Solteiro e Os Possessos.

São 10.30 da manhã e na Quinta Vale de Barris, perto de Palmela, cheira a café. Aqui, naquela que é desde 1999 a casa do grupo de teatro O Bando, as manhãs começam numa conversa à volta da máquina de café, ouvindo os passarinhos. E o silêncio. Para lá chegar é preciso sair da estrada principal e estar atento às placas que indicam o caminho. "Quem vem pela primeira vez engana-se sempre", ri-se o ator João Neca enquanto nos faz uma visita guiada pela quinta. "Seja como for, vir ao Bando é sempre uma experiência." Ir ver um espetáculo lá implica algum planeamento. Sabendo disso, há três anos o grupo começou a vender bilhetes com a opção de jantar na quinta antes do espetáculo. Comida caseira, preparada ali mesmo, e que é servida enquanto se aquecem as mãos no fogão de lenha ou, se for verão, podendo trazer o copo de vinho cá para fora.

Ir ao Bando também é uma experiência porque o seu diretor artístico, João Brites, que está quase a fazer 70 anos, não se acomoda. "Aqui não há rotina. A mudança é a nossa rotina", brinca João Neca explicando que a sala de espetáculos, construída no sítio onde antes havia pocilgas, permite quase tudo o que os artistas quiserem: abrir as janelas e pôr o público na rua a espreitar para dentro, ou pôr o público lá dentro a espreitar para fora, usar um palco à italiana ou deixar toda a gente de pé. Além de que ainda é possível apresentar espetáculos em qualquer lugar da quinta.

"A gente afastou-se para ver melhor ao longe, não para estarmos longe das pessoas", explica João Brites. Trabalhar fora do centro permite-lhes ter tempo e condições para um trabalho de campo que consideram essencial. Mas o afastamento tem outras implicações. "Os atores que vêm para o Bando sabem que não vão ter uma carreira normal porque passam 80% do seu tempo a carregar caixotes", diz João Brites. Está a exagerar mas é verdade que todos têm mais do que uma função. Guilherme Noronha é ator e diretor técnico, Rita Brito é atriz mas também é responsável pelo acolhimento. A atriz Sara de Castro faz a gestão financeira. João Neca, ator e encenador, faz a comunicação. E por aí fora. Só assim é possível que o grupo mantenha 12 elementos fixos, seis dos quais atores.

Inquietações com mais de 40 anos

Às quintas-feiras há reunião da direção artística. Os vários responsáveis juntam-se em volta de uma mesa redonda, munidos de cadernos, computadores e ideias. Na última quinta-feira só se falou de O Inferno, que se estreia a 11 de maio no Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa. Depois de uma fase de preparação que se estende há meses, os ensaios começam na próxima terça-feira, nos estúdios da Tóbis, juntando a equipa do Bando e do Nacional. Uma dor de cabeça para o diretor de produção que tem de fazer os mapas de ensaios, gravações de vídeos, almoços, provas de figurinos. As coproduções têm sido a forma encontrada para O Bando sobreviver aos sucessivos cortes no orçamento.

Ainda assim, o grupo recebe cerca de 300 mil euros anuais de apoio da Direção Geral das Artes (garantidos por quatro anos), o que o coloca numa posição bastante privilegiada em relação às outras companhias, e o esforço é para depois duplicar esse valor com as receitas de bilheteira e outros apoios. O equilíbrio é instável. "Não gosto do discurso das lamentações mas é importante sabermos do que não abdicamos. O que podemos cortar sem pôr em risco o nosso projeto." João Brites compreende perfeitamente a posição de Luís Miguel Cintra que, em dezembro, decidiu terminar a atividade da Cornucópia após 43 anos de existência. O Bando vai fazer 43 anos. Para Brites, o problema estende-se muito para além dos apoios às artes, é uma questão política: "O que é que se espera que o Estado faça? Que garante a saúde e a educação para todos. E também a cultura. Porque as artes são importantes para termos cidadãos mais ativos e capazes. Eu acredito nisto. As artes fazem parte dos instrumentos de liberdade." Ideias que desenvolveu um pouco na mensagem que escreveu, a pedido da Sociedade Portuguesa de Autores, para este Dia Mundial do Teatro, na segunda-feira.

O Bando faz duas a três grandes produções por ano mas tem um trabalho permanente, com formação, criação de eventos, criações e digressões internacionais. Hoje mesmo, a quinta vai ter atividades ao longo de toda a tarde, com apresentações dos exercícios finais da Confraria do Teatro e conversa com sopa pelo meio. Uma agitação que vai pôr Ausência a ladrar mais do que é costume - é uma cadela que apareceu por ali, muito mal tratada, na altura em que decorriam os ensaios do espetáculo Ausência e que por isso foi assim chamada. Agora já tem uma casa.

Uma loja que não é uma loja

Ter uma casa não é fundamental para quem quer fazer teatro mas faz toda a diferença. Quando a companhia Cão Solteiro começou a sua atividade, há precisamente 20 anos, "uma das premissas era não ter espaço físico, o espaço onde íamos fazer a apresentação era um fator determinante para todo o projeto", recorda a atriz Paula Sá Nogueira. "Chegámos a trabalhar no Armazém Ferro, com mil metros quadrados. E na Casa dos Dias da Água o próprio espaço fazia parte da dramaturgia."

Cão Solteiro. Mariana e Paula Sá Nogueira e Joana Dilão já receberam 80 mil euros por ano, agora são só 30 mil.

Nos últimos anos, o grupo tem-se dividido entre salas de espetáculos mais convencionais (como a Culturgest ou o Teatro Maria Matos) e o espaço da loja no número 120 da rua do Poço dos Negros, com montras para a rua e uma porta de vidro por onde a gata Cisca gosta de escapar de vez em quando. "Este é um sítio pequeno mas que nos foi surpreendendo pela sua versatilidade. É exatamente aquilo que queríamos ter, talvez só precisasse de uns melhoramentos", diz Paula Sá Nogueira. Neste caso, ter um espaço tem sido essencial para a sobrevivência da companhia: "Este espaço é nosso, adquirimo-lo. E dá-nos algum fôlego. Se não o tivéssemos não sei se conseguiríamos continuar."

Os Cão Solteiro começaram por ser Paula e Mariana Sá Nogueira, com Marcello Urgeghe e Frederica Nascimento. Entretanto ficaram só as duas irmãs Paula (atriz) e Mariana (figurinista) a que se juntou Joana Dilão (produtora). Começaram por ser uma empresa, hoje são uma associação cultural. Chegaram a ter mais de 80 mil euros de apoio anual da DG-Artes, hoje têm 30 mil e, mesmo esses, conseguidos depois de terem protestado contra a primeira decisão do júri que os tinha excluído. Paula recorda o sentimento de injustiça que experienciou nesse momento: "Temos muito orgulho no nosso trabalho, deitamo-nos descansados à noite porque ele é um trabalho bastante sério."

Mas há algo que se mantém nestes vinte anos: a liberdade criativa. "Vínhamos todos de outros sítios, integrávamo-nos nos projetos de outras pessoas. E não queríamos continuar a fazer isso. Queríamos ser nós a decidir o que fazer, como fazer", explica Paula. E Mariana acrescenta: "O que nós fizemos foi criar um espaço mental, e mais tarde também físico, onde desenvolvemos um trabalho em continuidade." Desde o início, havia essa ideia de não trabalhar com um encenador convencional. Todos os projetos começam da discussão de ideias de todos os que vão aparecendo por ali - seja o escritor José Maria Vieira Mendes, o artista visual Vasco Araújo ou o cineasta André Godinho. "Para mim o interesse é descobrir o que vem para a frente, para onde é que vamos ", diz Paula. E é essa curiosidade, esse desbravar terreno que os espectadores sentem em cada espetáculo. "Não temos dinheiro para fazer produções. Fazemos coproduções a próxima, com a Culturgest, estreia-se em setembro. Utilizamos uma parte do dinheiro para montar o espetáculo e o resto para não desaparecermos enquanto companhia. Este ano conseguimos fazer duas produções e temos atividade aqui na loja." Agora mesmo, está lá a exposição de Vasco Araújo.

Sem teto mas com liberdade

"Cada vez mais, a resistência passou para primeiro plano, como cidadãos portugueses e do mundo. Estamos num sítio político e económico onde é difícil viver. É difícil manter a casa, é difícil ter filhos a estudar, é tudo difícil, e isso estende-se à área profissional. É difícil também fazer teatro", diz Paula Sá Nogueira. "Há que ter uma atitude de resistência mas estamos cá."

Uma casa? Os Possessos são sem-abrigo. Têm para si "uma parte de um armazém" que lhes foi cedido pela Câmara de Lisboa e onde são guardados os cenários, figurinos e outros materiais dos espetáculos que poderão voltar a utilizar. Não têm escritório nem sala de ensaios e só conseguem trabalhar porque têm o apoio dos Artistas Unidos que os acolhe no Teatro da Politécnica sempre que precisam.

Os Possessos. Nuno Gonçalo Rodrigues, Catarina Rôlo Salgueiro e João Pedro Mamede têm 25 anos. Não têm subsídios e todos têm outros trabalhos.

João Pedro Mamede, Catarina Rôlo Salgueiro e Nuno Gonçalo Rodrigues têm 25 anos e conheceram-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde fizeram o primeiro espetáculo juntos, em julho de 2013. "Não correu muito bem e ficámos com tanta vontade de corrigir isso que em vez de termos férias no verão continuámos a ensaiar para fazer um novo espetáculo em outubro", conta Catarina. A ideia de criar uma estrutura teatral não foi imediata. O que foi imediato foi a vontade continuarem a trabalhar juntos. "Na semana seguinte, almoçámos e já tínhamos outro espetáculo para fazer", lembra João Pedro. Foram fazendo apresentações pontuais até que perceberam que seria mais fácil conseguir espaços e datas se formassem uma associação. "Fomo-nos casar uns com os outros", brinca Catarina. Havia também a esperança de, assim, conseguir um apoio pontual da DG-Artes. O que não aconteceu.

"Quando recebemos o resultado dos apoios, ainda pensámos em não fazer este espetáculo. Mas isso para nós não seria opção", diz Catarina. A Marcha Invencível estreou-se este mês em Almada e vai chegar à Politécnica, em Lisboa, de 14 a 29 de abril. "Isto só é possível contando com a generosidade de pessoas que se interessam pelo projeto ou não têm nada melhor para fazer e por isso aceitam trabalhar em condições que não são dignas", explica Nuno. Todos eles têm segundos e terceiros empregos, e fazer um espetáculo neste momento significa, apesar de tudo, dar um passo que pode pôr tudo em risco. "Só queremos fazer os nossos espetáculos à nossa maneira", explica João Pedro. Querem arriscar, fazer um género que ninguém faz em teatro, como é a ficção científica, ter super-heróis ou fazer um musical. Mostrar a sua visão do mundo. E este é o seu espaço de liberdade. Como tão bem diz Nuno: "Uma das grandes vantagens de não sermos apoiados pela DG-Artes é, no limite, que podemos só fazermos o que queremos, não devemos nada a ninguém." E não deveria ser sempre assim?

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