Chuck Berry, o rocker negro que os brancos assimilaram

Chuck Berry morreu no sábado à noite, aos 90 anos

Basta um quadrado de canções - "Maybellene", "Roll Over Beethoven", "Rock and Roll Music" e "Johnny B. Goode" - para se entender como ele faz parte história da idade Rock. Morreu aos 90 anos, depois de anunciar o regresso aos discos.

Na sua primeira visita ativa - para concerto, entenda-se - a Portugal, há quase 40 anos, Chuck Berry foi protagonista de uma cena que ajuda a definir-lhe o caráter: acabadinho de aterrar no aeroporto da Portela, tinha à sua espera uma limusina, a condizer com o estatuto de "pai fundador" e (já então) de veterano. Com um pequeno problema: o veículo de luxo era preto.

E Berry embirrou - só sairia dali, rumo ao Pavilhão do Belenenses que já o aguardava, numa limusina... branca. Acresce que tudo isto se passava num domingo e, salvo erro (de margem mínima, caso exista), na viragem para a década de 80 do século passado. Motivos de sobra para que o caldo entornasse.

Impôs-se a experiência e valeram os contactos do promotor português - Ricardo Casimiro - e, com algum atraso, o cantor, guitarrista e compositor lá chegou ao seu destino, com as canções douradas e o Duck Walk (um passo "de dança" inventado pelo próprio Berry para ajudar à coreografia de palco) afinadinhos para conseguir a rendição dos espectadores.

Só fica por saber, mas o segredo é mesmo a alma do negócio, se Berry também exigiu o pagamento em "numerário" (ou seja, em notas), como fez durante nos Estados Unidos, prática que, de resto, lhe renderia um processo por evasão fiscal, um dos múltiplos dissabores judiciais de que foi alvo ao longo de toda a vida: começaram antes dos 18 anos (assalto à mão armada) e acabaram bem depois dos 70 (falta de reconhecimento e pagamento de direitos de autor a um dos seus primeiros parceiros, o pianista Johnnie Johnson, que se anunciou coautor, por exemplo, de Roll Over Beethoven e Sweet Little Sixteen, quase 50 anos depois de as canções aparecerem...).

Berry, que regressaria a terras lusas no meio do turbilhão de espetáculos da Expo "98, não escapa à regra, muito rock"n"roll, que se prende com as queixas por desrespeito às mulheres. A mais bizarra prendeu-se com uma queixa coletiva (59 alegadas vítimas) contra o músico, por ter instalado secretamente uma câmara de video na casa de banho do restaurante The Southern Air, de que era proprietário no final dos anos 1980. Berry explicou que a medida visava apanhar em flagrante uma empregada suspeita, mas acabou por pagar mais de um milhão de dólares de indemnização às vexadas mulheres.

Outro caso, que lhe rendeu três anos de prisão, envolveu as relações com uma jovem índia de 14 anos, Janice Escalante, e que o impediu de gozar em pleno os anos de glória - esteve detido entre 1959 e 1962, precisamente na época em que gravou e divulgou os seus hinos "estruturantes", a saber Maybellene (55), Roll Over Beethoven (56), Rock and Roll Music (57) e Johnny B. Goode (58).

Na época do caso Escalante, Chuck já era casado com Themetta Berry, num matrimónio que só agora foi interrompido, por motivos de força maior, ao fim de 68 anos. Berry tinha, de resto, anunciado que o regresso aos discos originais, marcado para este ano, com a edição de Chuck, em que participam os seus filhos Ingrid e Charles Jr., era uma forma de homenagear a mulher, a quem não será difícil reconhecer uma paciência "de santa" para aturar todos os sobressaltos.

Fonte de inspiração

Sem os problemas com a Justiça, tudo podia ter sido diferente, até porque, ligado à editora Chess Records depois de um conselho de Muddy Waters, Berry "cresceu" musicalmente na melhor companhia: entre os seus parceiros de selo, contavam-se, além do próprio Waters, Howlin" Wolf, Willie Dixon, Buddy Guy, Bo Diddley (todos negros) e Carl Perkins, o criador de Blue Suede Shoes, branco, que se tornou grande amigo de Chuck.

De todos estes afro-americanos, foi Berry que conseguiu os maiores êxitos, capazes de ultrapassar as fronteiras raciais. E se a história do rock costuma consagrar Bill Haley (e Rock Around The Clock) como "primeira pedra" e Elvis Presley como a estrela que mudou o estilo para outra dimensão, não deixa de ser curioso que muitos dos futuros deuses deste Olimpo elétrico - os Beatles, os Rolling Stones, Eric Clapton e os Beach Boys, responsáveis por "descolorir" a canção Sweet Little Sixteen, de Berry, adocicando-a, escrevendo uma nova letra e rebatizando-a como Surfin" USA - escolham Chuck como o homem que efetivamente moldou e batizou o rock.


Sendo certo que o cidadão Charles Edward Anderson optou muitas vezes por comportamentos "alternativos", o artista Chuck Berry merece ser recordado como um dos homens de panteão, apesar de não ter um êxito novo desde 1965, ano em que publicou Nadine, e de ter estado sem gravar novos álbuns desde 1979, quando editou Rock It, o tal disco que poderá agora ter continuação, mas já a título póstumo.

Berry manteve uma média anual próxima dos cem concertos até 2011: no espetáculo em que se apresentava para saudar o Ano Novo, desmaiou, foi transportado para o hospital e acabou por ser-lhe diagnosticada exaustão. Ou apenas o PDI, o Peso da Idade, implacável para um homem que, em 1979, conseguiu apresentar-se num show na Casa Branca, a convite de Jimmy Carter, e depois ser preso por fuga ao fisco, cumprindo quatro meses de cadeia e mil horas de trabalho comunitário.

Tinha 90 anos, festejados a 18 de outubro último. Mantinha-se fiel ao seu estado natal, o Missouri, onde nasceu (em St. Louis), onde vivia e onde morreu (em St. Charles). Dos patriarcas, sobram agora Fats Domino - que chegou a ser dado como desaparecido depois furacão Katrina ter devastado New Orleans - e Jerry Lee Lewis. Mas é clara e evidente a ideia de que, com o silêncio definitivo da sua guitarra Gibson, morre mais um pouco do rock e da sua envolvente mitologia.

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