"Com o dinheiro podemos comprar o juiz e o poder, mas não o saber"

Nuccio Ordine escreveu um manifesto em defesa dos saberes tidos como inúteis. A leitura dos clássicos, a música, a filosofia são, defende em A Utilidade do Inútil, o que pode salvar a humanidade da crise moral que atravessa
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A Utilidade do Inútil, o livro que vem apresentar a Portugal, está traduzido em 19 línguas, e foi publicado em 26 países. Parece estranho, se pensarmos que este é, como diz, "um apelo às armas" por uma viragem da sociedade para os clássicos ou para um conhecimento dito inútil. O seu discurso sistemático denucia a sua profissão: professor. No final da entrevista, conta que sempre se sentiu "um anão por entre os gigantes". Falava de dois amigos: o conterrâneo Umberto Eco, que diz fazer-lhe muita falta, e George Steiner, o reservado estudioso de amizades sólidas. Conta ainda que está a preparar, com Rita Marnoto, da Universidade de Coimbra, a primeira edição bilingue de Os Lusíadas em italiano.


É professor universitário. Os seus professores marcaram-no?
Sim. Se sou a pessoa que sou hoje, devo-o aos meus professores da escola e da universidade. Nasci numa pequena aldeia em Calabria, onde não havia livrarias nem bibliotecas. Em minha casa não havia um livro, a minha família é modesta. Quando Albert Camus ganha o Prémio Nobel da Literatura, escreve duas cartas: à sua mãe e ao seu professor. Nasceu numa família pobre, o seu professor encorajou-o a fazer o concurso para o liceu. Acho que a escola, a universidade, e a cultura, podem mudar a vida de uma pessoa.


Que tipo de relação tem com os seus alunos?
O livro que escrevi foi pensado para eles. Todos os anos, no primeiro dia de aulas, pergunto-lhes: "Porque vieram para a universidade?" E todos me respondem: "Para ter a licenciatura." Digo-lhes que isso é um grande erro. O que conta não é o diploma, é o percurso que fazemos, e portanto o amor que podemos ter pela cultura em si. Hoje os alunos são corrompidos pela sociedade, porque o utilitarismo é muito forte. Fazemos crer aos estudantes que é preciso estudar para ter uma profissão: é um grande erro. É preciso estudar para nos tornarmos melhores, para adquirir um conhecimento que possa permitir-nos ser mulheres e homens livres, capazes de ter um pensamento critico. Infelizmente, a escola e a universidade não fazem compreender isso aos alunos. Foi por isso que escrevi este livro. Para lançar um grito de alarme: é preciso mudar a educação.


O livro A Utilidade do Inútil - Manifesto não nasce de uma epifania, mas de algo em que vem a pensar há muito tempo?
Claro. Ao longo dos anos, ao ler romances, poesia, anotei coisas num caderno e reli-as aos meus alunos. A certa altura deparei-me com um caderno repleto de citações, de considerações e disse: "Talvez seja preciso criar algo para fazer compreender aos jovens que a nossa sociedade está a destruir a humanidade." Podemos vê-lo ao olhar para a Europa. A Europa que estamos a construir não é a da solidariedade humana, não é a da livre circulação. Paradoxalmente, na época do Renascimento, de Giordamo Bruno, de Camões, de Galileu, havia uma Europa onde os homens da ciência se sentiam numa mesma comunidade, independentemente do país de origem. Hoje construímos apenas a Europa da banca e das finanças. Foi essa Europa que tomou o poder, não foi a Europa da cultura. Vemos isso com os imigrantes. Em Itália temos imigrantes que chegam desesperados. Há uma serie de partidos fascistas na Europa que veem nos imigrantes o perigo da corrupção da Europa. Isso é uma mentira enorme. Porque a nossa civilização é a da mistura. Se vamos construir uma Europa egoísta, onde cada um pensa em si, vamos destruir a Europa. É por isso que digo que é preciso voltar ao ensino dos clássicos, da literatura, da filosofia, da música, porque eles podem encontrar a relação que une as pessoas novamente.


Vê a subida dos partidos de poder de extrema-direita ou mesmo o brexit como consequência dessa Europa que diz ser sobretudo financeira?
Claro que sim. A mensagem que hoje chega às pessoas é a de pensar no seu próprio interesse pessoal. Dizemos-lhes: "Há que viver no pequeno perímetro da tua vida, e não deves sair daí" Chamo hoje ao movimento de direita os propagadores do medo, porque através do medo ganharam muitos votos para os seus partidos. Acho que isso é muito desonesto. Esses partidos dizem as pessoas que sofrem: a culpa do vosso sofrimento é dos imigrantes, é o outro. Escondem a verdade. A crise que estamos a viver é sobretudo moral, a corrupção é muito forte. Podemos acabar com ela se educarmos as pessoas na solidariedade humana, no amor pelo bem comum. O meu livro chama-se Manifesto, pois penso que é um apelo às armas, a fazer uma batalha que deve ser feita para mudar a sociedade.


O livro fala de uma cultura que esqueceu o humano como figura central?
Sim. Albert Einstein escreveu um artigo em que dizia: "Apenas uma vida vivida pelos outros é uma vida que merece ser vivida." Acho que os saberes ditos inúteis podem ser o veículo para passar a mensagem. A cultura pode ser uma forma de resistência à ideologia utilitarista. Com o dinheiro podemos comprar o juiz e o poder, mas há uma coisa que não podemos comprar com o dinheiro: o saber. O saber é fruto de um esforço que ninguém pode fazer em nosso lugar. Se o homem mais rico do mundo vier ter comigo e disser: "Professor, pode tornar-me sábio?" Mesmo que me dê um cheque em branco, eu não posso abrir-lhe a cabeça e pôr lá o saber. O saber é uma forma de destruir a lei do mercado. Na lei do mercado há sempre uma perda e um ganho. Mas todos os dias há um pequeno milagre numa escola de Portugal, ou de África, onde um professor explica o teorema de Pitágoras a uma turma: ele não perde nada, e os outros ganham.

Se um aluno lhe perguntasse porque é que os livros lhe mudaram a vida o que responderia?

Para isso é preciso agarrar numa passagem de Homero, de Orlando Furioso de [Ludovico] Ariosto, ou em versos de Camões, e fazer ver que é preciso estudar os clássicos, não para passar num exame, mas porque naquelas páginas há uma mensagem para a nossa vida. Um verdadeiro clássico responde sempre às nossas questões. Leiam-se as passagens sobre a corrupção n' Os Lusíadas de Camões. Hoje na nossa sociedade a mulher não tem verdadeiramente os mesmos direitos que o homem; é aparente. Em Orlando Furioso há versos que leio sempre aos meus alunos onde Ariosto diz: porque é que uma mulher que é acusada de ter traído o seu marido está destinada a ser morta e o homem que traiu a sua mulher não? Isto é de 1516.

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