Fazer canções que parecem simples. Mas não são.

Samuel Úria apresenta o novo disco, "Carga de Ombro", em concerta esta noite no São Luiz.

No futebol carga de ombro é aquele encosto entre os jogadores, quando estão ambos a lutar pela bola. Um chega para lá que, no entanto, não é falta. "É a jogada mais dura que é permitida dentro da lei", explica o músico Samuel Úria. Passar daí para um encosto entre duas pessoas que se gostam foi uma tentação irresistível. "A carga não é só para afastar, podemos não querer chocar mas antes depositarmos o nosso ombro ou oferecermos o nosso ombro. A analogia dá pano para mangas." E não é por acaso que esse é o nome do seu novo disco, que chega hoje às lojas e ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa.

De resto, se ouvirmos com atenção ou se formos mais além e nos dedicarmos a ler as letras das canções de Samuel Úria encontramos inúmeros trocadilhos, referências, segundos sentidos. Ele gosta de palavras tanto quanto gosta de música e, para falar a verdade, para ele a música só começou a ser realmente importante quando deixou de ser só música.

Nos tempos idos da juventude em Tondela, quando começou a tocar com amigos e ter bandas de punk, ska e trip hop, a música era ainda uma brincadeira, lembra. O momento determinante, foi quando comprou o Freewheelin", de Bob Dylan: "É um disco folk e deixou-me maravilhado pela simplicidade da escrita que não era nada simples." Foi a partir daí, quando começou a explorar mais esse universo, "a deixar a guitarra elétrica e pegar mais na guitarra acústica", que começaram a surgir as primeiras canções e uma "vertente mais autoral". Arrepende-se no momento em que usa a palavra. "Não quero parecer presumido", atalha. Mas é um autor, há que admiti-lo: "Autor como pessoa que escreve canções com um significado. E que tinham de ser escritas em português, porque se queria fazer canções expressivas, sensíveis, tinha que escrever na língua em que melhor me exprimo." E foi nessa altura, então, que tocar muito bem a guitarra deixou de ser tão importante. "Assim que comecei a fazer canções cansei-me dos malabarismos com a guitarra, hoje sou menos tecnicista mas sou mais intuitivo. É o instrumento que deve servir a canção e não o contrário."

Hoje, com 36 anos e com mais de meia dúzia de discos em nome próprio, Samuel Úria mostra que já domina bem a arte de fazer canções que só aparentemente são simples. "Como os filmes de John Ford, que são muito mais do que aquilo que ele queria admitir. É com um fio de seda estar a fazer um saco de serapilheira. Isso interessa-me nas canções." Sami (é assim que os amigos o chamam) está cheio de referências - literárias, cinematográficas, musicais - e isso passa, obviamente, para as canções. Mas, por outro lado, e esse é que é o verdadeiro segredo, mesmo quando andamos a cruzar-nos com Dylan ou com os Beatles (ou até com os Gorillaz), mesmo que traga David Fonseca para tocar bateria ("o Fonseca dá-lhe com muita força"), e convide Francisca Cortesão e Sela Uamusse para cantar, aquilo acaba sempre por soar a Samuel Úria (e é isso que faz um autor, não é? não tenhamos medo das palavras).

"A minha escrita, sendo mais ou menos encriptada, é muito assumida, não há nenhuma palavra que esteja nos meus discos que seja esbanjada por mero efeito ou recurso estilístico", garante. E conclui: "A mim interessa-me mais que as pessoas me compreendam do que me decifrem, quero que ouçam as minhas canções e sintam alguma coisa."

Veja-o a tocar o tema "Dou-me Corda":

Relacionadas

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Artes
Pub
Pub