De Bach a Debussy, Nelson Freire passa em revista a sua arte

Aos 71 anos, Nelson Freire tem uma carreira internacional de 56 anos

Pianista brasileiro apresenta-se hoje a solo no Grande Auditório da Gulbenkian. É o regresso a Portugal de um talento único

Em maio de 2015, Nelson Freire foi o convidado de honra para a edição do cinquentenário do Festival de Sintra. Desta vez, é a Gulbenkian que o recebe para um recital a solo. O programa que escolheu percorre panoramicamente o seu repertório de eleição, com a Tocata em dó m de Bach, duas mazurcas, o Scherzo n.º 1 e a Barcarola de Chopin, a Sonata em fá m, op. 5 de Brahms e a suite Children"s Corner, de Debussy.

Um dos verdadeiros e raros magos do piano atual, sem parangonas nem alarde - a entrevista que no ano passado concedeu ao DN foi uma das raras que deu ultimamente - vem fazendo o seu percurso, deslumbrando o público simplesmente através do seu pianismo.

Menino-prodígio, Nelson soube cumprir em pleno na maturidade o que anunciara em pequeno: um talento prodigioso que se revestiu com o tempo de elegância, finura, classe e discrição. Numa época em que cada vez mais se ouve dizer que os pianistas da geração mais recente soam todos sensivelmente iguais, é bom - salutar, mesmo - que haja alguém como Freire, cuja arte assenta em fundamentos que nada têm que ver com fogosidade ou brilho fátuo, show-off ou pirotecnia, embora ele detenha obviamente os requisitos para o ser. O que acontece é que ele os soube revestir, envolver a um ponto em que eles deixam de ter protagonismo e são apenas o substrato de uma arte maior.

Ligação a Portugal

Aos 71 anos, Nelson Freire pode olhar já para 56 anos de plena carreira internacional - sim, tinha só 15 anos quando começou a cotejar-se com os maiores pianistas desse tempo. E Portugal foi marcante nesse percurso inicial: aos 19 anos (em 1964) veio cá para competir no Concurso Vianna da Motta. Ganhou, claro. E logo nesse ano foi convidado para atuar no Festival de Sintra pela grande mecenas da música, a marquesa Olga de Cadaval. Que o acolheu em sua casa durante toda a sua estada: dessa e de todas as outras vezes subsequentes. Os pais de Nelson dela diziam que era "a mãe europeia" dele. Nessa casa, sempre cheia de artistas, conviveu com colegas pianistas como Martha Argerich, Daniel Barenboim, Stephen Kovacevich, Roberto Szidon, entre muitos outros.

Tesouros sonoros

A discografia de Nelson Freire não é abundante, mas é de qualidade excecional. Por ocasião dos seus 70 anos (que celebrou em outubro de 2014), foram editadas algumas pérolas inéditas ou fora do mercado, como o conjunto das gravações para a Columbia Records (depois comprada pela Sony) na primeira fase da sua carreira; uma coleção de concertos para piano gravados ao vivo por algumas rádios europeias entre 1968 e 1979, The Radio Days; e a gravação da final do Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro (prova a solo e com orquestra), que venceu aos 12 anos!

E ele próprio gravou um conjunto de repertório, como se fosse um presente para si mesmo, o que resultou num disco-Beethoven, noutro dedicado a Chopin e um terceiro a Bach. O mais recente disco, já deste ano, é nova reedição da Sony (há muito que Freire é artista da Decca), contendo o Carnaval de Schumann e os Improvisos D899 de Schubert.

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