Cornucópia fecha hoje as portas: "Fomos vencidos"

Luís Miguel Cintra em "Hamlet", 2015

Será com um recital com textos de Apollinaire que, esta tarde, se despede o Teatro da Cornucópia, após 43 anos de atividade e muitos avisos de que não havia condições para continuar.

É preciso tocar à campainha para que a porta se abra. Lá dentro, por trás do guichet da bilheteira, está Georgina Barbosa. Atende o telefone, responde com simpatia, explica a todos os que ali vão que os 115 bilhetes para a sessão de hoje estarão disponíveis a partir das 15.00 e que serão entregues, no máximo, dois bilhetes a cada pessoa, por ordem de chegada. "Temos umas almofadas que podemos distribuir a quem quiser ficar nas escadas, mas a não mais de 16 pessoas. Somos muitos pequenos", justifica. Prevê-se lotação esgotada no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. E não é caso para menos.

Hoje, às 16.00, o Teatro da Cornucópia apresenta um recital a partir de textos de Guillaume Apollinaire, poeta francês do início do século XX, com encenação de Luís Miguel Cintra e direção do maestro João Paulo Santos, com a participação de músicos, cantores e atores "da casa". Também será lançado o segundo volume do catálogo da atividade da companhia (2001-2016). Será, sobretudo, um momento de balanço e de despedida. Esta é a última vez que o público poderá assistir a um espetáculo da companhia fundada há 43 anos.

O Teatro da Cornucópia anunciou o fim numa newsletter enviada como anexo num mail à comunicação social em que anunciava a sessão de hoje. Aí se lia: "No último mês de 2016 chegam ao fim os mais do que 43 anos de trabalho do Teatro da Cornucópia. 126 criações no histórico, três estreias mundiais, 25 textos dramáticos portugueses, dezenas e dezenas de atores de todas as gerações, encenadores convidados, espetáculos acolhidos e coproduzidos. Pensamos que ao longo destes anos fizemos muito e menos mal, mas também julgamos já ter idade para ousar dizer que não sabemos nem queremos adaptar-nos a modelos de gestão a que dificilmente nos habituamos a cumprir. Isso faríamos mal. Talvez seja tempo de parar a atividade."

A informação passou despercebida aos jornalistas, tal e qual como se pretendia. Quando, há dias, entre as gentes do teatro se começou a ouvir falar do assunto, Luís Miguel Cintra recusou-se a comentar o assunto: "Venham no sábado se quiserem saber mais", respondeu ao DN na quarta-feira. Ontem, porém, decidiu falar mais abertamente sobre o assunto. E confirmou aquilo que já sabíamos: "Fomos vencidos." Vencidos pela crise, pela burocracia, pelas exigências do concurso aos apoios plurianuais a que a Cornucópia se devia recandidatar até ao final desde mês para, se tudo correr bem, continuar a receber os cerca de 309 mil euros anuais que recebia até aqui.

"O Misantropo", o primeiro espetáculo, 1973

Mas, para isso, a companhia teria de apresentar um plano de atividades muito mais extenso. A Cornucópia sempre funcionou tendo como base o trabalho em parceria dos seus dois diretores - o encenador Luís Miguel Cintra e a cenógrafa Cristina Reis - e apesar de ter alguns acolhimentos e atividades paralelas, estes sempre foram pontuais. Ali trabalha-se intensamente durante meses, com a porta fechada, para depois poder apresentar um espetáculo de excelência ao público. Não uma peça com dois atores e uma cadeira, mas espetáculos com muitos atores, cenários e figurinos sempre magníficos, uma fasquia elevada e de que os criadores não abdicam. "Não seria possível, para nós, mudar agora de cabeça e começarmos a funcionar como uma companhia nova", disse ontem Cintra ao DN. Rejeitando a "leviandade na abordagem" à proposta teatral, para o ator, manter a Cornucópia em funcionamento seria "falta de respeito para com o público".

Há uma tranquilidade na voz de Luís Miguel Cintra que se mantém apesar dos seus 67 anos e da doença de Parkinson que o afetou nos últimos anos e que o levou a, no ano passado, ter anunciado o fim da sua carreira como ator. É uma tranquilidade aliada a uma sabedoria imensa e a uma coerência que se foram tornando cada vez mais raras neste universo artístico. É o próprio Luís Miguel que assume que não é como os outros: "Admito que haja outras estruturas que possam trabalhar com muito menos dinheiro e com maneiras de trabalhar que se traduzam em menos gastos, nós não conseguimos", dizia ao DN aquando da celebração dos 40 anos da Cornucópia.

Os avisos foram feitos. Agora, Luís Miguel Cintra e Cristina Reis sentiram que é o momento de encerrar o Teatro da Cornucópia. Depois da sessão de hoje, no final da qual haverá discursos e petiscos, a companhia irá continuar a funcionar apenas burocraticamente, para que o encerramento se faça com tranquilidade: é preciso, antes de mais, resolver a questão dos trabalhadores e, depois, também do espólio acumulado ao longo destes mais 40 anos e do espaço. O Teatro do Bairro Alto é um espaço privado cuja renda de seis mil euros é assegurada, há muitos anos, pelo Ministério da Cultura - que já garantiu que irá continuar a fazê-lo pelo menos durante mais um ano.

Mesmo sem bilhetes para vender, Georgina Barbosa vai ficar no teatro até ao último dia em que tal for possível. Tem 52 anos e trabalha ali desde 2 de maio de 1998. Além da bilheteira, trata dos recursos humanos e faz tudo o que for preciso. "Sou uma privilegiada porque posso ver estes espetáculos todos." Desde que ali está, só não viu os espetáculos que aconteceram durante as licenças de maternidade: "Não consigo escolher um, gostei muito do Cimbelino, do Colar, da Esopaida, deste último Hamlet que era maravilhoso, tanto, tantos." Na Cornucópia, quando não há espetáculo, a porta cinzenta está fechada e é preciso tocar à campainha. Agora vai sempre assim.

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