Dez anos para desenhar um novo herói dos quadradinhos: o poeta Pessoa

Miguel Moreira decidiu que a vida do autor de o "Livro do Desassossego" era a melhor razão para se dedicar à banda desenhada

É a mais recente biografia sobre Fernando Pessoa e também a mais diferente sobre o poeta desde que em 1950 João Gaspar Simões publicou a sua primeira história.

Intitulada As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal..., também tem muitas palavras, mas a maior parte da página - por vezes toda - está ocupada por desenhos. E, desta vez, o autor não conviveu com Pessoa, pois só há dez anos é que Miguel Moreira decidiu perceber como seria transformar o poeta em herói de banda desenhada. Dez anos e 163 páginas depois, o álbum que começa com o parto de Pessoa e termina com a sua morte está nas livrarias.

Miguel Moreira é o argumentista e desenhador e contou com a colaboração da colorista Catarina Verdier. Dois nomes mais ligados do que se depreende, pois são um casal, como que a imitar um dos autores que Moreira mais aprecia, Frank Miller, que também teve uma altura na sua atividade em que contou com a colaboração estreita de uma colorista num dos seus melhores períodos: "A partir do momento em que se olha para o desenho colorido, percebe-se que a cor tem tanta ou mais importância do que o desenho."

Catarina Verdier concorda e dá o exemplo de Hugo Pratt, que, por norma, desenhava a preto e branco mas em certos trabalhos havia um colorista: "Mas dava a indicação para não haver cores fortes." Acrescenta que "a cor muitas vezes define espaço e pode tornar o desenho mais atrativo", situação que exige uma colaboração perfeita, pois, alerta Miguel Moreira, "se a relação não for assim pode haver choques desnecessários".

O único choque na realidade que aconteceu foi a imposição que o texto de Fernando Pessoa colocou à escrita do argumento: "Na fase inicial, foi fácil lidar com a obra do poeta, mas ao ver o resultado final confirmei que houve uma luta efetiva entre a palavra e a imagem. Notam-se grandes áreas de texto, mesmo que haja outras grandemente dominadas por desenho."

Contra isso, Moreira beneficiou da opção que fez para o guião, a de utilizar a ordem cronológica para fazer a biografia: "A ideia de Fernando Pessoa foi evoluindo e senti-me sempre num terreno por desbravar. Houve um argumento inicial, baseado nas leituras que fiz durante quatro anos, período em que nada desenhei. Apenas escrevi o alinhamento."

Desta investigação, o autor considera que ficou com uma ideia bem diferente de quem era Pessoa: "Concluí que não o conhecia bem, mas também era bom não ter uma ideia preconcebida. Há um momento, durante a Grande Guerra, em que deixa de ter as ambições modernistas e põe os heterónimos a escrever sobre sociologia. Achei que a história iria acabar antes do que imaginava, mas a vida continua e temos a aventura do Orpheu e muitas outras que deveriam ser contadas."

Quem lê o álbum acaba por perceber que existem vários livros dentro do livro. Para Catarina Verdier, é uma divisão que "acontece de forma natural e mostra que existem várias estações, em que a cor assume tonalidades e jogos que correspondem a certas fases". Explica como a cor ajuda a fragmentar o livro: "Muda de forma subtil em função do local em que as coisas acontecem." Ao que o autor acrescenta: "O livro poderia ter um índice, pois tem capítulos: uma introdução, três atos principais, o Livro do Desassossego e a conclusão. Aí, é a cor que ajuda a fragmentar o livro nas estações diferentes."

Para Mário Moreira, a história até "poderia ser publicada diariamente num jornal porque funciona em grupos sucessivos de cinco meias páginas com um tom cromático idêntico". No entanto, não se nota porque está uniformizado: "O corte acontece a partir do momento em que Sá-Carneiro entra na história, aí começa tudo do zero e vai ocupar 40 páginas."

Qual a razão para ter escolhido Fernando Pessoa para esta aventura pela banda desenhada? "Estava interessado em fazer banda desenhada e Pessoa era o tema que me despertava interesse. As duas coisas ligaram-se a dado momento e a investigação começou. A partir daí, foi uma década de dedicação", explica. Quanto ao facto de poder não ser bem recebido pelos puristas pessoanos, confessa que não se preocupou: "Já tiveram tantos exemplos de adaptação em tantas abordagens artísticas que já estão vacinados para casos como o deste livro." E vai buscar o exemplo de um pessoano, Jerónimo Pizarro, que o incentivou a explorar outras formas de expressão: "Usar certas imagens do álbum para fazer postais ou ímanes, por exemplo."

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