Anos 80: subir a escada rolante das Amoreiras e ir dormir com o Vitinho

Foi em dezembro de 1981 que António Variações foi cantar no programa Passeio dos Alegres, na RTP. Morreu em 1984.

Joana Stichini Vilela edita "LX80 - Lisboa entra numa nova era", onde recorda como era a vida na capital naquela década, marcada pelo consumismo e pelas noites efervescentes do Bairro Alto.

Em 1980, o salário mínimo em Portugal era de 7500 escudos. Um gelado Perna-de-Pau custava 12,50 escudos. Nesse ano, foram celebrados 72 164 casamentos e José Cid ganhou o festival RTP da canção com Um grande, grande amor. Dos mais 7 milhões de eleitores registados, quase 85% votaram nas legislativas que deram a vitória à AD.

1980 foi também o ano em que nasceu Joana Stichini Vilela, em Lisboa. A mais nova de cinco irmãos, havia de se tornar jornalista. Neste momento a trabalhar como freelancer, apresenta, com Pedro Rolo Duarte, o programa Central Parque, na RTP. E é autora de uma coleção de livros que recordam a vida na capital portuguesa nas últimas décadas: depois de Lx60 e de Lx70, estará à venda amanhã o terceiro (e último, diz ela) volume, Lx80.

Quando começou a trabalhar no primeiro, Joana tinha uma ideia muito clara de trazer para os livros aqueles factos da história que geralmente ficam esquecidos dos livros de História com "H" grande. "Os grandes acontecimentos políticos estão muito bem tratados, mas faltavam aquelas pequenas coisas do quotidiano das pessoas. A ideia era mesmo fazer um mergulho numa época, uma viagem no tempo." Como era a vida das pessoas? Do que é que se falava? Que músicas ouviam? Depois do livro dos anos 60, pareceu-lhe óbvio continuar com a década seguinte e "naturalmente" chegou aos anos 80. "Fazia sentido juntar estas três décadas, são muito diferentes mas juntas fazem um bloco", explica. De todas há ainda memórias vivas e isso faz com que exista uma certa "mística" em redor de cada uma delas. "As pessoas recordam sempre os anos da sua juventude como muito especiais, mesmo que tenham sido anos difíceis", conta Joana Stichini Vilela.

No resto do mundo, era uma forma de exercício físico. Em Lisboa, segundo explicava o Diário de Notícias da época, era a “resposta urbana de mulheres sós”. A ginástica aeróbica foi a moda dos anos 80 no que toca a exercício físico. As fotografias que ilustram estas páginas de Lx80 foram feitas para a segunda edição da revista Olá Semanário, de novembro de 1986.

Também por isso, era importante retratar os anos 80, aqueles em que Joana e Pedro Fernandes, o designer gráfico que a acompanha nesta aventura, cresceram. "Era muito pequena, mas lembro-me perfeitamente das eleições presidenciais, da segunda volta com Freitas do Amaral e Mário Soares." Foi o duelo entre o "Soares é fixe!" e o "Prá frente Portugal". Uma luta renhida em que a esquerda foi obrigada a "engolir um sapo".

Joana era uma criança e por isso é normal que as suas memórias mais marcantes desta época sejam coisas como a canção do Vitinho que, a partir de 1987, vinha anunciar que "está na hora da caminha". Os miúdos, recorda em Lx80 José Maria Pimentel , o criativo publicitário que criou a personagem para a marca de papas Miluvit, "sabiam a música toda, ficavam histéricos com o momento em que ele se despe e desce de paraquedas". Sim, quem ouviu a música na infância ainda hoje sabe a letra, confirma Joana Stichini Vilela.

Também recorda muito bem a Lambada , que foi o ritmo que veio do Brasil e marcou o verão de 1989, o lima-limão (um brinquedo que se enfiava na canela e pôs toda as crianças aos saltos) e as idas com a família ao centro comercial das Amoreiras, inaugurado em 1985. "Lembro-me de adorar andar nas escadas rolante".

Foi em 1982 que, na rua da Atalaia, abriu o Frágil, de Manuel Reis. Frequentado por artistas, jornalistas, escritores. Músicos como António Variações ou Anamar. É do Frágil a fotografia na capa de Lx80 e na qual é visível Pedro Cabrita Reis. Tornou-se o epicentro do novo Bairro Alto, onde se istalam lojas de moda e de coração, bares, discotecas. Nasce “uma Lisboa criativa, contemporânea, cosmopolita”.

Se os anos 60 foram a década da ideologia (e de sonhar com um país diferente) e os anos 70 foram marcados pela revolução de Abril (a política estava em todo o lado), esta década de 80 é aquela em que "as pessoas querem uma normalidade", procura-se recuperar o atraso perdido. "À medida que se avança na década percebe-se como não havia nada e há essa urgência de trazer tudo para cá, é uma rampa ascendente", diz a autora. É uma década marcada pela abertura ao mundo - a entrada na CEE em 1985 foi um momento decisivo - e pelo dinheiro: a bolsa, o consumo, os excessos. "Sente-se uma grande urgência. Há uma efervescência, aquela sensação de que tudo é possível."

Não foi só a "salsa das Amoreiras". Foi nesta década que surgiram as caixas multibanco, que mudaram radicalmente a relação que temos com o dinheiro. E que se começou a jogar no Totoloto. O primeiro hipermercado Continente abriu em 1987. Foi o tempo de ouvir António Sérgio na Rádio Comercial, das rádios pirata e do jornal O Independente. Da primeira telenovela portuguesa, a Vila Faia. Das Manobras de Maio e do Rock Rendez Vous. De ouvirmos António Variações cantar Estou Além e de beber Pisang Ambon.

“De casaco de peles, na rua, ou de avental, em casa, D. Maria Branca dos Santos é talvez a ‘banqueira’ mais simpática do mundo. Trata os clientes por ‘ó filho, ó filha’”, contava o Tal & Qual. Em 1984, a “banqueira do povo” foi detida pela Polícia Judiciária e condenada a dez anos de prisão por burla agravada e emissão de cheques falsos. Anos mais tarde, haveria de inspirar uma telenovela.

Claro que também havia coisas menos boas. Nesta Lisboa dos anos 80 havia prédios em ruínas e Joana guarda até hoje na memória aquele dia de verão em que ficou pregada à televisão a ver o Chiado a arder. Havia heroína a circular pela cidade e uma doença que começou a aparecer nas notícias, a Sida. Houve uma bebé raptado no hospital, poucas horas depois de nascer. "Muitos anos depois ainda se falava deste caso. Havia medo que mais bebés fossem raptados."

Cada história é contada de uma maneira diferente (pode ser uma BD, um jogo, uma entrevista, uma notícia, etc.) e com uma estética diferente. No final do livro que é também o final da década, em 1989, aparece "a campanha mais louca do mundo": a de Marcelo Rebelo de Sousa à Câmara de Lisboa, com o candidato a banhar-se no Tejo e a conduzir um táxi. Perdeu as eleições. Ninguém podia imaginar ainda o que iria acontecer em 2016.

LX80 - Lisboa entra numa nova era
Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes
Editora Dom Quixote
PVP: 22,41euros

A capa do livro

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