É a vida. A melancolia de Rodrigo Leão e Scott Matthew em palco

Português e australiano apresentaram o seu Life Is Long no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no âmbito do Misty Fest

Scott Matthew chega-se ao microfone e diz aquilo que todos já ouviram: "Não sou conhecido por fazer canções muito felizes." Mas logo atalha que vai cantar uma canção de amor, algo "positivo", e ainda estamos quase no início deste domingo à noite, no Coliseu dos Recreios, onde o australiano e o português Rodrigo Leão - mais o quinteto que os acompanham - se apresentam com Life Is Long, o álbum que os dois lançaram no final de setembro.

Quando Scott fica sozinho em palco, já mais a meio, para interpretar duas canções, vai ao seu álbum de versões buscar Smile, de Charlie Chaplin, o palhaço triste que cantou "Smile, what's the use of crying?" - e o australiano fá-lo sem artíficios, a voz e a guitarra dedilhada. E logo depois, sozinho com a mesma guitarra, convida o público a acompanhar os coros de I Wanna Dance with Somebody, o hit de Whitney Houston, mais uma nota de humor que se solta. Como também quando reinterpreta o original com um "don't you want to dance with me boy... girl... someone... I don"t care", e provoca risos ao público e ao próprio.

Quando se ouve Life Is Long, sabemos porque se explica Scott. Já ao DN, em entrevista, o australiano tinha recusado dizer que escrevia letras tristes, preferindo a palavra "melancolia". Mas é uma melancolia que transporta esperança, com espaço para resgatar, pelos arranjos vivos do violoncelista Carlos Tony Gomes, uma pitada mais do som que Rodrigo Leão há muito tece, entre a síntese da Sétima Legião e dos Madredeus, que fundou nos anos 1980, e o classicismo cinéfilo que pontua a sua carreira a solo. A banda que o acompanha traduz este caldeirão: há uma guitarra e baixo, um trompete e uma bateria, sintetizador e órgão, mas também o violoncelo e o violino.

O público sabe ao que vai: rendido à voz de Scott, familiarizado com os instrumentais que Rodrigo recupera de Cinema, aplaudindo os agradecimentos de um e outro para a família que está na plateia. Percebe-se melhor que é uma imensa família, um grande grupo de amigos. Life Is Long, a fechar antes do encore, que Scott apresenta como a canção de que mais gosta do álbum, é de facto a chave para esta saudade que se desprende de cada palavra e de cada tom.

No regresso ao palco, repete-se That's Life. "Grateful, no need for you explain/ no need for this to spell pain/this may not be a failure/this lose can be a gain." É a vida. E sabe bem ouvi-la interpretada assim neste palco.

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